Etiquetas

, , , , , , , , , , , ,

Shutter IslandO Marshal dos EUA, Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio), é enviado à ilha Shutter Island, no Estado de Massachussets, onde se situa o Ashecliffe Hospital, em 1954 um hospital de vanguarda no tratamento de doenças psiquiátricas, onde os doentes mais perigosos do país são tratados com métodos alternativos. Com ele segue o seu novo colega, Chuck (Mark Ruffalo), que o ajudará a investigar o desaparecimento da paciente Rachel Solando (Emily Mortimer). Espera-os o misterioso director Dr. Cawley (Ben Kingsley), que talvez não os esteja a ajudar tanto quanto Teddy desejasse. É que cedo ele sente segredos, conspirações, e teme que tenha sido ali levado com propósitos mais obscuros, como alguns sonhos com a esposa Dolores (Michelle Williams) parecem indicar. Em breve, e afastados do continente por uma violenta tempestade, Teddy irá desconfiar de tudo, do staff, do colega, e de si próprio.

Análise:

“Shutter Island”, romance escrito por Dennis Lehane (autor celebrizado por “Mystic River”) cedo se tornou uma ambição de vários estúdios, que lhe reconheceram potencial para um thriller. Os direitos foram negociados, primeiro pela Columbia Pictures, mas seria a Phoenix Pictures a exercer opção sobre o livro, através de Laeta Kalogridis, que, depois de pensar em David Fincher, aliciou Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio (que ajudou a produzir através da dia Appian Way) para o projecto. A produção iniciou-se em 2008, no que seria a quarto filme consecutivo de Martin Scorsese com DiCaprio.

Scorsese continuava no território do thriller, agora com uma história plena de mistério. O pano de fundo era o hospital psiquiátrico de Ashecliffe Hospital, perto de Boston, Massachussets, situado na chamada Shutter Island, e que se especializava em receber os casos mais perigosos do país. O tempo era 1954, com o pós-guerra ainda como tema, trazendo à tona traumas da Segunda Guerra Mundial, possíveis experiências ilegais e conspirações típicas da Guerra Fria.

O protagonista é Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio), marshal dos EUA que, com o seu novo colega, Chuck (Mark Ruffalo), é enviado para investigar o desaparecimento da paciente Rachel Solando (Emily Mortimer), de uma cela da qual nunca poderia ter desaparecido. Cedo o par, e toda a ilha, ficam isolados do mundo por uma terrível tempestade que se abate sobre a região. Rachel reaparece tão misteriosamente como tinha desaparecido, e ninguém (pacientes ou staff) parece conseguir ter algo de útil a dizer. Teddy desconfia que uma conspiração tem lugar, e desconfia do director, Dr. Cawley (Ben Kingsley), e do Dr. Naehring (Max von Sydow), um ex-Nazi, que traz a Teddy dolorosas memórias da sua participação na Segunda Guerra Mundial.

Constantes dores de cabeça, desculpas esfarrapadas da parte do pessoal médico, e saber que ali se encontra internado o pirómano Andrew Laeddis que lhe assassinou a esposa, Dolores (Michelle Williams) começam a fazer Teddy pensar que talvez tenha sido ali levado com o objectivo de ele próprio lá ficar internado, por tentar expor a verdade dos tratamentos secretos que vão sendo praticados naquele hospital. Cedo Teddy percebe que não pode confiar em ninguém, nem no Dr. Cawley, nem talvez em Chuck. A morte súbita de Chuck vem confirmar-lhe que corre perigo, ou será que a verdade é muito mais obscura?

Baseando-se num livro, que tem por base paranóia e medo originados pela visita de Lehane a um hospital psiquiátrico quando era criança, Scorsese cria um ambiente claustrofóbico e assustador, que tem como fulcro o desconhecimento das doenças cerebrais e o pesadelo dos tratamentos que eram administrados durante boa parte do século XX. O hospital de Scorsese é ao mesmo tempo hospital e prisão, desconfortável como uma câmara de torturas que ninguém parece querer aceitar que existe. Mas a atmosfera de opressão e fobia não se fica por aí, centrando-se principalmente no protagonista, Teddy, um homem com fantasmas por exorcizar, que se revelam como dores de cabeça, paranóias, e sonhos com a sua elusiva esposa Dolores, que sabemos ter já morrido.

Filmando maioritariamente no Massachussets, Scorsese confia, como nunca até então, no poder do digital (as panorâmicas da ilha são criadas em CGI), com interiores filmados em antigos edifícios para conferir os necessários cenários vintage, ao mesmo tempo credíveis, frios e ameaçadores.

