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Helga Ohlin nasce num parto que causa a morte da sua mãe, a qual a dera à luz sem ter casado. Tal é motivo de vergonha para o seu tio Karl (Jean Hersholt), que teme que, um dia, Helga siga as pisadas mãe. Para obstar a esse medo, Karl arranja o casamento entre a já adulta Helga (Greta Garbo) e o seu vizinho Jeb Mondstrum (Alan Hale), mas ela foge de casa quando o pretendente a tenta violar. Na fuga, Helga é recolhida pelo galante e cortês arquitecto Rodney Spencer (Clark Gable), e os dois apaixonam-se. Quando Rodney vai à cidade apresentar projectos, Karl e Jeb encontram Helga, que torna a fugir, primeiro num circo, tomando o nome de Susan Lenox, e depois, na cidade, tornando-se amante de milionários, como o político Mike Kelly (Hale Hamilton). Tudo parece correr bem até Susan e Rodney se voltarem a encontrar.

Análise:

“Susan Lenox” ficaria para história como o filme que reuniu Greta Garbo, então a maior estrela da MGM, e Clark Gable, uma estrela em ascensão, que pouco depois se tornaria um dos ícones do galã romântico de Hollywood. Mas ao contrário do que hoje seria de supor, o recontro não foi minimamente aprazível para nenhum dos dois, ambos queixando-se das idiossincrasias do outro, o que transparece um pouco no filme.

Baseado num romance de David Graham Phillips “Susan Lenox” é uma história que, como habitualmente nos filmes de Greta Garbo, toca em tabus, daqueles que depois do Código de Hays não poderiam ser filmados. Temos aqui uma mulher que, com uma herança menos abonatória (filha ilegítima, de pai indeterminado), tem desde sempre sobre si o peso desse destino que torna o encontrar de um anel o objectivo legitimador da sua vida. Essa mulher é Helga, vinda de uma família sueca dos Estados Unidos rurais, e que, por desobedecer ao regime patriarcal em que o seu tio Karl (Jean Hersholt) lhe quer impor por marido o bruto Jeb Mondstrum (Alan Hale), deita a reputação a perder, refugiando-se na cabana do solteiro Rodney Spencer (Clark Gable). Os dois cedem à paixão de um modo inocente e doce, mas quando a família reencontra Helga, esta tem de fugir novamente.

A fuga entrega-a agora a um circo, onde, rebaptizada de Susan Lenox, aceita tornar-se amante do director, para poder ter como sobreviver. Isto é descoberto pelo regressado Rodney, que ignora o sacrifício e amor de Susan, vendo apenas a traição, abandonando-a ao seu destino. Este leva-a à grande cidade, onde o seu charme lhe vai abrindo portas, e subindo na escala social, procurando amantes mais ricos e poderosos. É o caso do político Mike Kelly (Hale Hamilton), com quem Susan está no momento de novo encontro com Rodney. Ambos ainda apaixonados, e ambos feridos pelas atitudes do outro, vão começar por se tentar magoar mutuamente, até finalmente perceberem que é juntos que querem estar.

Com o espectro da ilegitimidade e adultério, há em Susan sempre um peso que a puxa para a necessidade do casamento, como uma fuga a um destino que lhe está fadado. No entanto tudo a vai empurrar no sentido contrário, e Susan vai sempre optar pela segurança imediata, mesmo que isso a leve a aceitar relações breves, a troco de dinheiro e de conforto momentâneo. É este pontapé nos bons costumes que poderá ter chocado o espectador de então, tal como chocava o personagem de Clark Gable, que via em Susan uma oportunista sem escrúpulos nem decência, não entendendo que, de certa forma, era por amor, e por não se resignar a uma tradição onde os homens decidiam os destinos das mulheres, que ela fora forçada a seguir esse caminho. Neste sentido, “Susan Lenox” vem na sequência de outros filmes de Garbo, como por exemplo “O Direito de Amar” (The Single Standard, 1929), onde a sua personagem, forte, emancipada, luta contra o duplo padrão do seu tempo.

Considerado demasiado arrojado para o seu tempo, o filme foi banido no Reino Unido, tendo vindo a ser estreado mais tarde numa versão muito modificada, e intitulada “The Rise of Helga”. Foi, ainda assim, ou apesar disso, um dos filmes menos bem sucedidos da actriz, com uma história arrastada e mal dirigida por Robert Z. Leonard, onde a química entre o par de protagonistas não se fez sentir como o pretendido. Vale a habitual elegância e profissionalismo de Garbo, que consegue tornar aceitável uma história por vezes demasiado mortiça.

Produção:

Título original: Susan Lenox (Her Fall and Rise); Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1931; Duração: 76 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 10 de Outubro de 1931 (EUA), 2 de Fevereiro de 1933 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Robert Z. Leonard; Produção: Robert Z. Leonard; Argumento: Wanda Tuchock [a partir do livro “Susan Lenox: Her Rise and Fall” de David Graham Phillips]; Diálogos: Zelda Sears, Leon Gordon; Música: William Axt [não creditado]; Orquestração: Paul Marquardt [não creditado]; Fotografia: William H. Daniels [preto e branco]; Montagem: Margaret Booth; Direcção Artística: Cedric Gibbons; Figurinos: Adrian.

Elenco:

Greta Garbo (Susan Lenox), Clark Gable (Rodney Spencer), Jean Hersholt (Karl Ohlin), John Miljan (Burlingham), Alan Hale (Jeb Mondstrum), Hale Hamilton (Mike Kelly), Hilda Vaughn (Mrs. Astrid Ohlin), Russell Simpson (Médico), Cecil Cunningham (Madame Panoramia ou Pansy), Ian Keith (Robert Lane).

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