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Grand HotelO Grande Hotel de Berlim, o mais caro e mais bem frequentado da cidade, onde, segundo o Dr. Otternschlag (Lewis Stone) “as pessoas vão e vêm, e nada acontece”, é palco onde se desenrolam várias histórias. Estas são a do industrial Preysing (Wallace Beery), envolvido em negociatas internacionais; a de Kringelein (Lionel Barrymore), um empregado de Preysing, com uma doença fatal, que quer passar os últimos dias em grande; de Flaemmchen (Joan Crawford), a estenógrafa contratada por Preysing, mulher moderna que quer vingar, mantendo o romantismo, que vê dirigir-se ao Barão von Geigern (John Barrymore), mas terá de ceder aos avanços do patrão; do Barão von Geigern, que sem ninguém saber está falido e com necessidade de dinheiro rápido, pelo que planeia assaltar a fútil bailarina Grusinskaya (Greta Garbo), pela qual se virá a apaixonar.

Análise:

“Grande Hotel” destaca-se desde logo por ser o único filme americano protagonizado por Greta Garbo, onde a actriz não tem um papel preponderante. De facto, sendo um filme de ensemble, que vale por um excelente conjunto de actores, Garbo acaba por ter uma das personagens menos interessantes e com menos tempo de tela.

Baseado numa peça de teatro de peça original Vicki Baum “Menschen im Hotel”, a qual fora adaptada para o público americano por William Absalom Drake, sob o título “America”, “Grande Hotel” é um olhar irónico para o dia a dia de um hotel de luxo, onde as passagens dos hóspedes encerram histórias marcantes para os próprios, e olvidáveis para todos em torno, como nos é transmitido desde os momentos iniciais pelo narrador participante, o Dr. Otternschlag (Lewis Stone). O Dr. Otternschlag funciona assim como os nossos olhos, mas os olhos de um público distante, desatento aos pormenores de cada história, desde o momento em que surge, em voz off, numa interessante sucessão de grandes planos, onde vemos os personagens apresentarem-se-nos involuntariamente, através de chamadas telefónicas.

O número de chamadas, de passagens pela cabine das telefonistas, e de telegramas recebidos, será, aliás, mote para compreendermos o ritmo acelerado dos personagens do Grande Hotel, de vidas cheias e activas, não fossem eles pessoas importantes.

Um por um, temos: Preysing (Wallace Beery), o director geral de uma grande companhia, no hotel para fechar fusões com outras empresas, para uma expansão internacional, mas onde nem tudo lhe corre bem. Kringelein (Lionel Barrymore), um homem simples, habituado a uma vida modesta, onde é explorado pelo patrão, Preysing, mas que ao saber que tem uma doença fatal, resolve passar os últimos momentos da sua vida no luxo que até aí não conhecera. O Barão von Geigern (John Barrymore), um homem elegante e cavalheiresco, que está no entanto falido, e procura dinheiro rapidamente, pois tem dívidas por pagar. Embora em busca de um golpe, como as jóias da bailarina Grusinskaya, vai ter tempo para se interessar por Kringelein, e pela recém-chegada Flaemmchen, afinal, os dois peixes fora de água. Flaemmchen (Joan Crawford) é a estenógrafa contratada por Kringelein, que cedo se afeiçoa à gentileza e charme do Barão, para perceber que a sua independência e petulância não a levarão tão longe como a cedência aos avanços do patrão. Por fim temos Grusinskaya (Greta Garbo), uma bailarina famosa a braços com auto-estima e insegurança. Por entre caprichos e decisões mimadas, que vai surpreender o Barão a roubá-la, para se apaixonarem um pelo outro.

Notável ainda, na história de “Grande Hotel”, é como as histórias não têm conclusão, para nos deixar a ideia de que assistimos a episódios inconsequentes, mesmo que saibamos o quanto cada um modificou a vida do seu protagonista. Preysing vai acabar preso, embora adivinhemos ter influência suficiente para modificar a história a seu favor. Grusinskaya, recuperada a auto-estima graças a um amor surpreendente, vai viajar sem saber o que aconteceu ao Barão. Kringelein vai viver mais uns tempos na ilusão de que talvez uma cura seja possível, animado por uma Flaemmchen que, meio por simpatia, meio por se estar a tornar uma caçadora de fortunas, segue com o velho simplório.

