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Anna KareninaNuma visita à família do seu irmão Stiva (Reginald Owen), em S. Petersburgo, a bela Ana Karenina (Greta Garbo) conhece o conde Alexei Vronsky (John Gilbert), soldado imperial, que por ela se apaixona, mesmo que seja o pretendido de Kitty (Maureen O’ Sullivan), a irmã da esposa de Stiva. Sob os avanços de Vronski, e com um marido (Basil Rathbone) que a trata como uma propriedade, Ana vai-se apaixonar, e ceder à tentação de deixar a Rússia para viver com o seu amante. Mas as saudades de Ana pelo filho, e as de Vronski pelo exército fazem-nos voltar, ainda que saibam que condenados pela sociedade de Moscovo.

Análise:

Com “Ana Karenina”, a MGM dava a Greta Garbo um remake da famosa história de Tolstoi. Depois “Anna Karenina” (Love, 1927) de Edmund Goulding, cabia agora a David O’Selznick, o qual se tornaria em breve o mais importante dos produtores independentes de Hollywood, voltar a trazer a história aos ecrãs. A realização seria agora de Clarence Brown, no seu sexto filme com Garbo, com a diferença de este ser um filme sonoro, e com um maior orçamento.

A história segue de perto aquela do filme de 1927, com a diferença de que Anna e Vronski não se conhecem num acidente de estrada, mas sim nos salões de S. Petersburgo, onde se desenvolvem histórias paralelas, como a dos desamores de Stiva, Dolly e Kitty. E claro, a maior diferença surgiria com o final trágico, seguindo mais fielmente o do livro de Tolstoi.

Assim, Ana Karenina (Greta Garbo) viaja até S. Petersburgo, para visitar o irmão Stiva (Reginald Owen), que vive em constante adultério e dando desgostos à esposa Dolly (Phoebe Foster). Depois de apaziguar o casal, Ana participa num baile onde a irmã de Dolly, Kitty (Maureen O’Sullivan) lhe fala do homem que ama, o conde Vronsky (Fredric March) que Ana conhecera fugazmente na estação. Vronsky, imediatamente apaixonado por Ana, ignora Kitty, e encontra forma de viajar com Ana de regresso a Moscovo, e a partir de então começam a ser vistos cada vez mais frequentemente.

Quem não gosta da situação é o marido de Ana, o senador Karenin (Basil Rathbone), que embora não se interesse romanticamente pela esposa, procura lutar pelas aparências. Mas Ana, cansada dessa vida de aparência, foge com Vronsky. Só que, depois de um tempo em Itália, ambos têm vontade de voltar. Ela para ver o filho, ele para lutar ao lado dos seus companheiros. Vendo-se abandonada por Vronsky, e sem hipótese de ver o filho, devido à proibição de Karenin, Ana contempla o suicídio.

Onde o original de 1927, era essencialmente a história de uma mulher que deitava tudo a perder por amor, mas que esse mesmo amor salvaria (nesse filme era ela que se afastava, para dar a Vronsky a hipótese de um regresso honroso à carreira militar), no filme de 1935, são muitas as nuances que não permitem uma leitura tão a preto e branco.

Desta vez, Ana é claramente traída por muitas circunstâncias, senão vejamos: O Karenin de Rathbone, é (como habitual com actor) uma pessoa odiosa, sem um pingo de humanidade; Vronsky trai Ana, primeiro seduzindo-a, depois abandonando-a; por fim, a família de Ana vira-lhe as costas, o que é tão mais condenável por ter sido ela, no passado, a interceder para manter o casamento de Stiva e Dolly, quando Stiva era (e continuaria a ser) um adúltero compulsivo. É esse adúltero que reprova a irmã, pois afinal há aparências e ordens da vida a manter. É mais uma vez o duplo padrão já apontado em filmes de Garbo, onde as infidelidades dos homens são factos socialmente aceites, e as das mulheres são desgraças que merecem castigo.

Traída pelo amante, reprovada pela família, condenada pelo marido a nunca mais ver o filho, Ana tem apenas o suicídio, fruto de desgostos de uma vida que nada tem para lhe oferecer. A cena é prenunciada logo no início, num acidente num comboio presenciado pela própria.

Com a sua classe habitual, Clarence Brown consegue um filme superior ao de 1927, onde não faltam longas e complexas coreografias como um baile (a dança de uma mazurka) onde os passos dos intervenientes são metáforas para o estado de espírito de cada um (principalmente na atenção dada pelos pares de Garbo e de Maureen O’Sullivan), e alguns cantares em russo. De especial nota são o travelling onde a câmara se move em retro marcha, sobre a mesa do banquete, dando-nos lentamente a abertura de plano que nos vai deixando compreender a cena. Igual destaque merece a sequência final, em que, através de uma montagem sugestiva, nos é dado a entender o suicídio que não vemos, pois a censura não o permitia.

“Ana Karenina” venceria a Taça Mussolini para o Melhor Filme Estrangeiro no Festival de Veneza, e Garbo seria premiada como Melhor Actriz pelo New York Film Critics Circle. Ela que, como acabara de mostrar no anterior “O Véu da Ilusões” (The Painted Veil, 1934) estava no máximo esplendor da sua carreira, e aqui bem acompanhada por Frederic March e sobretudo Basil Rathbone.

Como não podia deixar de ser “Ana Karenina” foi um enorme sucesso, tendo o romance de Tolstoi já vindo a conhecer outras versões cinematográficas, das quais a de mais destaque será a de 1948, de Julien Duvivier, com Vivien Leigh como protagonista.

Produção:

Título original: Anna Karenina; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1935; Duração: 92 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 30 de Agosto de 1935 (EUA), 12 de Maio de 1936 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Clarence Brown; Produção: David O. Selznick; Argumento: Clemence Dane, Salka Viertel [a partir do livro “Anna Karenina” de Leo Tolstoi]; Adaptação de Diálogos: S. N. Behrman; Música: Herbert Stothart; Fotografia: William H. Daniels [preto e branco]; Montagem: Robert Kern; Direcção Artística: Cedric Gibbons; Figurinos: Adrian; Coreografia da Mazurka: Chester Hale.

Elenco:

Greta Garbo (Anna Karenina), Fredric March (Vronsky), Freddie Bartholomew (Sergei), Maureen O’Sullivan (Kitty), May Robson (Condessa Vronsky), Basil Rathbone (Karenin), Reginald Owen (Stiva), Reginald Denny (Yashvin), Phoebe Foster (Dolly), Gyles Isham (Levin), Joan Marsh (Lili), Ethel Griffies (Mme. Kartasoff), Harry Beresford (Matve), Sarah Padden (Governanta), Cora Sue Collins (Tania), Mary Forbes (Princesa Sorokina), Joseph R. Tozer (Mordomo), Guy D’Ennery (Perceptor), Buster Phelps (Grisha), Sidney Bracey (Criado de Vronsky), Harry Allen (Cord), Ella Ethridge (Criada de Anna).