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The Single StandardArden Stuart (Greta Garbo) é uma jovem mulher da alta sociedade, desiludida com o facto de que os homens se podem comportar como querem, e as mulheres têm que o aceitar. Cansada dessas hipocrisias das festas dos seus amigos, anseia com aventura, e numa festa foge com o motorista (Robert Castle) com quem passa parte da noite. À chegada ele é despedido e suicida-se, o que a perturba muito. Um dia, caminhando à chuva depara com uma exposição onde encontra o pintor e aventureiro Packy Cannon (Nils Asther), e os dois sentem imediata atracção. Sempre com vontade de aventura, Arden aceita o convite de Packy para velejarem os dois pelos mares do sul. Mas ao fim de algum tempo Packy percebe que é demasiado independente para ter uma mulher sempre consigo, e devolve Arden ao seu país. Anos mais tarde, Packy, arrependido de ter perdido a única mulher que alguma vez conheceu à sua altura, regressa para procurar Arden. Esta nunca o esqueceu, mas está agora casada com Tommy (Johnny Mack Brown), e tem um filho dele.

Análise:

Naquele que seria o segundo de três filmes mudos de Greta Garbo em 1929 (mudo por opção, pois estava-se já na era do sonoro, e o filme saiu com som, incluindo música e efeitos sonoros), a MGM voltava a confiar à sua estrela mais importante um triângulo amoroso, desta vez saído de um romance de Adela Rogers St. Johns.

Tal como acontecera no anterior “Orquídeas Bravas” (Wild Orchids, 1929), o papel de Garbo soltava-se já da típica mulher fatal que, pela sua acção (pérfida ou não) usa e causa a tragédia nos homens à sua volta. Se essa era uma visão tipicamente masculina da mulher como agente do mal, “O Direito de Amar” era, talvez, o mais feminista filme de Garbo até então.

O filme foi realizado e produzido por John S. Robertson, um realizador com uma já longa carreira, e famoso pela adaptação de “Dr. Jekyll and Mr. Hyde” (1920), protagonizado por John Barrymore. Nele, quer no título (Single Standard – padrão único, por oposição ao chamado «duplo padrão» que distingue comportamentos masculinos e femininos), quer na linha inicial (durante muitas gerações os homens têm-se comportado como querem, e as mulheres como os homens querem), fica denunciada a visão machista do mundo e das convenções sociais. Para colocar em prática essa denúncia e rebeldia, ninguém melhor que a mais corajosa e emancipada das actrizes de então, a divina Garbo.

Estabelecida a premissa, o filme começa por nos mostrar homens casados comportando-se como playboys, quase sob os narizes das esposas, que como perfeitas mulheres de classe alta, resolvem tudo com a hipocrisia de que tudo está bem, desde que se salvem as aparências. Contra isto insurge-se Arden Stuart (Greta Garbo), cansada da hipocrisia que faz da mulher uma serva do homem.

Arden quer viver uma vida plena, com a liberdade dos homens, mas sem as mentiras nem esconderijos destes. Por isso não hesita em deixar a festa em que está, com o seu motorista (Robert Castle), passando parte da noite com ele, junto ao mar. No regresso o escândalo é respondido com o despedimento do motorista que, apaixonado por Arden, se suicida.

Esse revés tira a Arden a alegria, até ao dia em que, caminhando pela chuva, entra numa galeria e reconhece o pintor, pugilista e navegador, Packy Cannon (Nils Asther, o mesmo que contracenara com Garbo em “Orquídeas Bravas”). Não só Arden fica fascinada com a aventura que aquele homem representa, como ele fica encantado com a personalidade de Arden. Rapidamente os dois concordam que Arden seguirá viagem com Packy na sua nova aventura pelos mares do sul a ter início no dia seguinte.

Mas após uns tempos idílicos, Packy percebe que precisa de estar só, pois é demasiado independente para ter sempre uma mulher consigo. Arden é trazida de volta a casa, onde todas as mulheres do seu círculo a olham com desdém, pelo escândalo de ter corrido meio mundo com um aventureiro, e os homens a olham com interesse, por verem nela uma possível aventura. Entre estes destaca-se Tommy Hewlett (Johnny Mack Brown), velho amigo e pretendente de Arden, a qual acaba por aceitar a sua proposta de casamento.

Anos mais tarde, Arden tem já um filho de alguns anos (Wally Albright), quando sabe que Packy voltou. Este arrependeu-se já de ter um dia deixado Arden, pois sabe nunca mais encontrará mulher igual. Do mesmo modo, Arden ainda recorda o seu tempo com Packy como o melhor da sua vida. Ao reencontrarem-se os dois planeiam a fuga conjunta. Só que Tommy adivinha, e toma a decisão de se suicidar no dia seguinte, se Packy mantiver as aparências e só procurar Arden depois da sua morte. Packy aceita, mas Arden procura-o para lhe dizer que não seguirá com ele, pois nunca poderá abandonar o filho. Sem que Tommy saiba disto, prepara a sua arma para simular um acidente de caça, mas Arden consegue adivinhar a tempo de evitar a tragédia.

Com talvez a sua melhor interpretação até então, Greta Garbo compõe uma Arden que é genuína, aventureira, apaixonada, sofredora, alegre, sonhadora e lutadora. Tudo isto com a classe e subtileza que faz com que, estando presente na tela, esqueçamos tudo o que está ao lado. A sua Arden Stuart é um símbolo da luta contra a hipocrisia, que não se importa com o que digam nas suas costas, desde que faça aquilo que o seu coração comanda.

Em contraste, o seu marido é o oposto, a sua nobreza de coração expressa-se de outra forma, preferindo o suicídio para dar a Arden a vida que esta deseja, evitando que um escândalo se abata sobre eles ou o seu filho. Mas mesmo lutando contra convenções, Arden descobre que a liberdade nunca é total, pois o amor impõe limites, como o seu amor pelo seu filho lhe mostrará. Essa mesma liberdade, que Packy sempre procurara, e pela qual terá partido tantos corações (é Packy a versão masculina das habituais personagens de Garbo?), que faz com que no final perca a hipótese de um grande amor.

Embora filmado de modo simples, “O Direito de Amar” é sempre dinâmico e eficaz, não se desperdiçando uma única cena, numa história cativante e comovente. Estava-se, como alguns autores têm dito, na altura em que ao cinema, apenas faltava falar, e o filme de John S. Robertson fala, mesmo que seja um filme mudo. O resultado seria um dos filmes mais vistos desse ano.

Produção:

Título original: The Single Standard; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1929; Duração: 71 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 27 de Julgo de 1929 (EUA), 6 de Abril de 1931 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: John S. Robertson; Produção: John S. Robertson; Argumento: Josephine Lovett [adaptado do livro de Adela Rogers St. Johns]; Intertítulos: Marian Ainslee; Música: William Axt; Fotografia: Oliver T. Marsh [preto e branco]; Montagem: Blanche Sewell; Direcção Artística: Cedric Gibbons; Figurinos: Adrian.

Elenco:

Greta Garbo (Arden Stuart), Nils Asther (Packy Cannon), Johnny Mack Brown (Tommy Hewlett), Dorothy Sebastian (Mercedes), Lane Chandler (Ding Stuart), Mahlon Hamilton (Mr. Glendenning), Kathlyn Williams (Mrs. Glendenning), Zeffie Tilbury (Mrs. Handley), Robert Castle (Anthony Kendall, Motorista de Arden) [não creditado], Wally Albright (Filho de Arden) [não creditado], Anita Garvin (Amiga Ciumenta de Packy) [não creditada].

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