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Monty Python's Life of BrianNo mesmo dia em que nascia Jesus Cristo, numa manjedoura ao lado nascia Brian. Anos mais tarde, Brian (Graham Chapman) é um jovem em crise de identidade, judeu rebelde que descobre ser filho de um romano que violara a sua mãe (Terry Jones), actual prostituta. Para provar as suas convicções, Brian junta-se à People’s Front of Judea, liderada por Reg (John Cleese), para impressionar outro elemento da facção, Judith (Sue Jones-Davies). Depois de várias tarefas de perigosidade crescente, Brian é aprisionado por diversas vezes pelos homens de Pilatos (Michael Palin), conseguindo numa das suas fugas atrair a atenção dos crédulos que o seguem fanaticamente como o novo Messias. Mas tal como com outros Messias, também o fim para Brian será o da crucificação.

Análise:

Quando, após o sucesso de “Monty Python e o Cálice Sagrado” (Monty Python and the Holy Grail, 1975) os Monty Python eram constantemente questionados quanto ao tema do seu próximo filme, Eric Idle terá respondido a gozar, que se chamaria “Jesus Christ, Lust for Glory”. Fosse ou não a ideia levada a sério, a verdade é que em 1976 os Python começavam a considerar uma nova paródia sobre uma figura histórica, como tinham feito com o Rei Artur, e Jesus Cristo parecia uma boa opção.

O argumento passou por muitas fases, abandonada a ideia de parodiar a vida ou ensinamentos de Cristo. Seguiu-se a ideia de falar de um décimo terceiro apóstolo, e finalmente essa personagem ganhou autonomia, passando a ter uma história independente da de Jesus. Nascia assim Brian, contemporâneo de Jesus, que vivendo o fanatismo político e religioso do seu tempo, acabou ele próprio por ser confundido com o Messias.

A ideia dos Python era, mais do que parodiar uma religião, parodiar o fundamentalismo, e comportamentos seguidistas que levam a que as pessoas se comportem como fanáticos, sob religiões que os exploram e dominam. Quando o argumento estava já na sua fase final, os financiadores que pediam um novo filme dos Python, assustaram-se, e o filme só pode ser feito porque o ex-Beatle George Harrison, fã confesso dos Python, entrou como produtor executivo, criando a Handmade Films, que financiou “A Vida de Brian” com três milhões de libras, simplesmente porque ele queria ver o filme.

Desta vez, ao contrário do que acontecera no filme anterior, os Python decidiram que Terry Jones seria o único realizador. Terry Gilliam, que tinha dois anos antes estreado o seu primeiro filme “a solo”, intitulado “Aventuras em Terras do Rei Bruno, o Discutível” (Jabberwocky, 1977), protagonizado por Michael Palin, continuaria a dirigir as sequências animadas, sendo ainda o responsável pelo design de produção. A produção mudou-se então para a Tunísia, onde os Python puderam filmar em cenários naturais (como muralhas, templos e anfiteatros romanos) e usar cenários deixados pela produção de “Jesus de Nazaré” (Jesus of Nazareth, 1977) de Franco Zeffirelli, o mesmo acontecendo com os figurantes.

Era até então a mais cuidada produção de sempre dos Monty Python, visível logo desde o genérico inicial, numa brilhante criação de Terry Gilliam, e com uma canção que lembrava as músicas da série 007. Do guarda-roupa aos cenários, da banda sonora aos figurantes, tudo em “A Vida de Brian” mostrava como os Python evoluíam na arte de fazer filmes. Isso reflectia-se também no próprio argumento, que era agora coeso, bem ligado, com uma história encadeada, e não como um conjunto solto de sketches como anteriormente.

Esta história seguia a vida de Brian (Graham Chapman), que nasceu no mesmo dia de Jesus, e foi desde logo confundido com o Messias. Brian é um judeu vulgar, com os problemas de todos os judeus da sua época, mais o de achar que tem um nariz grande. Filho de uma prostituta (Terry Jones) que se diverte vendo apedrejamentos, e só após o filho ser adulto lhe confessa que ele é filho de um romano, Brian quer ganhar a sua identidade. Para tal, e por se sentir atráido por Judith (Sue Jones-Davies), Brian junta-se à People’s Front of Judea, liderada por Reg (John Cleese), uma das várias organizações separatistas que lutam contra Roma.

Depois de tarefas tão simples como pintar “Romanos vão para casa” nas paredes da fortaleza de Pilatos (Michael Palin), ou de tentar raptar a mulher deste. Brian é preso e questionado por um Pilatos que não consegue pronunciar os “RR”, e é por isso motivo de troça dos seus homens. Brian escapa uma vez, e na fuga começa a pregar para iludir a perseguição, ganhando rapidamente seguidores que o adoram como Messias. No final, Brian acaba crucificado, o que não parece ser tão mau assim, como o seu parceiro de crucificação, Mr. Cheeky (Eric Idle), canta na imortal canção que se tornaria um hino dos Python “Always Look On The Bright Side Of Life”.

