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The AviatorFilme biográfico sobre o excêntrico multimilionário norte-americano Howard Hughes (Leonardo DiCaprio), onde a história se inicia com a produção megalómana do filme “Hell’s Angels” (1930), protagonizado por Jean Harlow (Gewn Stefani). A partir de então, acompanhamos as relações amorosas de Hughes, como Katharine Hepburn (Cate Blanchett) e Ava Gardner (Kate Beckinsale), os seus sonhos de construção de novos aviões, e as lutas contra o presidente da Pan Am, Juan Trippe (Alec Baldwin), e o Senador Owen Brewster (Alan Alda), para conseguir fazer a sua TWA voar para a Europa. Tudo isto até 1946, enquanto a sua vontade imperial, sonhos megalómanos, e a luta contra a Perturbação Obsessivo-Compulsiva, condicionam muito da sua vida.

Análise:

A ideia de fazer um filme sobre a vida de Howard Hughes era antiga, tendo já originado vários argumentos, e estudos de diversas companhias e produtores. Aquela que viu a luz do dia partiu da compra, pela Universal Pictures, dos direitos da biografia “Howard Hughes: The Untold Story”, de Peter Harry Brown e Pat H. Broeske, em 1998. Novas paragens aconteceram, e seria a Disney quem voltaria a pegar no projecto, para ser dirigido por Michael Mann e Leonardo DiCaprio (seria o primeiro filme da sua companhia, Appian Way). O primeiro optaria, no entanto, por ficar na cadeira de produtor, quando Martin Scorsese aceitou reunir-se à estrela do seu recente “Gangs de Nova Iorque” (Gangs of New York, 2002).

Scorsese trabalhou então sobre um argumento de John Logan, para acompanhar a vida de Howard Hughes entre os anos 20 e 40 do século XX, com interpretação de Leonardo DiCaprio. Trata-se assim de um olhar para a vida de Hughes, um multimilionário, com paixões desmesuradas pela aviação e pelo cinema, que o levaram a investir grande parte da sua fortuna pessoal para realizar os seus sonhos excêntricos.

O filme começa a narrativa aquando da produção de “Os Anjos do Inferno” (Hell’s Angels, 1930), filme que ficou famoso pelo seu elevadíssimo orçamento. No cinema assistimos à energia com que Hughes (que viria a comprar a RKO Pictures, e ser responsável por mais de duas dezenas de filmes) combate pelas suas ideias, mesmo quando isso implique afrontar a censura do Código de Hayes, como o fez para levar a água ao seu moinho no western “A Terra dos Homens Perdidos” (The Outlaw, 1943) protagonizado por Jane Russell.

A par da fama dos seus filmes, crescia a sua reputação por se fazer sempre acompanhar de belas actrizes. No filme vêmo-lo acompanhado de Jean Harlow (Gwen Stefani), supostamente apenas uma amiga, Katharine Hepburn (Cate Blanchett) e Ava Gardner (Kate Beckinsale), com as quais teve mais longas relações. Cate Blanchett é mesmo soberba na sua recriação de Hepburn, com um completo domínio dos seus maneirismos, comportamentos e até dicção (tendo para isso aprendido a jogar ténis e golfe).

Mas grande parte do filme é dominado pelas lutas de Hughes, quer para produzir sempre novos e mais ambiciosos aparelhos aéreos, quer para expandir as rotas comerciais da sua TWA, cuja colisão com o monopólio da Pan Am (aqui representada pelo personagem de Alec Baldwin) o faz desafiar o sistema e ser motivo de inquéritos públicos por parte do senador Ralph Owen Brewster (Alan Alda), num filme onde se destacam ainda John C. Reilly no papel do seu contabilista Noah Dietrich, Ian Holm como o especialista em condições meteorológicas, Professor Fitz, Danny Huston como o seu advogado Jack Frye, e Matt Ross como o seu especialista em aeronáutica, Glenn Odekirk.

Como habitual numa biopic, “O Aviador” voa tão alto quanto voa o seu protagonista, isto é, Leonardo DiCaprio. Interpretando um milionário narcisista, com uma vontade de ferro, DiCaprio tinha ainda um desafio extra, dar a conhecer os efeitos da Perturbação Obsessivo-Compulsiva. Tal requereu a DiCaprio (e a Scorsese) o contacto com especialistas e doentes, e pessoas que conviveram com Hughes (como Jane Russell, que foi consultora para o filme) para recriar um personagem ao mesmo tempo magnetizante e perturbador, que merece a nossa empatia e desconfiança em igual medida.

É, ainda assim, uma apresentação muito estilizada, quer no campo pessoal (não se fala de outras relações polémicas nem do seu casamento), quer no profissional, que termina antes da sua famosa fase de reclusão em Las Vegas, já escondido do mundo pelo avanço da sua Perturbação Obsessivo-Compulsiva.

