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CamilleMargarida Gauthier (Greta Garbo) é uma mulher bela, habituada à vida boémia parisiense, e cujos gastos e hábitos luxuosos são suportados pelos amantes ricos que vai tendo. É o caso do Barão de Varville (Henry Daniell), que ela escolhe sobre o jovem inocente Armand Duval (Robert Taylor) que dela se enamora. Mas a insistência de Armand vai quebrar as barreiras do pragmatismo, e Margarida aceita deixar o luxo de Paris para conhecer sentimentos verdadeiros. Só que isso implica que Armand abandone os seus projectos e empenhe a sua fortuna para manter Margarida e livrá-la das dívidas acumuladas.

Análise:

Continuando a sua viagem por clássicos da literatura, Greta Garbo interpretaria em 1936 “A Dama das Camélias” de Alexandre Dumas, filho, cujo livro de 1848 terá sido inspirado por uma pessoa real, por ele amada, e perdida. O livro inspiraria ainda a peça de teatro do mesmo nome, estreada em 1852.

Seria o último filme de Garbo sob vigência de Irving Thalberg (que morreria no mesmo ano, antes da estreia) e, segundo a actriz, o seu preferido de quantos interpretou. Com argumento escrito a muitas mãos (entre as quais as da famosa Frances Marion), “Margarida Gauthier” seria dirigido por George Cukor, que se tornaria um dos mais populares realizadores de Hollywood, sobretudo nas décadas de 40 e 50, aqui ainda na fase inicial da sua carreira.

“Margarida Gauthier” mostra-nos a história de uma cortesã parisiense (Greta Garbo), habituada ao luxo, vida boémia e gastos excessivos, vivendo do dinheiro dos seus amantes. É o caso do Barão de Varville (Henry Daniell), que após conhecer Margarida a trata como propriedade sua. Ainda assim, num primeiro encontro, Margarida, perante a escolha entre um patrono rico, ou um inocente admirador apaixonado por ela, de nome Armand Duval (Robert Taylor), opta, sem hesitar, pelo primeiro.

Com o tempo, Margarida cansa-se do Barão, e vai-se deixando intrigar pela pureza dos sentimentos de Armand. Contra os conselhos da amiga e confidente Prudence (Laura Hope Crews), Margarida deixa Paris, para tentar uma vida simples, no campo, ao lado de Armand. Mas quando Armand começa a descurar a sua vida, carreira e fortuna, para pagar as contas de Margarida e a manter consigo, o pai dele (Lionel Barrymore) procura-a para lhe explicar o quanto ela está a prejudicar o homem que a ama. Margarida, crendo estar mortalmente doente, percebe a razão do senhor Duval, e finge não amar mais Armand, voltando para o Barão. Mas a farsa não pode durar muito, e quando ela cai doente, é Armand de novo que a procura, para não a deixar morrer sozinha.

Protagonizando mais uma história trágica, a Margarida de Garbo tornou-se quase um paradigma da cortesã de bons sentimentos, dividida entre o pragmatismo do dinheiro e o idealismo do amor. Todo o filme joga com esse constante duelo, personificado nas pessoas do Barão Varville (Henry Daniell, impecável no ar distante e superior), frio, cínico e cruel, e de Armand Duval (um Robert Taylor ainda muito jovem, e incrivelmente mais expressivo que aquele que ficaria para a história nos papéis de herói das décadas seguintes) inocente, generoso e bondoso.

Por entre esse duelo (que ganha até proporções literais, com um duelo de pistolas em que o amor fere ligeiramente o dinheiro) Margarida evolui, presa aos hábitos da sua vida, e gastos excessivos, mas fascinada pela ideia de um amor verdadeiro. Os avanços e recuos são vários, e suficientes para esfrangalhar os nervos de todos os personagens, incluindo os dos amigos boémios de Margarida, da pragmática Prudence à irritante Olympe (Lenore Ulric) até ao prático Gaston (Rex O’Malley). Com a tragédia anunciada na doença que a virá a vitimar, Margarida consegue o último sacrifício ao deixar Armand para o proteger (num movimento reminiscente de vários outros filmes de Garbo).

Com um material tão melodramático, o optimista Cukor consegue dar a “Margarida Gauthier” a alegria dos momentos felizes de Margarida, em equilíbrio com a negritude do destino anunciado. E Garbo, obviamente, brilha como nunca, com o seu carácter elusivo e inescrutável (o mito que carregou sempre consigo) raras vezes a ser tão perfeitamente captado numa sua personagem de ecrã. Note-se a cena em que Garbo beija Robert Taylor, repetidamente por todo o rosto, num gesto saído da sua imaginação, e que lhe permitiu prosseguir uma cena de beijo, fugindo aos cortes da censura.

Destaca-se ainda a riqueza e elegância dos diálogos, a sumptuosidade de cenários e guarda-roupa, e a beleza da fotografia (aqui com Karl Freund a juntar-se ao habitual William H. Daniels), com planos complexos, e extenso uso da profundidade de campo.

“Margarida Gauthier” foi mais um marco na carreira de Greta Garbo, e um dos seus maiores sucessos, que lhe garantiu o prémio de Melhor Actriz do New York Film Critics Circle Awards, e uma nomeação para os Oscars.

O filme inspiraria a canção de 1936 “I’ll Love Like Robert Taylor, Be My Greta Garbo”, com música e letra de Milton Benjamin.

Produção:

<strongTítulo original: Camille; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1936; Duração: 109 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 12 de Dezembro de 1936 (EUA), 19 de Outubro de 1937 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: George Cukor; Produção: Bernard H. Hyman [não creditado], Irving Thalberg [não creditado]; Produtor Associado: David Lewis; Argumento: Zoe Akins, Frances Marion, James Hilton, Carey Wilson [não creditado] [a partir do livro e peça “La Dame aux Camélias” de Alexandre Dumas, filho]; Música: Herbert Stothart; Fotografia: William H. Daniels, Karl Freund [preto e branco]; Montagem: Margaret Booth; Direcção Artística: Cedric Gibbons; Cenários: Henry Grace [não creditado], Jack D. Moore [não creditado]; Figurinos: Adrian; Caracterização: Norbert A. Myles [não creditado].

Elenco:

Greta Garbo (Marguerite Gauthier), Robert Taylor (Armand Duval), Lionel Barrymore (Monsieur Duval), Elizabeth Allan (Nichette), Jessie Ralph (Nanine), Henry Daniell (Barão de Varville), Lenore Ulric (Olympe), Laura Hope Crews (Prudence), Rex O’Malley (Gaston).

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