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A Woman of AffairsDesde criança que a inglesa Diana Merrick (Greta Garbo) sabe que está enamorada de Neville Holderness (John Gilbert). Tal desagrada ao seu irmão Jeffry (Douglas Fairbanks Jr.), que pretendia vê-la com o seu amigo David Furness (Johnny Mack Brown). Mas sobretudo desagrada a Sir Morton Holderness (Hobart Bosworth), pai de Neville, que vê em Diana uma mulher fútil e desregrada, vítima de uma herança milionária que gasta ao sabor de caprichos. Graças à sua maquinação, Sir Morton convence Neville a deixar Diana e ir trabalhar para o Egipto. Três anos depois Diana casa com David, mas este suicida-se misteriosamente na noite de núpcias em Paris. Sem contar o que ocorreu, Diana é tida como causadora do suicídio, e a sua reputação em Inglaterra fica comprometida. Sete anos depois, quando Jeffry se encontra a morrer, Diana vem visitá-lo, e reencontra Neville, mas este agora está noivo de Constance (Dorothy Sebastian), a três dias de casar com ela.

Análise:

Em 1928, já com nome estabelecido entre as maiores estrelas de Hollywood, Greta Garbo não tinha um momento livre, com os filmes sucedendo-se em ritmo apertado. Sempre no intuito de repetir fórmulas de sucesso, surge “Mulher de Brio”, filme com que a MGM reúne Garbo e John Gilbert, sob a realização de Clarence Brown, com o qual a actriz já trabalhara no consagrado “O Demónio e a Carne” (Flesh and the Devil, 1926).

Se o argumento teria de passar por alguns pontos comuns a toda a carreira de Garbo (esta como mulher sedutora capaz de fazer os homens perder a cabeça, o que geralmente levava a casamentos e carreiras arruinadas, e uma reputação que acabaria por a perder), desta vez temos a nuance de que Diana Merrick (Garbo), é mais uma vítima das circunstâncias que insistem em reputá-la do que não fez, o que ela não nega para proteger outros.

De novo no caminho do melodrama (algo em que Clarence Brown era um dos mestres nos anos 1920), “Mulher de Brio” conta-nos a história de Diana Merrick, a qual desde a infância está enamorada de Neville Holderness (John Gilbert), embora seja também cortejada pelo outro amigo de infância, David Furness (Johnny Mack Brown). Só que o romance entre Diana e Neville desagrada tanto ao pai deste, Sir Morton (Hobart Bosworth), temendo a reputação de rica mimada de Diana, quanto ao irmão dela, Jeffry (Douglas Fairbanks Jr.), grande amigo de David.

O casal é convenientemente separado, e anos mais tarde Diana desposa David, só que na noite de núpcias, em Paris, este suicida-se, levando a que se suspeite que o motivo tenha sido a vergonha pela esposa. Por isso Jeffry deixa de falar à irmã, e esta não regressa à Inglaterra. Sete anos depois, Jeffry encontra-se a morrer e Diana procura-o, mas este não a recebe. Quem a reencontra é Neville, que está a três dias de casar com Constance (Dorothy Sebastian), o que não o impede de passar uma noite com ela. Nove meses depois Neville recebe notícia do amigo comum, Dr. Hugh Trevelyan (Lewis Stone), de que Diana está em Paris, perto da morte, e só uma visita sua lhe traria esperança de vida. Neville viaja com Constance, e a visita tem o efeito desejado, mas também confirma a Constance que o par continua apaixonado.

Embora Neville e Constance regressem a casa, este não volta a esquecer Diana, e um dia, visitando o Dr. Hugh descobre Diana em sua casa. Novamente, Neville volta a prometer o seu amor a Diana, e juntos vão enfrentar Sir Morton e Constance. Só que uma vez em casa dos Holderness Diana percebe duas coisas. Uma é que Neville só a aceitou quando descobriu a verdade sobre o suicídio de David (dívidas por desvios de dinheiros), algo que ela sempre escondera para proteger o irmão. A segunda é que Constance, apesar de tudo é uma esposa compreensiva e tudo fará pela felicidade dos outros. Por essa razão Diana muda de ideias, e diz a Neville que a esposa deste está grávida, deixando-o para ser encontrada morta num acidente de automóvel.