Edmund Goulding tem o condão de transformar uma série de histórias distintas, nenhuma delas verdadeiramente notável, num entrelaçar de situações, sempre emotivo e dinâmico (como o mostra a longa sequência inicial da chegada dos hóspedes). Quase como se uma comédia de enganos se tratasse, todos acabam por interferir com todos, muitas vezes sem saber bem como ou porquê, num contínuo pingue-pongue de enredos cruzados. Neles vemos a crueldade da riqueza (Preysing), o engano da aparência (o Barão), a futilidade da fama (Grusinskaya), a subida a troco da perda de princípios (Flaemmchen) e o desespero do fim de uma vida (Kringelein). A ponte entre os vários mundos (o alto de Preysing e Grusinskaya, e o baixo de Kringelein e Flaemmchen), é feito pelo Barão. Não espanta por isso que a sua morte signifique a separação destes mundos, e o fim do episódio das suas vidas no Grande Hotel.

“Grande Hotel” vive das interpretações de um grande elenco, onde temos a curiosidade de ver os irmãos Lionel e John Barrymore contracenarem, ao lado de uma muito jovem Joan Crawford. Mas nem tudo foi fácil para reunir tal elenco. Garbo tinha dúvidas de ver tantas estrelas num filme seu, e mais ainda por interpretar, aos 27 anos, uma prima ballerina. De facto ela contracena apenas com John Barrymore, e nunca com nenhum dos outros actores principais. Joan Crawford queixou-se de ter de usar sempre o mesmo vestido, temia ser vista como uma mulher amoral (a sua personagem é moralmente ambígua, e o seu comportamento foi o mais visado pela censura), e ser ofuscada por Greta Garbo, pelo que algumas cenas de Garbo nunca lhe foram mostradas antes da estreia. William Beery queixou-se de Crawford como sendo pouco profissional, e não queria um papel tão antipático. Já John Barrymore, pelo contrário, acedeu a assinar um contrato de três filmes com a MGM só para poder contracenar com Garbo, com quem estabeleceu uma excelente relação durante as filmagens.

Destaca-se ainda o cenário, onde o hotel é quase um personagem, muito activo, com o design de Cedric Gibbons a permitir-nos acompanhar com fluidez a acção, e onde a peça central é um balcão de 360 graus, que inspiraria balcões de hotéis no futuro.

Muito apreciado pelo público, “Grande Hotel” foi o maior sucesso de bilheteira de 1932. O filme venceria o Oscar de Melhor Filme, ficando com a dúbia proeza de ser o único filme até hoje a consegui-lo, não tendo tido qualquer outra nomeação.

A sua enorme fama levou a que fosse inúmeras vezes citado (é dele a famosa frase de Garbo “I want to be alone”) e parodiado, quer em cinema, quer em animação. Originaria ainda o remake “Fim-de-Semana no Waldorf” (Week-End at the Waldorf, 1945) de Robert Z. Leonard, que seria base para um musical do mesmo nome, estreado em 1989. Ainda hoje, quando se cria um argumento que se baseia num elenco de várias estrelas, com histórias paralelas que se entrecruzam, é vulgar chamar-se-lhe um enredo à “Grande Hotel”.

Produção:

Título original: Grand Hotel; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1932; Duração: 108 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 12 de Abril de 1932 (EUA), 13 de Novembro de 1933 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Edmund Goulding; Produção: Irving Thalberg [não creditado]; Argumento: William Absalom Drake, Béla Balázs [não creditado] [adaptado por William Absalom Drake a partir da sua peça “America”, adaptada da peça original “Menschen im Hotel” de Vicki Baum]; Música: Charles Maxwell [não creditado]; Fotografia: William H. Daniels [preto e branco]; Montagem: Blanche Sewell; Direcção Artística: Cedric Gibbons; Figurinos: Adrian; Caracterização: Cecil Holland [não creditado].

Elenco:

Greta Garbo (Grusinskaya, A Bailarina), John Barrymore (O Barão Felis von Geigern), Joan Crawford (Flaemmchen, A Estógrafa), Wallace Beery (Director Geral Preysing), Lionel Barrymore (Otto Kringelein), Lewis Stone (Dr. Otternschlag), Jean Hersholt (Senf, O Porteiro), Robert McWade (Meierheim), Purnell Pratt (Zinnowitz), Ferdinand Gottschalk (Pimenov), Rafaela Ottiano (Suzette), Morgan Wallace (Motorista), Tully Marshall (Gerstenkorn), Frank Conroy (Rohna), Murray Kinnell (Schweimann), Edwin Maxwell (Dr. Waitz).