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Les Parapluies de CherbourgGuy Foucher (Nino Castelnuovo, voz de José Bartel) é um jovem mecânico de Cherburgo, enamorado de Geneviève Emery (Catherine Deneuve, voz de Danielle Licari), que trabalha com a sua mãe (Anne Vernon, voz de Christiane Legrand) numa loja de guarda-chuvas. A mãe de Geneviève não aprova o namoro, e o casal encontra-se às escondidas até Guy ser chamado para a guerra. Descobrindo estar grávida de Guy, e sem ter notícias suas, Geneviève tem pela frente uma decisão difícil. Quando Guy regressa, descobre que a mulher que ama e que ele julgara que esperaria por ele, casou com o rico negociante de diamantes, Roland Cassard (Marc Michel, voz de Georges Blaness), e se mudou para Paris.

Análise:

Como sua terceira longa-metragem, Jacques Demy arriscava algo talvez impensável no cinema francês do seu tempo, um musical em que, como numa Ópera, todas as linhas são cantadas. Nascia “Os Chapéus de Chuva de Cherburgo”, da sua própria pena, e com música Michel Legrand, o compositor de tantos filmes da Nouvelle Vague.

A história trata de um jovem casal de Cherburgo, Guy Foucher (Nino Castelnuovo, voz de José Bartel) e Geneviève Emery (Catherine Deneuve, voz de Danielle Licari), que tenta iniciar um romance, embora contra a vontade da mãe de Geneviève, (Anne Vernon, voz de Christiane Legrand). O romance é interrompido pela chamada de Guy para a guerra na Argélia, deixando, sem o saber, Geneviève grávida. A gravidez e a ausência de notícias de Guy, leva Madame Emery a convencer a filha a casar com Roland Cassard (Marc Michel, voz de Georges Blaness), um rico negociante de diamantes de Paris.

Quando Guy regressa, dois anos depois, Geneviève já vive em Paris, com o marido e a sua filha. Isto lança Guy num desespero, do qual sai quando percebe que Madeleine (Ellen Farner, voz de Claudine Meunier), a amiga que sempre cuidara da sua tia doente, está apaixonada por ele.

Demy divide a história em quatro actos. O Acto I começa em Novembro de 1957, intitulando-se “A Partida”, mostrando os acontecimentos que antecedem a partida de Guy. O Acto II (A Ausência) começa em Fevereiro de 1958, e centra-se em Geneviève, desde a revelação da sua gravidez até à decisão de casar. O Acto III (O Regresso) começa em Março de 1959, centrando-se em Guy, desde o seu regresso, passando pela constatação do casamento de Geneviève, e descida ao desespero, levando-o a perder o emprego e a dar-se à bebida e a recorrer a prostitutas, até finalmente perceber que tem o amor de Madeleine. Finalmente, o Acto IV divide-se por Junho de 1959, após a morte da tia de Guy, e a herança a permitir-lhe montar uma estação de serviço, saltando-se depois para Dezembro de 1963, quando Geneviève passa pela estação, e os dois se falam brevemente.

Com um elenco duplo, já que todas as vozes são de cantores, e não dos actores que vemos no ecrã, Demy filmou usando um esquema de cores peculiar, com tons garridos e contrastantes, a tornar cada cenário uma espécie de casa de bonecas, conferindo ao filme um ar de conto de fadas em atmosfera irrealmente inocente. Peculiar é também o facto de todas as linhas serem cantadas, numa história cujos diálogos representam a quase totalidade do avanço narrativo, com uma banda sonora contínua e muito celebrada de Michel Legrand, filmado em longos planos-sequência. De facto, a provar o apelo da banda sonora, alguns temas seriam mesmo traduzidos para inglês, e gravados por muitos artistas internacionais.

