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CasinoAce Rothstein (Robert De Niro) é um gangster de Chicago, com faro para apostas, habituado a garantir grandes lucros, o que o torna um menino bonito da máfia de Chicago. Por tal, é enviado para Las Vegas, para dirigir o casino Tangiers, e garantir lucros maiores aos chefes de Chicago. Ace toma o gosto pelos casinos e gere-os como máquinas bem oleadas. Mas sempre ávidos de maiores lucros, os chefes enviam Nicky Santoro (Joe Pesci), o melhor amigo de Ace, mas de temperamento muito mais violento, que vê uma oportunidade de gerir o submundo de Las Vegas à sua maneira. Entretanto, Ace casa com Ginger (Sharon Stone), uma ex-prostituta e golpista em casinos, e que mantém uma relação secreta com o seu antigo chulo, Lester Diamond (James Woods), que vai fazer com que aos poucos Ace perca a sua calma e deite tudo a perder.

Análise:

Após colaborar com Martin Scorsese, adaptando o seu próprio livro para o argumento do filme “Tudo Bons Rapazes” (Goodfellas, 1990), Nicholas Pileggi começou imediatamente a trabalhar num outro livro dedicado a documentar a vida do crime organizado nos Estados Unidos, desta vez centrado nos casinos de Las Vegas nas décadas de 70 e 80 do século passado. Quando Pileggi perguntou a Scorsese se quereria fazer novo filme a partir de um livro seu, o realizador convenceu o escritor a inverter a ordem das coisas. Os dois juntaram-se para escrever o argumento do que seria “Casino”, e o livro só seria terminado depois.

“Casino”, tal como acontecera com “Tudo Bons Rapazes”, com o qual ele se relaciona intimamente, é baseado em histórias de pessoas verdadeiras. Neste caso é a história do gerente de casinos, Frank ‘Lefty’ Rosenthal, no filme chamado Sam ‘Ace’ Rothstein (Robert De Niro, no seu oitavo filme com Scorsese). Outros nomes foram mudados, começando pelo próprio casino (Tangiers no filme, Stardust na realidade), Tony Spilotro, que no filme se chama Ricky Santoro (Joe Pesci) e Geri McGee, no filme Ginger McKenna (Sharon Stone).

Contado em off pelos personagens de De Niro e Pesci (por vezes em frases que se intercalam, quase como se houvesse quase um diálogo fora de campo), “Casino” é a história documental de Sam ‘Ace’ Rothstein, um perito em apostas ilegais, com um raro dom para cheirar as oportunidades certas e dar dinheiro a ganhar a quem segue os seus conselhos. Por essa reputação Ace é enviado para Las Vegas, para dirigir o casino Tangiers, onde terá de controlar todas as operações, supervisionar esquemas lícitos e ilícitos, detectar e impedir todas as formas de o casino ser ludibriado e, claro, manter as malas de dinheiro a voar para os chefes de Chicago.

Tudo parece correr bem, até os chefes enviarem para Las Vegas Nicky Santoro, amigo de Ace, mas com um modo muito mais violento e quezilento. A ideia é que Santoro traga o músculo que por vezes pode faltar a Ace, mas aquele pensa mais alto, começando desde logo a impor a sua lei da força para dominar o submundo de Las Vegas, o que o leva rapidamente a estar nas listas negras da polícia. Como se não bastasse, o casamento de Ace com Ginger vai trazendo cada vez mais agruras, o que a leva a fugir várias vezes para se reunir ao seu namorado de longa data, e por vezes chulo, Lester Diamond.

Todas estas contrariedades tornam Ace menos atento aos problemas dos casinos, enquanto as autoridades vão construindo um caso contra ele e os seus, que acabará na perda dos casinos, ataques à máfia, limpezas internas (como a execução dos irmãos Santoro), e a retirada de Ace para longe de Vegas.

Claramente em território que definiu como seu, Martin Scorsese volta ao submundo do crime organizado, num filme que se pode ver como um sucessor de “Tudo Bons Rapazes”. Não fosse esse filme de 1990, e “Casino” poderia ser considerado como uma obra fundamental do realizador italo-americano, mas assim não se deixa de sentir que há algo a ser reusado. O tema geral é o mesmo, a forma também, com narrações em off, centradas num personagem fulcral, que por sua vez se baseia em alguém real. O próprio personagem de Joe Pesci é extremamente parecido com o anterior Tommy DeVito, irascível e gratuitamente violento. Já Robert De Niro se destaca, sendo agora um gentleman, bem mais contido, que não se envolve directamente em violência.

Mas se “Tudo Bons Rapazes” era como um recordar do início de carreira de Scorsese, com um regresso ao jumpcut, montagem rápida e técnica mais improvisada de enquadrar planos e quebrar da quarta parede, “Casino” funciona como que o assimilar do maior formalismo de filmes como o recente “A Idade da Inocência” (The Age of Innocence, 1993). Temos agora longos planos-sequência, que funcionam como bailados, por entre cenário e personagens, levando-nos elegantemente pelo casino (filmado num casino real). Temos os planos estudados e um enorme cuidado com figurantes, cenário e guarda-roupa.

