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Flesh and the DevilLeo von Harden (John Gilbert) e Ulrich von Eltz (Lars Hanson) são dois amigos inseparáveis, com um pacto de amizade para toda a vida. De regresso a casa numa licença do serviço militar onde ambos servem, Leo apaixona-se pela bela Felicitas (Greta Garbo), tornando-se seu amante. Mas, sem que Leo saiba, Felicitas é casada com o Conde von Rhaden (Eugenie Besserer), e quando o seu marido os descobre juntos desafia Leo para um duelo. Leo mata o Conde, e é exilado em castigo durante cinco anos em África, prometendo voltar para Felicitas. Só que quando Leo regressa, descobre que Ulrich e Felicitas são agora casados. Dividido entre a paixão por Felicitas (que o tenta reconquistar) e a lealdade a Ulrich, Leo sente-se perdido numa situação que só pode terminar em tragédia.

Análise:

Em 1926 a MGM apostou forte naquele que viria a ser um dos seus filmes mais famosos dos anos 20. Então sob o comando artístico de Irving Thalberg, a MGM mostrava-se como uma produtora vocacionada para melodramas de grande fôlego e elevados valores de produção, e isso ficou evidente com a tragédia “O Demónio e a Carne”. Tratava-se do terceiro filme de Greta Garbo em Hollywood, primeiro dos seus sete filmes realizados por Clarence Brown, o seu realizador preferido, e finalmente, o primeiro de quatro filmes em que Garbo contracenou com John Gilbert, par que se tornaria um dos mais míticos das primeiras décadas de Hollywood, tendo muita correr tanta tinta, e gerando histórias românticas, entre as quais a de que Gilbert se teria apaixonado por Garbo no set deste filme, na primeira vez em que a viu.

Ainda com John Gilbert como cabeça de cartaz, “O Demónio e a Carne” era uma história típica das heroínas de Greta Garbo. Começando como a história de dois amigos inseparáveis, Leo von Harden (John Gilbert) e Ulrich von Eltz (Lars Hanson). De licença do serviço militar onde ambos servem, Leo apaixona-se pela bela Felicitas (Greta Garbo), tornando-se seu amante. Só que Felicitas é casada com o Conde von Rhaden (Eugenie Besserer), o que Leo só descobre quando são apanhados em flagrante pelo marido enganado. Segue-se um duelo em que Leo mata o Conde, e é exilado durante cinco anos em África, deixando o amigo Ulrich a olhar por Felicitas, e sem que nunca ninguém saiba que o motivo do duelo foi a traição dela. Quando Leo regressa, descobre que Ulrich e Felicitas são agora casados. Tal não impede Felicitas de voltar a procurar Leo, não se importando de novamente trair o segundo marido. Dividido entre a paixão por Felicitas e a lealdade a Ulrich, Leo sente-se perdido, até ao momento em que Ulrich tudo descobre e novo duelo será a solução decidida pelos dois amigos.

A história de “O Demónio e a Carne” é simples, e até básica, mas é nos detalhes que ela se transcende. Por um lado temos a amizade a toda a prova de Leo e Ulrich (onde não poucas pessoas têm lido vestígios de homoerotismo), por outro a dissimulação de Felicitas, que trai, tanto quanto atrai, primeiro não dizendo a Leo ser casada, depois não contando ao segundo marido (Ulrich) que fora amante de Leo, e finalmente traindo Ulrich sem remorso.

Assim, embora uma história de triângulo amoroso, “O Demónio e a Carne” tem a originalidade de mostrar como elo mais forte, o elo masculino do triângulo, com o poético pacto de infância na rebaptizada “Ilha da Amizade”, as divertidas peripécias militares, e claro, o climático confronto final na mesma ilha. O elemento feminino, mais que a atracção dos dois homens, é o factor de discórdia e de tragédia. Quase numa acepção bíblica é ela o pecado original da história, ou indo mais longe, o demónio do título.

Emblemática é a sequência paralela à do duelo, quando a inocente Hertha (Barbara Kent), irmã de Ulrich e apaixonada de Leo, implora a Felicitas que seja a solução. A forma como Hertha reza ferverosamente é correspondida com violentas convulsões de Felicitas, no que nos parece quase um exorcismo. Findo este, Felicitas parece finalmente liberta, abrindo os olhos pela primeira vez, e correndo para salvar os dois amigos, morrendo por eles. E é a sua morte que apaga neles tudo o que os impedia de ver a sua amizade, que novamente surge como a principal força das suas vidas.

Como se não bastasse o forte teor dramático e emocional, “O Demónio e a Carne” é ainda notável pela sua fotografia e o vasto uso de um léxico cinematográfico, mostrando como o cinema estava já numa fase madura. Seja pelos cenários de exteriores, com o pleno uso de profundidade de campo, pelos bonitos interiores, pelo hábil uso da luz (note-se as várias cenas na penumbra, iluminadas por uma vela ou fósforo), e por imagens tão bem conseguidas como a ilha congelada, o filme de Clarence Brown parece ter sempre motivos de interesse a cada plano.

Destaque ainda para o fino humor contido em tantos momentos, da sequência inicial no quartel, aos momentos do pastor que quando via gémeas pensava que via a dobrar poe efeito do álcool. Mas acima de tudo destaca-se o erotismo permanente em cenas tão ousadas como o primeiro beijo de Garbo e Gilbert, que acontece simbolicamente na partilha de um cigarro, ou na provocadora cena da partilha de saliva através da taça do vinho da eucaristia.

Finalmente há que destacar a presença de Greta Garbo. Elegante, misteriosa, fatal, Garbo conseguia trazer à tela uma personagem cruel e amoral, mas ao mesmo tempo desejável, hipnotizando a plateia como o fazia com os actores. Tudo quando Garbo soube da morte da sua irmã, por cancro, o que levou Garbo a recusar inicialmente o filme, pretendendo viajar até à Suécia, mas isso foi-lhe negado pela MGM, que a chantageou com deportação caso ela não obedecesse. Pelo lado positivo ficou o romance (verdadeiro) com John Gilbert, que a pediu em casamento no final das filmagens. O casal passou a viver junto, mas nunca casaram.

“O Demónio e a Carne” foi um estrondoso êxito, lançando em definitivo a carreira de Greta Garbo como a mais brilhante estrela da MGM.

Produção:

Título original: Flesh and the Devil; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1926; Duração: 112 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 12 de Dezembro de 1926 (EUA), 23 de Janeiro de 1929 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Clarence Brown; Produção: Clarence Brown, Irving Thalberg [não creditado]; Argumento: Benjamin Glazer, Hanns Kräly [não creditado], Frederica Sagor [não creditada] [a partir do romance “The Undying Past” de Hermann Sudermann]; Intertítulos: Marian Ainslee; Fotografia: William H. Daniels [preto e branco]; Montagem: Lloyd Nosler; Cenários: Cedric Gibbons, Fredric Hope; Figurinos: André-ani.

Elenco:

John Gilbert (Leo von Harden), Greta Garbo (Felicitas), Lars Hanson (Ulrich von Eltz), Barbara Kent (Hertha), William Orlamond (Tio Kutowski), George Fawcett (Pastor Voss), Eugenie Besserer (Mãe de Leo), Marc McDermott (Conde von Rhaden), Marcelle Corday (Minna).

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