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The Age of InnocenceNa alta sociedade nova-iorquina do final do século XIX, Newland Archer (Daniel Day-Lewis) é um jovem advogado de excelentes famílias, noivo de May Welland (Winona Ryder), também ela pertencente à elite da cidade. Quando a Condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeifer) prima de May, chega da Europa, fugindo ao seu marido, o escândalo instala-se numa sociedade de costumes ordenados, rígidos e tradicionalistas. Por simpatia e fascínio, Newland aproxima-se de Ellen, e aos poucos os dois se vão apaixonando, colocando em causa tudo aquilo que a sociedade a que pertencem significa.

Análise:

Nunca Scorsese fora tão clássico, como quando se dedicou à produção de um filme baseado no romance da célebre autora norte-americana da transição do século XIX para o XX, Edith Wharton. Se por um lado Scorsese se mantém fiel à sua Nova Iorque, mas agora cem anos no passado, e na alta sociedade, e mesmo que tenha dito que este era o seu mais violento filme de sempre (se bem que a um nível emocional), “A Idade da Inocência” é um filme que foge aos cânones habituais do realizador.

Havia já muito que Martin Scorsese pensava realizar um romance de época, e fora já em 1980 que o amigo Jay Cocks lhe aconselhara o livro de Wharton como o ideal para ele filmar. Só ao fim de sete anos Scorsese o leu, e aí sim, decidiu-se a filmá-lo, com Cocks como argumentista, e depois de uma ronda pelas majors de Hollywood o deixar com um acordo satisfatório com a Columbia.

Centrando-se na descrição das regras, idiossincrasias, ócio e hipocrisias da alta-sociedade nova-iorquina, Scorsese dá-nos a história do promissor advogado, Newland Archer (Daniel Day-Lewis), com casamento marcado (a régua e esquadro) com a menina de boas famílias, May Welland (Winona Ryder). Mas quando o anúncio do noivado é feito está a regressar a Nova Iorque a Condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeifer) prima de May, que, para escândalo da sociedade, vem fugida do marido. Pouco importa que este a maltratasse, e que no fundo todos soubessem que no lugar dela fariam o mesmo. O que importa é que Ellen é motivo de mexericos, e traz vergonha à sua família que, à excepção da matriarca Mrs. Mingott (Miriam Margolyes), preferiria ver-se livre dela.

Um pouco por simpatia, um pouco por fascínio daquela mulher tão contrastante com uma sociedade tão presa e estagnada, Newland vai-se aproximar de Ellen, para a tentar ajudar a recuperar um lugar. No processo ambos se apaixonam, mas Newland, irritado consigo mesmo, tenta combater esse desejo, antecipando o casamento. Nem isso o sossegará, pois sempre que sabe de Ellen poder regressar à Europa, ou ser mantida pelo conhecido playboy Julius Beaufort (Stuart Wilson), Newland quase revela os seus sentimentos, procurando mais obsessivamente Ellen. Por fim, e após uma conversa franca com May, Ellen decide regressar à Europa, por razões que Newland só compreenderá anos depois.

Mesmo que deixando de lado toda a irreverência que trouxera para o seu cinema (em parte inspirada pela Nouvelle Vague), para filmar de um modo mais clássico, a realização de Scorsese nunca é menos dinâmica. São exemplos os lentos travellings pelas salas, e entre personagens, como um delicado bailado, dos quais o se destaca o impressionante plano-sequência de cerca de quatro minutos perto do inicio (quando Newland chega ao baile em casa dos Beaufort). Todos os planos parecem encenados como se de um quadro da época se tratasse, reforçando, aliás, o papel da pintura em “A Idade da Inocência”, com muitos quadros a servirem como nossos guias, quer por entre o olhar descritivo quer do protagonista (Day Lewis), quer pela voz da omnipresente narradora (a voz de Joanne Woodward), que nos conta a história como se de uma lenda antiga se tratasse (como a viagem de núpcias de Newland e May,que vemos através de pinturas), mas num comentário crítico, incisivo, e sempre espreitando para dentro das cabeças dos personagens.

