Etiquetas

, , , , , , , ,

The KissIrene (Greta Garbo) é uma jovem mulher, casada com o bem mais velho Charles Guarry (Anders Randolf) com quem tem uma relação quase filial. A sua paixão reside fora do casamento, no galante advogado André Dubail (Conrad Nagel), mas por respeito ao casamento o par decide afastar-se. Em torno de Irene gira ainda o jovem impetuoso Pierre Lassalle (Lew Ayres), que para ela é apenas uma criança. Quando Pierre se vem despedir de Irene para ir estudar fora, ele pede-lhe um beijo inocente de despedida, que é testemunhado pelo marido desta. O que se segue, à porta fechada, é a morte de Charles Guarry, a tiro, e a subsequente incriminação de Irene, sem que o nome de Pierre seja mencionado. André regressa para defender Irene em tribunal, percebendo que ela protege alguém, o que o deixa inseguro quanto a Irene e todo o caso.

Análise:

“O Beijo” foi o terceiro filme de 1929 protagonizado por Greta Garbo, e tal como nos dois anteriores, também ele surgido na era do sonoro, sonorizado com banda sonora que incluía música e efeitos de som, mas sem as vozes dos personagens, já que a MGM temia que a voz grave e com sotaque de Garbo lhe arruinasse o estatuto de estrela.

Para não fugir à velha fórmula, Jacques Feyder filmou mais uma história em que Garbo está presa num casamento que não quer, deixando-se envolver em relações extra-conjugais, ao colocar o calor da paixão, acima dos deveres convencionais. Como sempre tudo acabará em tragédia.

Desta vez temos Irene (Greta Garbo), a mulher do bem mais idoso Charles Guarry (Anders Randolf) que ela trata com ternura, mas numa relação paternalista, sem paixão.
Quem Irene verdadeiramente ama é o galante advogado André Dubail (Conrad Nagel, contracenando com Garbo pela segunda vez), mas o par decide separar-se por respeito às convenções. Quem também se mostra fascinado por Irene é o jovem e impetuoso Pierre Lassalle (Lew Ayres), que Irene olha como uma criança, deixando-se divertir pelas suas pueris tentativas de conquista.

Um dia Pierre pede-lhe um beijo de despedida, e Irene acede inocentemente. Só que Pierre insiste em beijá-la mais a sério, e o marido desta encontra-os juntos. Sabe-se de seguida que o velho Charles Guarry foi morto a tiro, e Irene confessa-se culpada. André regressa para defender Irene em tribunal, mas ao perceber que esta tenta proteger alguém, deixa que os seus ciúmes lhe toldem a visão, condenando interiormente Irene. Mas uma apurada investigação revela que Irene não está a contar toda a verdade, e que as suas razões são nobres.

Num filme que parte da habitual presença de Greta Garbo no papel de uma mulher desejada por todos e que sabe usar o seu poder sobre os homens para obter o que quer, geralmente causando desgraça à sua volta, o argumento leva-nos desta vez para outro lado. Este é do mistério de um crime e seus verdadeiros motivos. Porque conta Irene uma história que sabemos ser mentira, e porque aceita tão facilmente ser considerada suspeita para não implicar Pierre?

Curiosamente, num filme aparentemente mudo (como já se explicou, “O Beijo” foi rodado já no sonoro, pelo que o filme inclui som, embora não diálogos), é o som que nos traz o momento crucial do enredo. Com Charles Guarry e Pierre Lassalle a lutar, uma porta fecha-se, e do outro lado ouve-se um tiro, num momento que é interrompido pelo tocar insistente de um telefone, que nos retira desse momento quase onírico, e nos traz de volta à realidade.

O que se segue é um exercício sobre culpa e fé. Irene sente a necessidade de assumir uma culpa (que talvez sinta pela sua falta de amor pelo marido morto), que é ao mesmo tempo a protecção do jovem Pierre Lassalle. Ela mente ao tribunal para salvar a vida, e mente ao advogado, o homem que ama, com medo que este a condene por um beijo inocente, que aponta para uma traição que não cometeu.

Um dos aspectos mais curiosos de “O Beijo” é o flashback através do qual vemos a história que Irene conta à polícia. Esta é não só falsa, como no próprio flashback o vemos modificar-se à medida que Irene hesita e reformula os acontecimentos que narra. Esse flashback será finalmente desconstruído na sequência em que a verdade será revelada.

Tem-se assim uma história de culpas e suas transferências, num jogo de protecções e lealdades, fé e desconfianças. Tudo elegantemente filmado por Jacques Feyder, ainda que num ambiente artificial de uma classe alta aristocrática. Como sempre, Garbo brilha com a sua elegância e versatilidade, tornando o filme uma experiência agradável.

Seria o último filme mudo de Garbo e da MGM, que no ano seguinte perceberiam que não havia nada a temer com a chegada do som.

Produção:

Título original: The Kiss; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1929; Duração: 62 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 15 de Novembro de 1929 (EUA), 4 de Dezembro de 1930 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jacques Feyder; Produção: Albert Lewin [não creditado], Irving Thalberg [não creditado]; Argumento: Hanns Kräly [a partir da história de George M. Saville]; Intertítulos: Marian Ainslee; Música: William Axt; Fotografia: William H. Daniels [preto e branco]; Montagem: Ben Lewis; Direcção Artística: Cedric Gibbons; Figurinos: Adrian; Director de Produção: Albert Lewin [não creditado].

Elenco:

Greta Garbo (Irene Guarry), Conrad Nagel (André Dubail), Anders Randolf (Charles Guarry), Holmes Herbert (Lassalle), Lew Ayres (Pierre Lassalle), George Davis (Detective Durant).

Anúncios