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KundunEm 1933 more o décimo terceiro Dalai Lama, que os tibetanos crêem ser uma encarnação do Buda, e por isso seu líder político e espiritual. Multiplicam-se os esforços para encontrar a criança em quem se manifeste nova encarnação. É em 1939, numa pequena aldeia de fronteira com a China, que Reting Rinpoche (Sonam Phuntsok) descobre o pequeno Lhamo, de dois anos, que apresenta aos monges de Lhasa como o décimo quarto Dalai Lama. Lhamo (interpretado sucessivamente por Tenzin Yeshi Paichang, Tulku Jamyang Kunga Tenzin, Gyurme Tethong e Tenzin Thuthob Tsarong) vai crescer educado pelos monges, preparado para ser o líder de um povo rural e atrasado. Só que entretanto dá-se a revolução chinesa e, sob a direcção de Mao Tse-tung (Robert Lin), a China reivindica o Tibete como sua província. Perante a presença cada vez mais hostil dos chineses, o Dalai Lama vai ter que decidir que caminho tomar de modo a defender a tradição da sua cultura e religião, sem precipitar a aniquilação do seu povo.

Análise:

Em 1997 surgiu aquele que seria, porventura, o mais atípico filme da carreira de Martin Scorsese. Sem relações às suas referências pessoais, a Nova Iorque ou ao Cristianismo, sem usar a sua habitual montagem rápida, ou actores capazes de improvisar do modo dinâmico que caracterizava os seus filmes, Scorsese produzia, no estrangeiro, “Kundun”, uma obra dedicado à vida do décimo quarto Dalai Lama, e líder espiritual do Tibete.

A partir de um argumento escrito por Melissa Mathison (então esposa do actor Harrison Ford), a escritora responsável pelo sucesso de “E. T. – O Extra-Terrestre” (E.T. The Extra-terrestrial, 1982) de Steven Spielberg, a qual teve a ideia de entrevistar o Dalai Lama e ecrever a sua biografia, o filme, dada a sua natureza delicada, seria filmado maioritariamente em Marrocos, com algumas paisagens captadas na British Columbia canadiana.

Embora Scorsese estivesse habituado a filmar baseado em histórias reais, e mesmo a fazer biopics e filmes de época, nunca se deixara levar para tão longe das suas referências, como o extremo oriente. Para alguns isto parecia uma cedência a interesses políticos, numa altura em que o Dalai Lama multiplicava contactos internacionais para dar a conhecer a sua causa, tendo inclusivamente ganho o Prémio Nobel da Paz em 1989. Por coincidência. “Kundun” estreava no mesmo ano em que estrearia outro filme com a mesma temática: “Sete Anos no Tibete” (Seven Years in Tibet, 1997) de Jean-Jacques Annaud.

“Kundun” conta-nos a história do actual Dalai Lama, desde que foi “descoberto” pelos seus, como reencarnação do Buda, e sucessor do décimo terceiro Dalai Lama, morto em 1933. Assim, um menino de dois anos, com uma estranha propensão para adivinhar que objectos pertenceram ao seu antecessor, é levado para Lhasa, em 1939, onde é entronizado, educado e venerado como líder espiritual de um povo. Por entre curiosidade, fascinação e surpresa, o rapaz vai crescer, sempre com a companhia e guarda dos seus dedicados perceptores que são simultaneamente fiéis súbditos.

Só que o mundo está a mudar, e finda a Segunda Guerra Mundial, a China torna-se comunista, e inicia a sua política de expansão, que inclui a ocupação do Tibete. Apesar dos esforços diplomáticos do Dalai Lama e do seu governo, a prepotência chinesa torna-se cada vez mais agressiva, e ele acaba por aceitar deixar Lhasa, procurando o exílio na Índia em 1959.

Como dito atrás, fugindo um pouco aos seus cânones habituais, Scorsese filma “Kundun” com um olhar lento e quase contemplativo. Um dos seus principais trunfos é a fotografia absolutamente brilhante de Roger Deakins, com quem nunca antes havia trabalhado. O próprio Deakins confessaria que a sua experiência em documentários tinha sido essencial ao projecto, por todo o elenco ser composto de actores não profissionais (nalguns casos familiares do próprio Dalai Lama).

O uso de actores não conhecidos foi, aliás, factor que prejudicou a aceitação do filme, quando competia com o supracitado “Sete Anos no Tibete”, protagonizado por Brad Pitt. É também questionável o facto de todos falarem inglês, geralmente com muito pouca fluência, o que parecia contrariar tudo aquilo a que Scorsese habituara o seu público.