Com a maioria das filmagens a ocorrerem em cenários naturais, na região de Las Vegas, e nos próprios casinos, o filme de Scorsese preocupa-se, como outros antes dele, a dar-nos um olhar para a vida dos gangsters, sem a dourar nem dramatizar em demasia, embora se note um certo olhar nostálgico que chega a criticar a frieza dos casinos modernos, propriedade de corporações sem rosto. A ideia base é procurar um realismo (há um certo ar de documentário em grande parte do filme), que levou a que, tal como em “Tudo Bons Rapazes”, várias pessoas que lidaram com os personagens reais fossem usadas como consultores, o mesmo acontecendo com especialistas de apostas, casinos e do FBI.

Novamente criticado pelo excesso de violência, física e verbal, “Casino” é uma viagem empolgante ao interior dos casinos, dos modos de os gerir, dos esquemas envolvidos, do crime que gera à sua volta, e do quanto o excesso de dinheiro corrompe e faz perder aqueles que tinham tudo para o gozarem em paz. Este é o mote dado desde o minuto inicial na narração de Joe Pesci, e afinal um tema cada vez mais caro a Scorsese, como será visível no seu filme de excessos, “O Lobo de Wall Street” (The Wolf of Wall Street, 2013).

Como sempre, tão brilhante como a forma de filmar, ou a reconstituição dos cenários, está a direcção de actores. De Niro, na sua, até ao momento, última colaboração com Scorsese, tem um papel mais contido, mas intenso. Através da sua narração temos um olhar para a sua mente, completado por uma interpretação quase contemplativa, onde um olhar ou um gesto valem mais que qualquer exuberância do passado. Joe Pesci, como dito atrás, é igual a si próprio, uma força da natureza, quase que repetindo o papel que lhe valeu o Oscar em “Tudo Bons Rapazes”. Quanto a Sharon Stone (escolha improvável num papel onde foram consideradas Nicole Kidman, Melanie Griffith, Rene Russo, Cameron Diaz, Uma Thurman, Michelle Pfeiffer e Madonna) é eficaz, tanto no papel de sedutora glamorosa como no de mulher à beira de um ataque de nervos.

Sendo promovido como um regresso de Scorsese a casa (e às colaborações com De Niro), “Casino” foi um enorme sucesso de bilheteira, sendo quase unanimemente aplaudido pela crítica. O filme granjeou a Scorsese uma nomeação de Melhor Realizador nos Globos de Ouro, prémio que deu a Sharon Stone o reconhecimento como Melhor Actriz. Stone seria também nomeada nessa categoria para os Oscars.

Palavra final para a banda sonora, como habitualmente em Scorsese, composta de temas dos anos 1970 e 1980 que servem como enquadramento das épocas retratadas no filme. A selecção estaria a cargo de Robbie Robertson, o músico dos The Band, que várias vezes colaborou nos filmes de Scorsese.

Produção:

Título original: Taxi Driver; Produção: Universal Pictures / Syalis DA / Légende Entreprises / De Fina-Cappa; País: EUA/França; Ano: 1995; Duração: 171 minutos; Distribuição: MCA/Universal Pictures; Estreia: 14 de Novembro de 1995 (EUA), 8 de Março de 1996 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: Barbara De Fina; Produtor Associado: Joseph P. Reidy; Argumento: Nicholas Pileggi, Martin Scorsese [baseado no livro homónimo de Nicholas Pileggi]; Fotografia: Robert Richardson [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Montagem: Thelma Schoonmaker; Design de Produção: Dante Ferretti; Direcção Artística: Jack G. Taylor Jr.; Cenários: Rick Simpson; Figurinos: Rita Ryack, John A. Dunn; Caracterização: Jo-Anne Smith-Ojeil; Efeitos Especiais: Paul J. Lombardi; Efeitos Visuais: Craig Barron; Director de Produção: Georgia Kacandes.

Elenco:

Robert De Niro (Sam ‘Ace’ Rothstein), Sharon Stone (Ginger McKenna), Joe Pesci (Nicky Santoro), James Woods (Lester Diamond), Don Rickles (Billy Sherbert), Alan King (Andy Stone), Kevin Pollak (Phillip Green), L.Q. Jones (Pat Webb), Dick Smothers (Senador), Frank Vincent (Frank Marino), John Bloom (Don Ward), Pasquale Cajano (Remo Gaggi), Melissa Prophet (Jennifer Santoro), Bill Allison (John Nance), Vinny Vella (Artie Piscano), Oscar Goodman (O próprio), Catherine Scorsese (Mãe de Piscano), Philip Suriano (Dominick Santoro), Erika von Tagen (Amy Rothstein), Frankie Avalon (O próprio), Steve Allen (O próprio), Jayne Meadows (O próprio), Jerry Vale (O próprio).

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