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Wild OrchidsJohn (Lewis Stone) e Lillie Sterling (Greta Garbo) são um casal em viagem para Java, onde John vai tratar da compra de plantações de chá. Na viagem conhecem um javanês, o Príncipe De Gace (Nils Asther), que começa desde logo a tentar conquistar Lillie. Se esta o despreza, John deixa-se cativar pelo charme do javanês, aceitando a sua proposta para que o casal fique no seu palácio. A partir de então, o Príncipe tenta ficar sozinho com Lillie a todo o custo, com esta a tentar evitá-lo, com a contribuição do inocente John a contribuir. Quando finalmente John percebe o que se passa nas suas costas, vai deixar que uma caçada ao tigre se torne na sua vingança sobre o anfitrião.

Análise:

Em 1929 Hollywood convertia-se já ao cinema sonoro, depois do sucesso de “O Cantor de Jazz” (The Jazz Singer, 1927) da Warner Bros. A adaptação ao novo meio trazia não apenas problemas do foro técnico, como também o perigo de os actores não se adaptarem à nova forma de expressão, nem os fãs às suas vozes (algo que como se sabe acabou com muitas carreiras). Como meio de proteger a sua estrela maior, a MGM faria ainda mais três filmes mudos com Greta Garbo em 1929, antes de se arriscar a deixar a actriz sueca falar na tela.

Essa opção estava longe de ser técnica, pois o primeiro desses filmes, “Orquídeas Bravas”, seria tecnicamente sonoro, incluindo uma banda sonora, com música original e diversos efeitos de som. Ficavam só a faltar as vozes dos actores. O seu realizador seria Sidney Franklin, um realizador profícuo em muitos géneros, com créditos de realizador desde 1915, embora sem nenhum filme de grande destaque na sua carreira até então.

A história mostrava-nos o casal Sterling em viagem para Java (actual Indonésia), para que John Sterling (Lewis Stone) invista em plantações de chá, levando consigo a esposa Lillie (Greta Garbo), feliz com a ideia de uma segunda lua-de-mel. No paquete que os leva, o casal conhece um javanês, o Príncipe De Gace (Nils Asther), que desde logo Lillie acha cruel (ao vê-lo chicotear o criado) e arrogante (ao tentar logo conquistá-la). Mas o Príncipe vai ganhar a confiança de John, e convidar o casal para o seu palácio. Embora Lillie proteste, com os avanços do Príncipe a tornarem-se cada vez mais agressivos, John tudo ignora e vai concordando com os planos do anfitrião.

Sucedem-se os momentos em que o Príncipe tenta ficar sozinho com Lillie, com esta a tentar evitá-lo, e John a contribuir, sem o saber, para que o par fique sozinho. Finalmente, John percebe o que se passa, e tomado pelo ciúme transforma uma caçada a um tigre num momento de vingança pessoal.

Nota-se em “Orquídeas Bravas” uma evolução no personagem de Greta Garbo. Até aí Garbo interpretara quase sempre mulheres fatais cuja sensualidade era usada para seu proveito causando desgraça à sua volta. São os casos de “A Tentadora” (The Temptress, 1926), “O Demónio e a Carne” (Flesh and the Devil, 1926), “Anna Karenina” (Love, 1927), “A Mulher Misteriosa” (The Mysterious Lady 1928) e “Mulher de Brio” (A Woman of Affairs, 1928). Nuns ou noutros, arrependendo-se ou não, acabando ou não em tragédia, os personagens de Garbo ora mostravam perfídia e calculismo no uso da sua sensualidade para manipular os homens, ora se deixavam simplesmente levar por aquela que era a sua natureza feminina.

Em “Orquídeas Bravas” Lillie (repare-se como o nome é parecido com Lírio – Lilly, por oposição às ditas orquídeas) é boa e fiel por natureza, e se é arrastada para um triângulo, tal acontece contra a sua vontade, e apenas porque é humano ser-se tentado, errar-se, interrogar-se, mas no final ser-se fiel aos seus princípios.

A Lillie de Garbo é uma mulher ardente e apaixonada pelo marido, deseja uma segunda lua-de-mel, mas não encontra no marido a mesma paixão (note-se a sua repulsa pela perspectiva de dormir com Lillie numa cama de casal). E por isso a atenção indesejada que lhe é dada pelo Príncipe De Gace é tão inoportuna quanto intrigante para Lillie. Se inicialmente se sente enojada pelo pretendente, depois percebe que o seu corpo pede essa mesma atenção (o sonho com as vergastadas, num momento de puro fetichismo, é bastante arrojado para a Hollywood de 1929).

Mas se Lillie tenta tudo para rejeitar o javanês, parece que John quase os empurra um para o outro. Quando esta pede para não o acompanharem, John insiste; quando o Príncipe rouba a Lillie um primeiro beijo, John responde com um “Estou furioso”, que afinal era um desabafo sobre os negócios; quando Lillie conta tudo a John, este adormece a meio; finalmente quando Lillie desiste da viagem pelas plantações, por causa da chuva, John insiste para que o Príncipe fique com ela. Será caso para dizer que nenhuma mulher aguentaria mais, e nessa altura Lillie já teme mais o que acontecerá se ficar sozinha com o anfitrião, do que o teme a ele.

Por fim tudo se resolve quando John descobre o que vinha acontecendo, e culpa Lillie (sempre a mulher como culpada). Perceberá depois que ela sempre lhe fora fiel, e será ele quem pedirá desculpas. Isto depois do episódio em que um tigre é símbolo de um inimigo a eliminar, que leva John a tornar-se quase um assassino.

Com excelentes interpretações do trio de actores principais (e únicos creditados), é Garbo quem brilha, com a habitual versatilidade e subtileza, num papel mais profundo que os seus habituais papéis tipo. O filme deixa-se ainda levar por alguns momentos de folclore javanês, e roupas exóticas.

“Orquídeas Bravas” era filmado no momento em que morreu Mauritz Stiller, o realizador sueco que lançou Garbo, que a levou para os Estados Unidos e serviu de seu mentor.

Produção:

Título original: Wild Orchids; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1929; Duração: 95 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 23 de Fevereiro de 1929 (EUA), 22 de Maio de 1930 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Sidney Franklin; História: John Colton; Argumento: Hanns Kräly, Richard Schayer [adaptado por Willis Goldbeck]; Intertítulos: Marian Ainslee, Ruth Cummings; Fotografia: William H. Daniels [preto e branco]; Montagem: Conrad A. Nervig; Direcção Artística: Cedric Gibbons; Figurinos: Adrian.

Elenco:

Greta Garbo (Lillie Sterling), Lewis Stone (John Sterling), Nils Asther (Prince De Gace), Dick Sutherland (Criado javanês) [não creditado].

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