Seja ou não um filme com agenda política, Scorsese dá-nos um olhar carinhoso para uma figura maior que a sua própria vida, um homem que foi escolhido como representação divina, ainda em tenra idade. Curioso, irreverente, aqui e ali traquinas, o pequeno Dalai Lama é sempre humilde e respeitoso para com os seus súbditos. Através dos seus olhos assistimos à mudança do mundo, onde a China comunista é a grande vilã, mas onde poucas ou nenhumas vezes podemos testemunhar o que significa o Tibete.

De facto, apesar das inúmeras pistas sobre um mundo pobre, rural e supersticioso, por contraste com a avançada China, pouco nos é dado a saber sobre o povo tibetano, ou mesmo sobre o significado religioso do que é ser Dalai Lama. Scorsese mostra-nos um escolhido porque o é, e passa para a idade adulta (algumas das elipses, como a morte dos seus mais próximos, são demasiado estilizadas), onde tudo parece centrar-se nas condições que justificarão a sua fuga.

Embora um filme de grande beleza estética, e com uma banda sonora admirável de Philip Glass, “Kundun” parece sempre situar-se numa esfera muito para além do espectador, seja porque não raras vezes testemunhamos detalhes que como ocidentais não podemos compreender (por exemplo a destruição das areias Mandala), quer porque nunca estamos verdadeiramente a par do significado do título de Dalai Lama na alma de um homem tão normal. Ao contrário de na sua outra aventura religiosa “A Última Tentação de Cristo” (The Last Temptation of Christ, 1988), Scorsese não consegue em “Kundun” o mesmo olhar provocante ou envolvência emocional, limitando-se a narrar episódios friamente.

Distribuído pela Buena Vista (distribuidora da Disney), o filme foi proibido na China, a qual fez diversas ameaças à Disney, no que considerou uma propaganda hostil. Scorsese, Mathison e vários dos seus colaboradores mais próximos, ficaram desde logo impedidos de entrar no Tibete.

“Kundun” foi nomeado para quatro Oscars, Melhor Direcção Artística, Melhor Fotografia, Melhor Guarda-roupa e Melhor Banda Sonora.

Produção:

Título original: Kundun; Produção: Touchstone Pictures / Cappa-De Fina Productions / Dune Films / Refuge Productions Inc.; Produtora Executiva: Laura Fattori; País: EUA; Ano: 1997; Duração: 134 minutos; Distribuição: Buena Vista Pictures; Estreia: 25 de Dezembro de 1997 (EUA), 6 de Março de 1998 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: Barbara De Fina, Jeanne Stack (Canadá); Co-Produção: Melissa Mathison; Produtores Associados: Scott Harris, Perry Santos; Argumento: Melissa Mathison; Música: Philip Glass; Fotografia: Roger Deakins [cor por Technicolor]; Montagem: Thelma Schoonmaker; Design de Produção: Dante Ferretti; Direcção Artística: Franco Ceraolo, Massimo Razzi, Alan Tomkins; Cenários: Francesca Lo Schiavo; Figurinos: Dante Ferretti; Caracterização: Fabrizio Sforza; Efeitos Especiais: Sand Mandala; Director de Produção: Leslie Kobyluck.

Elenco:

Tenzin Thuthob Tsarong (Dalai Lama, Adulto), Gyurme Tethong (Dalai Lama, 12 anos), Tulku Jamyang Kunga Tenzin (Dalai Lama, 5 anos), Tenzin Yeshi Paichang (Dalai Lama, 2 anos), Tencho Gyalpo (Mãe), Tenzin Topjar (Lobsang, 5-10 anos), Tsewang Migyur Khangsar (Pai), Tenzin Lodoe (Takster), Geshi Yeshi Gyatso (Lama de Sera), Losang Gyatso (Mensageiro), Sonam Phuntsok (Reting Rinpoche), Gyatso Lukhang (Camareiro), Lobsang Samten (Mestre da Cozinha), Jigme Tsarong (Taktra Rimpoche), Tenzin Trinley (Ling Rimpoche), Namgay Dorjee (Kashag / Nobre #1), Phintso Thonden (Kashag / Nobre #2), Chewang Tsering Ngokhang (Leigo #1), Jamyang Tenzin (Norbu Thundrup), Tashi Dhondup (Lobsang, Adulto), Jampa Lungtok (Oráculo Nechung), Karma Wangchuk (Guarda-costas com rosto deformado), Kim Chan (Segundo General Chinês), Henry Yuk (General Tan), Ngawang Kaldan (Primeiro-ministro Lobsang Tashi), Jurme Wangda (Primeiro-ministro Lukhangwa), Robert Lin (Secretário Mao), Salden Kunga (Médico Tibetano), John Wong (Camarada Chinês), Gawa Youngdung (Velha), Tenzin Rampa (Tenzin Chonegy, 12 anos), Vyas Ananthakrishnan (Soldado Indiano).

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