Mais uma vez com os vários Pythons a desempenharem inúmeros papéis, “A Vida de Brian” é uma narrativa contínua, em que cada episódio é um tiro certeiro. O humor é agora mais verbal que visual, com episódios puramente nonsense (o regatear entre Brian e o personagem de Eric Idle, as infelicidades fonéticas de Pilatos ou lição em latim), de sátira religiosa (o apedrejamento, o seguir de Brian como Messias, a quebra do voto de silêncio do eremita), sátira política (a sequência “o que fizeram os romanos por nós”, as várias facções separatistas, a esquadra suicida), simples paródia (o ex-leproso, o gladiador com ataque cardíaco, e a canção dos crucificados), havendo ainda espaço para o surrealismo (o rapto por uma nave espacial).

Com sotaques de diversas partes de Inglaterra, expressões idiomáticas usadas fora de contexto, e anacronismos propositados, o humor vem também da construção dos personagens, do seu desajuste e desajeitamento. Ainda assim, o filme seria elogiado pelo seu rigor histórico no caracterizar do povo da época, por oposição aos teatrais dramas épicos de Hollywood que fazem todas as pessoas parecerem personagens de Shakespeare.

Como não podia deixar de ser, “A Vida de Brian” foi mal recebido pelos sectores cristãos, mesmo com os Python a explicar que o filme pode ser herético, por parodiar o modo de viver as religiões, mas não é blasfemo, pois não toca em qualquer dogma ou conceito religioso. A controvérsia não parou de crescer, o que levou a debates públicos, e à proibição de exibição do filme em diversas regiões. Apesar disso (ou até graças a isso), o filme tornar-se-ia o mais popular filme dos Python, gerando uma enorme receita, e tornando-se um dos mais citados filmes cómicos de sempre.

Em 2007, inspirado em “A Vida de Brian”, Eric Idle e o compositor John Du Prez criaram o Oratório “Not the Messiah (He’s a Very Naughty Boy)”, estreado no Festival Luminato, em Toronto, no Canadá.

Produção:

Título original: Life of Brian; Produção: HandMade Films / Python (Monty) Pictures; Produtores Executivos: Tarak Ben Ammar, Denis O’Brien, Tarak Ben Ammar (Tunísia); País: Reino Unido; Ano: 1979; Duração: 89 minutos; Distribuição: Cinema International Corp. (Reino Unido), Orion Pictures (EUA), Warner Bros. (EUA); Estreia: 17 de Agosto de 1979 (EUA), 8 de Novembro de 1979 (Reino Unido), 18 de Novembro de 1980 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Terry Jones; Produção: John Goldstone; Produtor Associado: Tim Hampton; Argumento: Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones, Michael Palin; Animação: Terry Gilliam; Música: Geoffrey Burgon; Direcção Musical: Marcus Dods; Fotografia: Peter Biziou [filmado em Arriflex, cor por Eastmancolor]; Montagem: Julian Doyle; Design de Produção: Terry Gilliam; Direcção Artística: Roger Christian; Cenários: Hassen Soufi; Figurinos: Hazel Pethig, Charles Knode; Caracterização: Maggie Weston, Elaine Carew; Efeitos Visuais: Kent Houston, Paul Whitbread.

Elenco:

Graham Chapman (Segundo Rei Mago / Brian Cohen / Biggus Dickus), John Cleese (Primeiro Rei Mago / Reg / Oficial do Apedrejamento / Primeiro Centurião / Deadly Dirk / Arthur), Terry Gilliam (Homem Mais à Frente / Revolucionário / Carcereiro / Profeta de Sangue e Trovão / Frank / Membro da Audiência / Crucificado), Eric Idle (Mr. Cheeky / Stan aka Loretta / Harry o Regateador / Mulher Culpada Que Atira a Primeira Pedra / Warris / Jovem Intensamente Aborrecido / Assistente do Carcereiro), Terry Jones (Mandy Cohen / Colin / Simon o Homem Santo / Bob Hoskins / Santidade de Passagem), Michael Palin (Terceiro Rei Mago / Mr. Big Nose / Francis / Mrs. A / Ex-Leproso / Anunciante / Ben / Poncius Pilatos / Profeta Aborrecido / Eddie / Seguidor do Sapato / Nisus Wettus), Terence Baylor (Gregory / Dennis), Carol Cleveland (Mrs. Gregory / Elsie), Kenneth Colley (Jesus), Neil Innes (Samaritano), Charles McKeown (Falso Profeta / Cego / Guarda Que Ri / Stig), Chris Langham (Alfonso / Guarda Que Ri), John Young (Matthias), Gwen Taylor (Mrs. Big Nose), Sue Jones-Davies (Judith), Peter Brett, John Case (Mulher de Pilatos), Chris Langham (Alfonso / Guarda Que Ri), Andrew MacLachlan (Outro Ajudante do Oficial de Apedrejamento / Guarda Que Ri), Bernard McKenna (Parvus / Ajudante do Oficial de Apedrejamento / Guarda Que Ri), Spike Milligan (Spike), George Harrison (Mr. Papadopoulos) [não creditado].

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