Com uma história aparentemente doce e angelical, Demy dá-nos um retrato amargo das relações amorosas, aqui parecendo à mercê do acaso e das circunstâncias que lhe são alheias. Guy e Geneviève amam-se, mas a sua história está destinada a falhar. Uma chamada para a guerra, um ferimento subsequente que interrompe a comunicação, a gravidez inesperada de Geneviève, os problemas financeiros da loja da sua mãe, e a intervenção oportuna de um novo pretendente são factores a mais, que vão fazer com que esse tal puro amor inicial pareça já coisa de um passado longínquo, quando chegamos ao último acto.

Este acto, já sem as cores garridas dos outros três (talvez sintoma de um crescimento e perda de inocência), passado no Natal (símbolo de renascimento), confronta os dois protagonistas de uma forma agri-doce. Ambos vêem no outro o tanto que em tempos lamentaram ter perdido, mas ambos já não se revêem nesse passado, sabendo agora que as vidas se vivem com momentos de verdade e não sonhos de ilusão. Essa consciência é tanto interior, como constatada nos olhos um do outro, levando a uma despedida fria, sem emoção, que talvez doa por isso mesmo, pelo facto de o calor do passado já não existir, e pelo descobrir que as emoções, por mais fortes que sejam, nunca são eternas.

Como curiosidade note-se que o personagem de Marc Michel (Roland Cassard) conta a certa altura ter estado apaixonado por uma rapariga chamada Lola. Tal é uma referência directa ao filme “Lola” (1961) de Demy, filme em que Marc Michel interpreta também Roland Cassard.

“Os Chapéus de Chuva de Cherburgo” foi remasterizado em 1992, por Agnès Varda, a esposa de Jacques Demy, tendo sido digitalizado em 2013.

O filme venceria a Palma de Ouro de Cannes, e seria nomeado para vários Oscars da Academia: Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Banda Sonora, Melhor Canção Original e Melhor Argumento. A reputação de “Os Chapéus de Chuva de Cherburgo” valeu-lhe várias adaptações ao palco, incluindo Paris (1979) Nova Iorque (1979), Los Angeles (1979), Londres (1980), Tóquio (1983) e Dinamarca (2014).

Produção:

Título original: Les Parapluies de Cherbourg; Produção: Parc Film / Madeleine Films / Beta Film; País: França / República Federal Alemã; Ano: 1964; Duração: 87 minutos; Distribuição: 20th Century Fox; Estreia: 19 de Fevereiro de 1964 (França).

Equipa técnica:

Realização: Jacques Demy; Produção: Mag Bodard, Gilbert de Goldschmidt [não creditado], Pierre Lazareff [não creditado]; Argumento: Jacques Demy; Música: Michel Legrand; Fotografia: Jean Rabier [cor por Eastmancolor]; Montagem: Anne-Marie Cotret, Monique Teisseire; Design de Produção: Bernard Evein; Figurinos: Jacqueline Moreau, Real; Caracterização: Christine Fornelli; Direcção de Produção: Charles Chieusse, Philippe Dussart.

Elenco:

Catherine Deneuve (Geneviève Emery), Nino Castelnuovo (Guy Foucher), Anne Vernon (Madame Emery), Marc Michel (Roland Cassard), Ellen Farner (Madeleine), Mireille Perrey (Tia Élise), Jean Champion (Aubin), Pierre Caden (Bernard), Jean-Pierre Dorat (Jean), Bernard Fradet (Aprendiz na Estação de Serviço), Michel Benoist (Comprador de Guarda-chuvas), Philippe Dumat (Cliente da Oficina em 1957), Dorothée Blanck (Rapariga no Café), Jane Carat (Ginny), Harald Wolff (Monsieur Dubourg), Danielle Licari (voz de Geneviève Emery), José Bartel (voz de Guy Foucher), Christiane Legrand (voz de Madame Emery), Georges Blaness (voz de Roland Cassard), Claudine Meunier (voz de Madeleine), Claire Leclerc (voz de Tia Élise).

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