Continuando a sua senda de sedução e tragédia, Garbo interpretava agora uma mulher que, se começara com todos os vícios de má reputação, se sacrificaria várias vezes pelo amor e honra dos outros. Honra essa, sempre trazida para primeiro plano, que faria Neville deixá-la numa primeira instância, e optar pelo casamento numa segunda. Honra que faria Diana esconder o segredo de David para que o seu amigo Jeffry nunca sofresse com a verdade. Honra por fim, que faria Diana desistir de Neville quando percebe que tal como Tomé, só após confirmar que ela não fora responsável pela morte do marido, a pode aceitar e defender frente ao seu pai.

É assim uma história complexa que Clarence Brown filma, embora deixe grande parte do filme decorrer sem outra chama que não seja a interpretação sempre magnética de Greta Garbo. Adaptar uma peça de teatro (não creditada) de Michael Arlen não foi fácil à MGM, sendo quase irónico que uma produtora tão ligada aos valores familiares tenha aceitado uma história tão subversiva.

Senão vejamos. Diana tem uma reputação no mínimo duvidosa, como o comprova a sequência em que sete anos da sua vida são mostrados por um desfilar de fotos de arquivo de jornal, sempre em publicitadas companhias. Como não podia deixar de ser, Diana pagará com a própria morte. Numa época em que os EUA viviam a Lei Seca, o álcool desempenha um papel proeminente, com o constante abuso da parte de Jeffry. Isso resolve-se com a sua morte, e levando a acção para a Inglaterra, onde a lei não existia. É sugerida a traição de Neville, passando a noite com Diana três dias antes do casamento. E é mostrado um suicídio.

Mas na verdade, o que vemos é uma versão atenuada da história de Arlen. Na sua peça o suicídio de David é causado pela descoberta de sofrer de sífilis, e não por desvio de dinheiros como no filme. E embora no filme fique um pouco em aberto, a razão da doença de Diana em Paris é o nascimento morto de um seu filho ilegítimo com Neville (note-se como o reencontro se dá nove meses depois da noite que passaram juntos).

Com alguns soluços no explanar do argumento, e uma realização um pouco desinspirada, fica-nos na memória a força do personagem de Greta Garbo, tão capaz de seduzir, como de se sacrificar com altruísmo, algo no qual é imitada pela outra mulher, Constance (numa competente e comovente interpretação de Dorothy Sebastian), fazendo de Neville o elo mais fraco de uma história decidida pela fraqueza dos homens (Neville, David, Jeffry, Sir Morton) que humilham e subjugam a força das mulheres.

“Mulher de Brio” foi um dos grandes sucessos de 1928, tendo mesmo recebido a nomeação aos Oscars para Melhor Argumento. A MGM faria um remake em 1934, intitulado “Outcast Lady”, realizado por Robert Z. Leonard, e interpretado por Constance Bennett, o qual passaria bastante despercebido.

Produção:

Título original: A Woman of Affairs; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1928; Duração: 87 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 15 de Dezembro de 1928 (EUA), 7 de Maio de 1931 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Clarence Brown; Produção: Clarence Brown; Argumento: Bess Meredyth [a partir da peça de “The Green Hat” de Michael Arlen]; Intertítulos: Marian Ainslee, Ruth Cummings; Fotografia: William H. Daniels [preto e branco]; Montagem: Hugh Wynn; Direcção Artística: Cedric Gibbons; Figurinos: Adrian.

Elenco:

Greta Garbo (Diana Merrick), John Gilbert (Neville Holderness), Lewis Stone (Dr. Hugh Trevelyan), Johnny Mack Brown (David Furness), Douglas Fairbanks Jr. (Jeffry Merrick), Hobart Bosworth (Sir Morton Holderness), Dorothy Sebastian (Constance).