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Bringing Out the DeadFrank Pierce (Nicolas Cage) é um paramédico que conduz uma ambulância durante a noite, para atender a emergências fora de horas em Nova Iorque. Durante três noites, cada uma com um parceiro diferente, vemos Frank, cada vez mais desgastado, em estado de paranoia, atormentado pelos fantasmas das pessoas que não consegue salvar, e vivendo cada noite como um pesadelo, ou uma fuga para a frente em que cada salvamento pode funcionar como a droga que faz esquecer todos os fracassos anteriores.

Análise:

“Por Um Fio” seria o ultimo filme de Martin Scorsese no século XX, e de certo modo o fecho de uma era, iniciando-se no filme seguinte aquilo que alguns críticos já chamam a fase Leonardo Di Caprio. Tudo começou quando o produtor Scott Rudin adquiriu os direitos do livro “Bringing Out the Dead” de Joe Connelly, um paramédico de Nova Iorque que contava o stress, paranóia e excitação do seu trabalho nocturno. Rudin pensou imediatamente em Scorsese como realizador ideal para o projecto, e este chamou Paul Schrader como o argumentista certo para tornar tal história num filme seu.

A escolha de Schrader é de certo modo óbvia, depois de “Taxi Driver” (1976), Schrader ficou conhecido como escritor da moderna selva nocturna, feita de neons, carros acelerados, ruas sujas e uma fauna humana decadente, numa contemplação auto-destrutiva contada na primeira pessoa. Por esse motivo Frank Pierce lembra um pouco o Travis Bickle de Robert De Niro.

Neste caso, o protagonista, Frank Pierce (Nicolas Cage), não é um desajustado da sociedade que lhe tem nojo, ou sonha limpá-la, como Bickle, mas sim um homem do sistema, um paramédico que conduz uma ambulância através da noite nova-iorquina, com a missão de ajudar pessoas. Essa noite é um personagem de pleno direito, feita de ruído e luz, de acção e tráfego, e muita gente que a vive fora de horas, desde os que procuram um bom momento aos que o fornecem (nem que seja ilicitamente), dos que fazem da noite o seu habitat, aos que por infortúnio são vítimas dela.

É nessa autêntica selva, impiedosa e cheia de dificuldades, que Frank Pierce e o seu parceiro de cada noite (e testemunhamo-lo com três, em tantas outras noites consecutivas, interpretados por John Goodman, Ving Rhames e Tom Sizemore) trabalham, numa espécie de corrida vertiginosa contra as dificuldades, o tempo, e contra eles próprios. É que, num trabalho feito de pressa, tensão e muita adrenalina, é impossível aos paramédicos não se deixarem afectar pela realidade que vivem noite após noite.

É esse o caso de Frank, que vemos quase perder um paciente (Cullen O. Johnson) por problemas cardíacos, o que lhe traz o fantasma da jovem Rose (Cynthia Roman), que ele viu morrer, e pela qual sente ainda culpa. Por isso aproxima-se deste novo caso, e em particular da filha da vítima, Mary Burke (Patricia Arquette), a quem quer dar boas notícias.

Filmado maioritariamente durante a noite, e em grande parte dentro de ambulâncias (depois de tanto Scorsese como Cage se terem preparado com muitas horas em ambulâncias em verdadeiro serviço de emergências), “Por Um Fio” é essencialmente um exercício de Scorsese para nos trazer a noite e os seus efeitos (tanto oníricos como paranóicos) ilustrados na primeira pessoa, por alguém que a vive como uma droga, constantemente privado de sono, mantido com estimulantes, atormentado por fantasmas, e movido por uma sede que o faz ver em cada caso a redenção de todos os outros, quase num sentido bíblico, ou pelo menos místico. Note-se como o último plano, em que uma luz irreal ilumina Frank, abandonado nos braços de Mary (claro, Maria), é uma explícita referência à icónica imagem cristã da «pietà».

Frank é assim o redentor, com dificuldade em aceitar o seu papel, no qual se sacrifica pela humanidade (neste caso a sua cruz é a vermelha), chegando a um estado de quase total alienação, em que dificilmente distingue ilusão de realidade, num mundo que pouco real parece ser, na câmara sempre rápida de Scorsese, e montagem vertiginosa da sua fiel Thelma Schoonmaker. Com uma das suas realizações mais arriscadas em muitos anos (note-se a cena em que Frank tenta salvar Rose, a qual foi interpretada ao contrário, para depois ser rodada em movimento inverso), Scorsese transforma todo o filme numa espécie de sonho ou pesadelo, conduzidos por essa descida de Frank Pierce aos infernos, onde não falta o humor negro, e muito psicadelismo (por exemplo no uso de um maçarico para arrancar uma barra metálica é transformado em visões de fogos de artifício).

Nicolas Cage (que na altura era casado com Patricia Arquette) consegue em “Por Um Fio” uma das suas melhores prestações, no papel do alienado paramédico, constantemente à beira de um ataque de nervos, cuja percepção alterada nos dá a conhecer um mundo diferente do que vemos durante o dia. No entanto, como aspecto negativo, saliente-se que, levando longe de mais o seu retrato da paranóia nocturna, Scorsese aliena mais que o seu protagonista, também a empatia que possa haver entre público e história. Esta parece sempre algo alienígena, exagerada, clínica, e de difícil aceitação.

Tal tornou “Por Um Fio” um fracasso de bilheteira, e ainda hoje visto como um dos pontos menos interessantes da carreira de Martin Scorsese.

Produção:

Título original: Bringing Out the Dead; Produção: Scott Rudin-Cappa-De Fina Productions / Paramount Pictures / Touchstone Pictures; Produtores Executivos: Adam Schroeder, Bruce S. Pustin; País: EUA; Ano: 1999; Duração: 116 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 22 de Outubro de 1999 (EUA), Maio de 2000 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: Scott Rudin, Barbara De Fina; Co-Produtores: Joseph P. Reidy, Eric Steel; Produtores Associados: Jeff Levine, Mark Roybal; Argumento: Paul Schrader [a partir do livro homónimo de Joe Connelly]; Música: Elmer Bernstein; Orquestração: Emilie A. Bernstein; Fotografia: Robert Richardson [filmado em Panavision, cor por DeLuxe]; Montagem: Thelma Schoonmaker; Design de Produção: Dante Ferretti; Direcção Artística: Robert Guerra; Cenários: William F. Reynolds; Figurinos: Rita Ryack; Caracterização: Linda Grimes; Efeitos Especiais: John Ottesen; Efeitos Visuais: Michael Owens; Director de Produção: Shell Hecht.

Elenco:

Nicolas Cage (Frank Pierce), Patricia Arquette (Mary Burke), John Goodman (Larry), Ving Rhames (Marcus), Tom Sizemore (Tom Wolls), Marc Anthony (Noel), Mary Beth Hurt (Enfermeira Constance), Cliff Curtis (Cy Coates), Nestor Serrano (Dr. Hazmat), Aida Turturro (Enfermeira Crupp), Sonja Sohn (Kanita), Cynthia Roman (Rose), Afemo Omilami (Griss), Cullen O. Johnson (Mr. Burke), Arthur J. Nascarella (Captain Barney), Martin Scorsese (Operador da Central – Voz), Julyana Soelistyo (Irmã Fetus), Queen Latifah (Operadora da Central – Voz).

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