Etiquetas

, , , , , , , , , , , ,

NickelodeonLeo Harrigan (Ryan O’Neal) é um mal sucedido advogado que fortuitamente acaba a trabalhar para H. H. Cobb (Brian Keith), um produtor independente de filmes. Harrigan é enviado para Oeste, onde deve pôr a funcionar uma equipa deixada ao deus dará. Pelo caminho Harrigan depara com a bela Kathleen Cooke (Jane Hitchcock), a qual terá também encontros fortuitos com o aventureiro Buck Greenway (Burt Reynolds). Quer a fortuna que os três se reencontrem na equipa de Harrigan, que vai produzindo filmes mudos, uns atrás dos outros, com o operador Franklin Frank (John Ritter) e a pequena Alice (Tatum O’Neal) a tornar-se argumentista, adaptando ideias de Shakespeare. Mas as dificuldades criadas pela Edison Trust, as trazidas pelo triângulo amoroso entre Harrigan, Cooke e Greenway, e a incompatibilidade da equipa com as produtoras, quase deita tudo a perder, até a inspiração voltar, depois de verem como o cinema passa dos pequenos nickelodeons para grandes salas, com a estreia de “O Nascimento de uma Nação” de D. W. Griffith.

Análise:

Consta que o projecto que resultaria em “O Vendedor de Sonhos” começou pela coincidência de duas intenções. De um lado Peter Bogdanovich acarinhava a ideia de fazer um filme de homenagem à era dos pioneiros de Hollywood, baseado em entrevistas feitas a Alan Dwan, Raoul Walsh e Leo McCarey. Por outro lado, o argumento de W. D. Richter, intitulado “Stardust Memories”, e comprado por Irwin Winkler, foi proposto a David Begelman da Columbia, que pensou em Bogdanovich como realizador. Bogdanovich e Richter trabalharam então em conjunto e surgiu “O Vendedor de Sonhos” que, segundo o realizador, for escrito a pensar em Jeff Bridges, John Ritter, Cybill Shepherd e Orson Welles. Mas a produção preferia algo menos dispendioso, pelo que Burt Reynolds e Ryan O’Neal ficaram com os papéis principais, contracenando com Jane Hitchcock, que se estreava no cinema.

O filme trata dos primeiros anos do cinema, no momento em que as grandes companhias de Leste, sob a égide de Thomas Edison, criaram aquilo que ficou conhecido como Motion Picture Patents Company, ou Edison Trust, isto é um conjunto de companhias que detinha legalmente a patente sobre todas as câmaras de filmar, tipos de película e processos de revelação de filmes, tornando qualquer outra produtora de cinema, ilegal. Esse período, foi vivido de forma intensa, com os acólitos de Edison a tratarem violentamente toda a concorrência, o que provocaria o êxodo para Oeste, que resultaria na fixação na zona de Los Angeles, na Califórnia, no vale que ficaria conhecido como Hollywood, onde o sol permitia mais horas de trabalho, onde os terrenos eram baratos, e onde os braços armados do Edison Trust não chegavam.

“O Vendedor de Sonhos” é, assim, uma história sobre os tempos que levaram à formação de Hollywood, quando filmar era ilegal, e todo o processo era ambulatório, provisório e improvisado. Se pensarmos que Peter Bogdanovich, um dos realizadores saídos da geração dos movie brats, era ele próprio um crítico e historiador de cinema, percebe-se porque o filme resulta numa homenagem ao cinema.

Nele acompanhamos Leo Harrigan (Ryan O’Neal), um advogado de Chicago a quem tudo corre mal, e que, por acidente, vai trabalhar para H. H. Cobb (Brian Keith), um produtor independente de filmes, acossado pela gente das patentes. Parecendo ter olho para boas histórias, Harrigan é enviado para Oeste, onde deverá inteirar-se do que aconteceu a uma equipa de filmagens de Cobb, que deixou de funcionar. Pelo caminho Harrigan encontra algumas vezes a bailarina de vaudeville, Kathleen Cooke (Jane Hitchcock), com a qual acaba por trocar malas, o que ela também faz com o aventureiro Buck Greenway (Burt Reynolds), que procura uma nova vida em Nova Iorque. Por caminhos diferentes todos se encontram nas filmagens de Harrigan, com Buck e Kathleen a casarem, para tristeza de Leo.

