Etiquetas

, , , , , , , , , , , , , ,

Le deuxième souffleGustave Minda (Lino Ventura), conhecido por Gu, foge da cadeia depois de muitos anos preso. Quando chega a Paris para procurar a sua amada Manouche (Christine Fabréga), vê-se envolvido numa guerra de gangsters, que chama a atenção do Comissário Blot (Paul Meurisse). Gu decide deixar o país com Manouche, mas primeiro precisa de um último golpe que lhe garanta a independência financeira. É em Marselha que alinha com o grupo de Paul Ricci (Raymond Pellegrin), para assaltarem uma carrinha que transporta platina. Mas Blot continua no seu encalce, e pretende apanhá-lo e, através dele, desmantelar o bando.

Análise:

Embora com ligações apenas marginais à Nouvelle Vague (o seu cinema tem sempre um aspecto mais clássico que o dos realizadores deste movimento), Jean-Pierre Melville consegue integrar alguns dos conceitos da nova vaga francesa, nomeadamente os longos planos-sequência em planos por vezes quase improvisados, e uma maior atenção sobre o perfil psicológico dos seus personagens, cujo estado se sobrepõe à própria narrativa.

Ainda assim, como noutros dos seus filmes, “O Segundo Fôlego” é um drama criminal clássico, seguindo uma estrutura narrativa convencional, num suceder de episódios que levam a um documentar preciso do destino do seu personagem principal.

E este é Gu, nome de Gustave Minda (Lino Ventura), que vemos nos instantes iniciais a fugir da cadeia. A acção parece depois saltar para pontos diversos, com a introdução de Paul Ricci (Raymond Pellegrin) a recomendar cuidado ao seu parceiro Jeannot (Albert Dagnant) num assunto que este vai resolver a Paris, antes do grande golpe que ambos planeiam. Um segundo salto transporta-nos para um bar em Paris onde conhecemos Manouche (Christine Fabréga) e o seu amigo Jacques, O Notário (Raymond Loyer), que é morto, num tiroteio, por Jeannot, que morre também no processo. Tal traz a intervenção do Comissário Blot (Paul Meurisse) que num cinismo extremo e realista, ignora todos os depoimentos, sugerindo ele todas as mentiras que sabe ir ouvir. Um terceiro salto leva-nos ao apartamento de Manouche, que é assaltada por dois gangsters que imobilizam o seu empregado e guarda-costas Alban (Michel Constantin). Por sorte Gu vem a chegar e domina a situação, descobre que eles foram enviados por Jo Ricci (Marcel Bozzuffi), e mata-os.

Numa série consecutiva de episódios, Melville apresenta-nos imensos personagens, situações e pontos de conflito. É um início complexo de seguir, com enorme exposição de nomes, factos e enredos, que aos poucos culminam na definição de uma história principal. Esta é a da tentativa de Gu deixar Paris, conseguir um golpe que o enriqueça e lhe permita deixar França com Manouche, tudo sob a investigação atenta de Blot, que desde o primeiro minuto percebe o que se passa.

O caminho levará Gu a Marselha, onde alinhará com Paul Ricci, ainda que os seus cúmplices desconfiem que um homem que passou tanto tempo preso possa ser um delator, e que estes se relacionem com Jo Ricci, o mesmo que tem a cabeça a prémio por Gu. Tudo sob o olhar do misterioso Orloff (Pierre Zimmer), que planeia como um jogador de xadrez todas as jogadas finais.

Na história de uma fuga e tentativa de sobrevivência misturam-se a habitual moral da lealdade entre gangsters, as lutas rivais, e a perene sombra da traição, merecendo particular atenção a necessidade de Gu limpar o seu nome aos olhos dos gangsters que não traiu, mesmo que isso lhe venha a custar a vida. Afinal, como dito nas linhas iniciais do filme, é a forma de morrer a única escolha que cabe a cada homem.

O enredo não pára de avançar, o que Melville gere com a sua habitual mestria, sabendo onde acelerar e onde retardar a acção, com interpretações intensas e uma tensão constante. Seja nas sucessivas cenas de acção, seja no calmo planear de algo (por exemplo no roubo à carrinha que transporta a platina, que vemos num tal detalhe, que conseguimos sentir a ansiedade da espera), ou nos confrontos surdos que antecipamos (como o momento em que Orloff confronta Jo Ricci e os seus homens num apartamento vazio).

Assim, mostrando tomar os thrillers americanos como modelos, Melville consegue mais uma vez um filme que é inteiramente seu, e nascido numa França que vivia da inspiração da Nouvelle Vague.>

Assim, mostrando tomar os thrillers americanos como modelos, Melville consegue mais uma vez um filme que é inteiramente seu, e nascido numa França que vivia da inspiração da Nouvelle Vague.

Produção:

Título original: Le deuxième souffle; Produção: Les Productions Montaigne; País: França; Ano: 1966; Duração: 144 minutos; Distribuição: S.N. Prodis; Estreia: 1 de Novembro de 1966 (França), 1 de Março de 1968 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jean-Pierre Melville; Produção: Charles Lumbroso, André Labay; Argumento: Jean-Pierre Melville [a partir do livro “Un reglement de comptes” de José Giovanni]; Diálogos: José Giovanni, Jean-Pierre Melville; Música: Bernard Gérard; Fotografia: Marcel Combes [preto e branco]; Montagem: Monique Bonnot, Michèle Boëhm; Design de Produção: Jean-Jacques Fabre; Cenários: Guy Maugin; Figurinos: Michel Tellin; Direcção de Produção: Alain Quefféléan.

Elenco:

Lino Ventura (Gustave ‘Gu’ Minda), Paul Meurisse (Commissário Blot), Raymond Pellegrin (Paul Ricci), Christine Fabréga (Simone, dita ‘Manouche’), Marcel Bozzuffi (Jo Ricci), Paul Frankeur (Inspector Fardiano), Denis Manuel (Antoine Ripa), Jean Négroni (O Homem), Michel Constantin (Alban), Pierre Zimmer (Orloff), Pierre Grasset (Pascal), Jacques Léonard, Raymond Loyer (Jacques, O Notário), Régis Outin, Albert Michel (Marcel le Stéphanois), Jean-Claude Bercq, Louis Bugette (Théo), Albert Dagnant (Jeannot Franchi).

Anúncios