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As You Desire MeEm Budapeste, Zara (Greta Garbo) é uma diva dos palcos, bajulada por admiradores que ela não hesita em levar para casa, na sua vida boémia e permanente alcoolizada, e para desagrado de Carl Slater (Erich von Stroheim), o escritor com quem ela vive. Com a chegada do estranho Tony (Owen Moore) tudo muda, pois este convence-a de que ela é Maria, a esposa do conde Bruno Varelli, e leva-a a conhecê-lo. Embora Maria não recorde nada nem ninguém, faz os possíveis para ser a condessa Varelli que todos esperam. No processo apaixona-se por Bruno (Melvyn Douglas), que está deliciado na sua renovada paixão. Só que um dia Slater surge com uma mulher que encontrou num hospício, que ele diz ser a verdadeira Maria Varelli.

Análise:

1932 foi o ano em que o contrato de Greta Garbo com a MGM terminou. A actriz sentou-se à mesa de negociações com muito mais força que quando fora contratada em 1926, e a sua principal exigência foi a de se libertar da eterna figura da tentadora trágica, para poder diversificar os papéis, em filmes de outro arrojo, inspirados em obras maiores da literatura.

É com isso em mente que Greta Garbo participa em “Como Tu Me Desejas”, baseado numa peça de Pirandello, estreada apenas dois anos antes. O poder negocial de Garbo permitia-lhe ainda ter uma palavra na escolha do elenco, e o resultado foi a contratação de Erich von Stroheim, o realizador proscrito que tão mal se deu com Louis B. Mayer e Irving Thalberg no passado, que lhe fora proibida a entrada nos estúdios da MGM. Sob a protecção de Garbo (que se diz foi quase que mãe e psicóloga do actor/realizador, nos seus momentos de insegurança) von Stroheim voltava aos sets, agora como actor, no que seria um papel muito bem conseguido.

Apesar do que se disse atrás, o início de “Como Tu Me Desejas” engana, com Garbo a surgir como Zara, uma diva dos palcos, adorada e bajulada por todos, que a seguem como cachorrinhos à espera de um sorriso, e que ela não hesita em levar para casa, embriagada, e vivendo cada noite como se fosse a última.

Logo se percebe que esse vazio, de uma vida que se parece precipitar num abismo, tem uma razão de ser. Esta chega-nos na pessoa Tony (Owen Moore), que diz ter encontrado em Zara, Maria, a mulher do seu amigo Conde Bruno Varelli, desaparecida na guerra, dez anos antes. Embora desprezando a ideia a início, Zara acaba por ver nela um bilhete de ida desta vida sem futuro, e que a prende de momento ao cínico escritor, Carl Salter (Erich von Stroheim).

Mas reencontrada com o seu suposto marido (Melvyn Douglas), a nova Maria não recorda nada, nem pessoas, nem lugares, nem histórias do passado. Aprende no entanto que é amada, e esforça-se por ser quem querem que seja, para poder continuar a receber esse amor. Isto até Carl Salter voltar, trazendo consigo aquela que ele insiste ser a verdadeira Maria.

Assim, não temos a tentadora (ou melhor, temo-la no primeiro acto, de cabeleira loura, como se a assumir um papel que não fosse o seu), para termos uma mulher amargurada pela dúvida da sua identidade. Perdida a memória durante a guerra, Garbo brilha como a mulher que quer acreditar ser a Condessa Varelli, para assim poder merecer o amor sincero que não julgava possível. Zara caminha assim num sonho, o sonho de ser feliz, que consigo traz o pesadelo de poder acordar para a realidade que teme, a de não ser quem todos pensam que é.

Essa realidade surge na confrontação do último acto, quando Carl Salter põe tudo a nu, apresentando outra mulher, que sofre de amnésia, e que tem ligação à vila dos Varelli. Porque se cria então que fosse Zara a condessa perdida? Por ser exactamente como um retrato pintado mais de dez anos antes. Só que segundo a própria, talvez essa seja a maior prova contra si, pois ninguém que passou as atrocidades por ela passadas poderia permanecer igual ao fim de dez anos.

Desmascarada a nova Maria, que é afinal uma amiga da família, permanece a dúvida. É Zara a condessa Varelli? Se Tony quer acreditar porque foi ele que o sugeriu, se Bruno quer acreditar porque já ama esta nova mulher, a própria quer acreditar porque não tem mais nada em que possa acreditar. Mesmo que tenha ficado evidente que a qualquer momento pode chegar outra mulher com iguais pretensões, deitando por terra o castelo de cartas que é a ilusão de Zara.

A nova vida de Maria é por isso um caminhar entre o sonho e o pesadelo, num filme com o seu quê de onírico, e perversamente mórbido, como se o vestir de Maria com tudo o que está num quadro que domina toda a sala, fosse quase que um desenterrar de uma morta. Nesse sentido, “Como Tu Me Desejas” surge quase como percursor de filmes como Rebecca (1940) de Alfred Hitchcock e “Laura” (1944) de Otto Preminger, dominados pela figura de uma defunta que constantemente nos observa de uma parede. Como neles temos o tema da identidade, da transfiguração pigmaliónica, do fetiche com a morte e o onirismo da incerteza.

Com um tema assim Garbo sente-se como peixe na água, levando mais longe que nunca a sua subtileza interpretativa, compondo uma das mais comoventes personagens da sua carreira.

A estrutura da peça de Pirandello seria usada por Marcelle Maurette para a sua peça de 1955, “Anastasia”, adaptada no ano seguinte ao cinema, com realização de Anatole Litvak e interpretação da também sueca Ingrid Bergman.

Produção:

Título original: As You Desire Me; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1932; Duração: 70 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 28 de Maio de 1932 (EUA), 10 de Abril de 1934 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: George Fitzmaurice; Produção: George Fitzmaurice, Irving Thalberg [não creditado]; Argumento: Gene Markey [a partir da peça “Come Tuo Mi Voi” de Luigi Pirandello]; Música: William Axt; Fotografia: William H. Daniels [preto e branco]; Montagem: George Hively; Direcção Artística: Cedric Gibbons; Figurinos: Adrian.

Elenco:

Greta Garbo (Zara / Maria), Melvyn Douglas (Conde Bruno Varelli), Erich von Stroheim (Carl Salter), Owen Moore (Tony Boffie), Hedda Hopper (Ines Montari), Rafaela Ottiano (Lena), Warburton Gamble (Barão), Albert Conti (Captão), William Ricciardi (Pietro), Roland Varno (Albert), Reginald Barlow (Dr. Reinhardt) [não creditado], Nella Walker (Lucia Marco) [não creditada].

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