Entretanto os filmes sucedem-se a ritmo vertiginoso, realizados por Leo, com Buck e Kathleen como protagonistas, com o operador Franklin Frank (John Ritter) e segundo ideias daa pequena Alice (Tatum O’Neal), que se torna argumentista, adaptando ideias de Shakespeare. Quando o grupo visita um Nickelodeon percebe que os seus filmes são montados de forma aleatória por Cobb, ao mesmo tempo que o triângulo amoroso entre Harrigan, Cooke e Greenway começa a geral problemas, e o Edison Trust os volta a encontrar. Passando, sem sucesso, por outras produtoras, a equipa volta a reunir-se quando, depois de verem “O Nascimento de uma Nação” de D. W. Griffith, percebem que há muito mais cinema que aquele que imaginavam.

Realizado por alguém que sempre se viu, acima de tudo, como um historiador de cinema, “O Vendedor de Sonhos” é sobretudo uma homenagem a um tempo em que o cinema era uma paixão de pioneiros e aventureiros. Esses anos são os primeiros do século XX, quando o cinema americano era um produto do Leste dos Estados Unidos, e dominado de forma ditatorial pela Motion Picture Patents Company (conhecida como Edison Trust), criada em 1909, e que envolvia Edison, Biograph, Vitagraph, Essanay, Selig, Lubin, Kalem, Star Film Company, American Pathé, o maior distribuidor, George Kleine, e o maior fabricante de película, Eastman Kodak.

Como se procurasse integrar-se na linguagem desse tempo, “O Vendedor de Sonhos” não hesita e presentear-nos com muito burlesco, humor feito de quedas, e outras situações ridículas. Pela mesma razão faz-se uso de técnicas desse tempo, como a íris e os intertítulos. Do mesmo modo, a iluminação foi feita a pensar nos filmes a preto e branco.

Sem uma história forte que se destaque, “O Vendedor de Sonhos” é essencialmente uma série de vinhetas que, entre comédia e drama, ilustram as realidades dos primeiros anos do século XX, com paixões ingénuas por uma indústria que se estava ainda a formar. Destacam-se as interpretações acima do plano narrativo. E entre elas o protagonista Ryan O’Neal, que contracenava com a filha Tatum O’Neal pela segunda vez num filme de Bogdanovich, depois de “Lua de Papel” (Paper Moon, 1973), Burt Reynolds, então pretendente a galã, e a novata Jane Hitchcock, amiga de Cybil Shephard, que a substituiu à última hora.

Quem esperava uma comédia mais clássica, como o anterior “Que Se Passa Doutor?” (What’s Up, Doc?, 1972), terá saído decepcionado, e o filme sofreu por isso críticas negativas. Esquecendo essas ilusões, “O Vendedor de Sonhos” é um filme discreto, mas uma homenagem sincera, cheia de bons momentos, e exemplos bem captados que nos dão uma excelente ideia daquilo que esteve na base do nascimento de Hollywood, numa altura em que os filmes eram quase objectos de feira mostrados em pequenas salas para as quais se pagava uma moeda de um níquel (cinco cêntimos), do que derivava o nome Nickelodeon.

Em 2008 Bogdanovich apresentou uma versão “Director’s Cut”, a preto e branco, como originalmente o decidira filmar.

Produção:

Título original: Nickelodeon; Produção: British Lion Film Corporation / Columbia Pictures Corporation / EMI Films; País: Reino Unido / EUA; Ano: 1976; Duração: 117 minutos; Distribuição: Columbia Pictures (EUA), EMI Distribution (Reino Unido); Estreia: 21 de Dezembro de 1976 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Peter Bogdanovich; Produção: Irwin Winkler, Robert Chartoff; Produtor Associado: Frank Marshall; Argumento: W. D. Richter, Peter Bogdanovich; Música: Richard Hazard; Fotografia: László Kovács [filmado em Panavision, cor por Metrocolor]; Montagem: William C. Carruth; Direcção Artística: Richard Berger; Cenários: David Silvera; Figurinos: Theadora Van Runkle; Caracterização: Tom Ellingwood; Efeitos Especiais: Cliff Wenger; Coreografia: Rita Abrams; Direcção de Produção: Mel Dellar.

Elenco:

Ryan O’Neal (Leo Harrigan), Burt Reynolds (Buck Greenway), Tatum O’Neal (Alice Forsyte), Brian Keith (H. H. Cobb), Stella Stevens (Marty Reeves), John Ritter (Franklin Frank), Jane Hitchcock (Kathleen Cooke), Harry Carey Jr. (Dobie), James Best (Jim), Philip Bruns (Duncan), John Chappell (John), George Gaynes (Reginald Kingsley), Jack Verbois (Jack), Brion James (Guarda no Tribunal), Sidney Armus (Juiz), Joe Warfield (Advogado de Defesa), M. Emmet Walsh (‘Padre’ Logan).