Scorsese tem citado o suspense de Hitchcock ou as atmosferas das produções de terror de Val Lewton como inspirações para criar a atmosfera e a época pretendida. “Shutter Island” é, acima de tudo, um trillher psicológico, onde é o interior do seu protagonista o verdadeiro puzzle a resolver. Nesse sentido, pelo seu carácter labiríntico e clima de paranóia e obsessão, é em “O Gabinete do Doutor Caligari” (Das Kabinett des Doktor Caligari, 1920) que se podem encontrar algumas das suas principais inspirações.

Através dele acompanhamos o drama de um homem que começa como simples detective, para perceber que é ele próprio o objecto da investigação. Através de uma série de revelações enigmáticas, e um twist final poderosíssimo, Teddy será confrontado com uma verdade que não espera sobre a sua própria pessoa. O filme termina com a linha de Teddy «viver como um monstro ou morrer como um homem bom», não presente no livro, e que parece indicar para o facto de o mesmo preferir o seu sacrifício como modo de expiar uma culpa que carrega (sem que conscientemente o saiba), e que, afinal motiva toda a história (culpa como tema central é outro ponto em comum entre o filme e a obra de Hitchcock).

Não sendo um dos filmes de Scorsese mais cotados pela crítica, “Shutter Island” foi recebido positivamente, e foi um enorme sucesso de bilheteira, sendo geralmente visto como um dos thrillers mais empolgantes da sua década. Será caso para dizer que, se até ao anterior “The Departed – Entre Inimigos” (The Departed, 2006), Scorsese não fazia filmes com enredo (palavras do realizador), “Shutter Island” era o seu primeiro filme onde o enredo se sobrepunha a tudo o resto. Ainda assim, o filme vale muito pela sua atmosfera e pela descontrução do personagem de Leonardo DiCaprio, mais uma vez numa interpretação exemplar, como todas as que já dera a Scorsese.

Curioso é o facto de que “Shutter Island” não tem uma partitura original, com a banda sonora composta de material previamente existente, trabalhado por Robbie Robertson, colaborador habitual de Scorsese.

Como curiosidade final, e já que o enredo alude a vários anagramas, refira-se que “Shutter Island” é anagrama de “Truths and Lies” e “Truths / Denials”.

Produção:

Título original: Shutter Island; Produção: Paramount Pictures / Phoenix Pictures / Sikelia Productions / Appian Way; Produtores Executivos: Chris Brigham, Gianni Nunnari, Laeta Kalogridis, Dennis Lehane, Louis Phillips; País: EUA; Ano: 2010; Duração: 138 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 13 de Fevereiro de 2010 (Festival de Berlim, Alemanha), 19 de Fevereiro de 2010 (EUA), 25 de Fevereiro de 2010 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: Mike Medavoy, Arnold V. Messer, Brad Fischer, Martin Scorsese; Co-Produção: Joseph P. Reidy, Emma Tillinger Koskoff, Amy Herman; Argumento: Laeta Kalogridis [baseado no livro de Dennis Lehane]; Supervisão Musical: Robbie Robertson; Fotografia: Robert Richardson [filmado em Panavision, cor por DeLuxe]; Montagem: Thelma Schoonmaker; Design de Produção: Dante Ferretti; Direcção Artística: Robert Guerra; Cenários: Francesca Lo Schiavo; Figurinos: Sandy Powell; Caracterização: Manlio Rocchetti; Efeitos Especiais: Rob Legato; Efeitos Visuais: Ron Ames; Director de Produção: Amy Herman.

Elenco:

Leonardo DiCaprio (Teddy Daniels), Mark Ruffalo (Chuck Aule), Ben Kingsley (Dr. Cawley), Max von Sydow (Dr. Naehring), Michelle Williams (Dolores), Emily Mortimer (Rachel 1), Patricia Clarkson (Rachel 2), Jackie Earle Haley (George Noyce), Ted Levine (Director), John Carroll Lynch (Sub-director McPherson), Elias Koteas (Laeddis), Robin Bartlett (Bridget Kearns), Christopher Denham (Peter Breene), Nellie Sciutto (Enfermeira Marino), Joseph Sikora (Glen Miga), Curtiss I’ Cook (Trey Washington), Ray Anthony Thomas (Ganton), Joseph McKenna (Billings), Ruby Jerins (Miúda).

Anúncios