Com quase três horas de duração, “O Aviador”, mercê da habitual dinâmica de Scorsese, é um filme que entretém, e empolga, ao mesmo tempo que é um enorme exercício de estilo e um retrato de uma época. Quer pela palete de actores que vemos na tela (o cameo de Jude Law como Errol Flynn é absolutamente delicioso), quer pelo acumular de situações interessantes, quer pelo descobrir da vida de Howard Hughes (onde vamos do mais corriqueiro ao mais doloroso), “O Aviador” é uma aventura cinematográfica, onde vemos um actor no topo da sua forma, e um realizador que aqui brinca com a sua arte com a mesma paixão e loucura com que Hughes brincava com a sua fortuna.

É que, sendo que DiCaprio é o filme, Scorsese dá-nos ainda aquela que é sem dúvida a sua maior produção até ao momento, exigindo a reconstrução de uma época, guarda-roupa, festas, mobiliários e decorações, bem como a recriação dos aparelhos de Hughes, e as das suas produções cinematográficas, como o citado “Os Anjos do Inferno”, no qual Hughes usou várias dezenas de aviões verdadeiros, e mais de vinte câmaras em simultâneo.

Com meios diferentes dos de Hughes, Scorsese deu-se ao luxo de tentar obter, para cada ano representado, uma coloração da película que igualasse a cor existente na época. Isto foi obtido tanto digitalmente como ressuscitando velhas técnicas da Technicolor em desuso há muitas décadas. Martin Scorsese, que aqui atinge uma obsessão com a perfeição digna de Hughes, chegou a afirmar ter de gastar 500 000 dólares do seu próprio dinheiro na produção de um filme cujo orçamento chegou aos 100 milhões de dólares, muito por culpa da decisão de se usarem aparelhos reais, e miniaturas detalhadas, em vez de CGI.

Apesar do seu altíssimo orçamento, “O Aviador” conseguiu duplicar esse valor em receitas, sendo um sucesso para público e crítica que o coloca ao nível do melhor da carreira de Scorsese, aqui num registo clássico como já havia feito em “A Idade da Inocência” (The Age of Innocence, 1993). O filme seria recordista de nomeações nos Oscars, com 11 nomeações e cinco vitórias: Fotografia, Montagem, Direcção Artística, Guarda-roupa e Actriz Secundária (Cate Blanchett). Continuava a faltar a estatueta do realizador, que viu o seu filme acumular nomeações e prémios nos Globos de Ouro, BAFTA, etc.

Como curiosidade note-se que tanto Loudon Wainwright III, como os seus filhos Rufus Wainwright e Martha Wainwright surgem em momentos (e eras) diferentes como cantores no Coconut Grove Nightclub, numa banda sonora que inclui tanto temas da época como uma partitura original de Howard Shore.

Produção:

Título original: The Aviator; Produção: Forward Pass / Appian Way / IMF Internationale Medien und Film GmbH & Co. 3. Produktions KG / Initial Entertainment Group (IEG) / Warner Bros. / Miramax / Cappa Productions [não creditada]; Produtores Executivos: Leonardo DiCaprio, Chris Brigham, Rick Yorn, Harvey Weinstein, Bob Weinstein, Rick Schwartz, Colin Cotter, Martin Scorsese [não creditado]; País: EUA; Ano: 2004; Duração: 170 minutos; Distribuição: Miramax (EUA) / Warner Bros.; Estreia: 14 de Dezembro de 2004 (EUA), 3 de Fevereiro de 2005 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: Michael Mann, Sandy Climan, Graham King, Charles Evans Jr.,; Co-Produção: Joseph P. Reidy; Argumento: John Logan; Música: Howard Shore; Supervisão Musical: Randall Poster; Fotografia: Robert Richardson [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Montagem: Thelma Schoonmaker; Design de Produção: Dante Ferretti; Direcção Artística: Robert Guerra; Cenários: Francesca Lo Schiavo; Figurinos: Sandy Powell; Caracterização: Morag Ross; Efeitos Visuais: Rob Legato; Efeitos Especiais: R. Bruce Steinheimer; Director de Produção: Jan Foster.

Elenco:

Leonardo DiCaprio (Howard Hughes), Cate Blanchett (Katharine Hepburn), Kate Beckinsale (Ava Gardner), John C. Reilly (Noah Dietrich), Alec Baldwin (Juan Trippe), Alan Alda (Senator Ralph Owen Brewster), Ian Holm (Professor Fitz), Danny Huston (Jack Frye), Gwen Stefani (Jean Harlow), Jude Law (Errol Flynn), Adam Scott (Johnny Meyer), Matt Ross (Glenn Odekirk), Kelli Garner (Faith Domergue), Frances Conroy (Mrs. Hepburn), Brent Spiner (Robert Gross), Stanley DeSantis (Louis B. Mayer), Edward Herrmann (Joseph Breen), Willem Dafoe (Roland Sweet), Kenneth Welsh (Dr. Hepburn), J.C. MacKenzie (Ludlow).

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