Etiquetas

, , , , , , ,

Anna ChristieChris Christofferson (George F. Marion) é um capitão de uma barcaça de carvão em Nova Iorque, saudosista dos tempos em que cruzava o mundo, vivendo agora apenas entregue ao álcool. Quando recebe a carta do regresso da sua filha Anna Christie (Greta Garbo), que não vê desde os cinco anos, Chris decide deixar o álcool e recebê-la com alegria. Mas Anna traz um passado longe de agradável, que lhe pesa, e pelo qual culpa o abandono paterno. Quando pai e filha salvam três marinheiros naufragados, Anna apaixona-se por um deles, Matt (Charles Bickford). Só que quando este propõe desposá-la, Anna decide que é tempo de contar o seu passado, para ninguém sair magoado. Nem que isso lhe arruíne a possibilidade de finalmente ser feliz.

Análise:

Em 1930, finalmente a MGM decidiu arriscar e dar voz a Greta Garbo, depois de três filmes em 1929, em que a sua voz fora vetada por medo que não correspondesse ao que o seu público desejava. Os cartazes diziam mesmo “Garbo Talks!”, e tal parecia ser o grande motivo de interesse para “Anna Christie”, o primeiro filme falado de Greta Garbo, e com direcção do seu realizador preferido, Clarence Brown.

A história trata de um reencontro entre pai e filha. Ele é o idoso Chris Christofferson (George F. Marion), um imigrante sueco, velho lobo do mar, agora apenas comandante de uma barcaça de carvão, e permanente alcoolizado. Ela é Anna Christie (Greta Garbo) a filha que Chris deixou, aos 5 anos, sob cuidado de uns primos numa quinta em St. Paul, Minnesota, sob a promessa sempre adiada de a ir visitar, e que ele pensa ser uma enfermeira.

Anna chega a Nova Iorque, doente de corpo e mente, precisando limpar as suas memórias e vê no reencontro com o pai o início de uma nova vida. Este, ainda que feliz pelo reencontro, não quer para a filha uma vida ligada ao mar, onde uma mulher vive constantemente com a ausência do companheiro e medo pela sua sorte. Quando Anna conhece Matt (Charles Bickford), um marinheiro, que pai e filha salvam do afogamento, Anna decide que é tempo de contar a verdade sobre o seu passado, que inclui violações na quinta de St. Paul, e uma fuga para a prostituição.

A força da personagem de Garbo, e o seu inglês quase perfeito, fizeram cair por terra todos os medos do efeito nefasto que a transição para o sonoro pudesse trazer. A actriz continuou a sua caminhada de sucesso, onde a sua voz grave e de tom insolente (com a sua primeira linha a ser “Gimme a whisky, ginger ale on the side.”) acrescentavam mais uma dimensão à sua já imensa fama. Nitidamente um filme que só seria possível antes do Código de Hays, “Anna Christie” atreve-se a tocar em temas tabus, como a violação e a prostituição, que Garbo traz para o cinema sem reservas. Se se lhe podem ser apontados defeitos, estes não se prendem com Garbo ou ou tema, mas sim com os problemas de juventude do sonoro.

De facto, em “Anna Christie” falta muito do lirismo e subtileza de filmes anteriores de Greta Garbo. Com as limitações técnicas da captação de som, que levavam a todos os cuidados com o ruído (desde a colocação de microfones, à restrição de movimentos de câmara), o filme parece pouco mais que teatro filmado, onde, para além de algumas cenas em que vemos uma tempestade no mar, todas as cenas são longas sequências de planos muito fixos, onde pouco de cinemático se passa, e assistimos a perspectivas de palco, com transições feitas com a inserção de intertítulos à maneira dos filmes mudos.

Garbo surpreende pela falta de sotaque, e diz-se que foi aconselhada a acrescentar algum, para criar a sua personagem de jovem sueca. Já George F. Marion, que participara na peça teatral e na versão filmada de 1923, fala com um sotaque carregado, trazendo algum humor com o seu personagem bêbedo e trapalhão. Talvez as melhores cenas do filme sejam as iniciais, com Marion a contracenar com a antiga diva dos palcos, Marie Dressler, actriz que brilhara no cinema na primeira longa-metragem do burlesco, “As Bodas de Charlot” (Tillie’s Punctured Romance, 1914) de Mack Sennett, ao lado de Charlie Chaplin e Mabel Normand.

O restante filme é uma preguiçosa construção de caminho a um clímax final que passa pela revelação de Anna, e choque causado no pai e o namorado. Compreendendo-se a dor da sua personagem, que procura uma última réstia de honestidade como base para construir uma nova vida, tudo nos surge como demasiadamente melodramático. Politicamente correcta é a resolução final, com o perdão e aceitação de Matt, e a resignação de Anna a ser mais uma mulher submissa, disposta a cuidar da casa enquanto pai e marido andam em aventuras. Nesse sentido, Anna destoa das mulheres fortes e dominadoras que se tornaram suas personagens durante a sua carreira anterior.

“Anna Christie” foi um enorme sucesso de bilheteira, tendo sido nomeado para os Oscars de Melhor Realizador, Actor e Fotografia. O filme teve ainda uma versão em alemão (algo comum nesses tempos), filmado em paralelo, nos mesmos cenários, com realização de Jacques Feyder, Greta Garbo como protagonista, e actores de língua alemã.

Produção:

Título original: Anna Christie; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1930; Duração: 89 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 21 de Fevereiro de 1930 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Clarence Brown; Produção: Paul Bern [não creditado], Clarence Brown [não creditado], Irving Thalberg [não creditado]; Argumento: Frances Marion [adaptado da peça de teatro homónima de Eugene O’Neill]; Música: William Axt [não creditado]; Fotografia: [não creditado] [preto e branco]; Montagem: Hugh Wynn; Direcção Artística: Cedric Gibbons; Figurinos: Adrian.

Elenco:

Greta Garbo (Anna Christie), Charles Bickford (Matt), George F. Marion (Chris Christofferson), Marie Dressler (Marthy), James T. Mack (Johnny, the Harp), Lee Phelps (Larry).

Anúncios