Com um design elaborado, e um guarda-roupa deslumbrante, Martin Scorsese impressiona no detalhe da reconstrução de uma época e costumes da sua sociedade, no que é ainda servido por uma banda sonora absolutamente brilhante de Elmer Bernstein. O resultado valeu-lhe o Oscar de Melhor Guarda-roupa, e a nomeação para o de Direcção Artística.

Ao lado da atmosfera clássica irrepreensível, que Scorsese filma com uma palette quente de cores, introduz detalhes como a leitura de cartas ser feita por uma imagem do emissor falando directamente para a câmara, e uma contínua e delicada montagem, que nos mostra objectos (uma chave, uma tira de papel, uma flor) que se vão sucedendo como numa colagem de memórias num caderno antigo, que tenta ilustrar um momento. Note-se ainda o uso da íris (cena da segunda ida à ópera), que é tanto visual como sonora, criando um túnel por onde ouvimos Newland e Archer sussurar perante o apagamento de todas as vozes à sua volta. O simbolismo está sempre presente (a ópera, as rosas amarelas, o cortar dos charutos mostrado como acto castrador, a lenha resvalando das lareiras sempre que há um diálogo delicado), e Scorsese não se coíbe de o usar esteticamente, como nos vários fade outs que acontecem numa explosão de cor.

Toda esta inventividade e riqueza são características que contribuem para realçar uma história comovente, e servida de diálogos riquíssimos, que mantêm muito do romance original, numa elegância de que Scorsese, por opção, sempre se mantivera afastado. Mas é do retrato de uma época, suas hipocrisias, e o quanto estas condicionam os comportamentos, que “A Idade da Inocência” trata, resultando na trágica impossibilidade de um amor. E para tal Martin Scorsese trabalhou com os actores que foram a sua primeira escolha, Daniel Day-Lewis, Michelle Pfeiffer e Winona Ryder (esta nomeada para o Oscar de Melhor Actriz Secundária).

Day-Lewis interpreta um advogado em ascensão, pertencente à elite de Nova Iorque, e certo do seu papel, até conhecer a condessa Ellen Olenska, e se deixar apaixonar por ela. A partir de então é um homem torturado, entre desejo por uma mulher fascinante, e o dever perante a sociedade onde todas as famílias de bem esperam o seu casamento com May, uma rapariga ingénua e perfeitamente vazia. Mas embora várias vezes sinta a urgência de quebrar com tudo o que esperam de si, Newland nunca será capaz de o fazer, preferindo acalentar a ideia de tornar Ellen sua amante, o tipo de amante que condena quando outros sugerem que ela já o seja de alguém. É afinal um homem do seu tempo, preso pelas amarras da sociedade a que pertence, e nunca deixando de pensar de dentro delas.

Quanto à condessa Olenska, com Michelle Pfeiffer no seu melhor, a seduzir com graciosidade e encanto, como a mulher que tem um mundo dentro de si, mas não pode ser partilhado, porque uma mulher do seu tempo não deve ter opiniões nem pensar muito. Ellen é a verdadeira figura trágica, presa entre dois mundos que não são seus (a Europa onde a espera um marido que a maltrata, e os Estados Unidos onde a família prefere não ter que lidar com ela), e que aos poucos vai percebendo o quanto essa hipocrisia a rodeia e fere. Será ela a tomar a decisão que porá um ponto final a uma situação desconfortável para todos, e se a sua presença podia colocar a nu o pior em todos, o seu afastamento é um alívio.

Por fim temos May, a frágil e inimaginativa (como a descreve Newland) menina de família, interpretada magistralmente por Winona Ryder. Mulher do seu tempo, parece-nos sempre desfasada de uma história que vemos pelos nossos olhos, afinal olhos de mais de um século depois. Mas no final perguntamo-nos se não esteve ela sempre à frente dos acontecimentos, gerindo a sua não acção e pretensa ignorância, para ser aquilo que se esperava de si, uma mulher que mantém o silêncio e aparente subserviência ao marido, para controlar na sombra, usando a sua fragilidade e suposta inocência para levar a água ao seu moinho. Não era esse o verdadeiro poder feminino do seu tempo, baseado em estruturas rígidas, mantidas com inteligência nos bastidores? Talvez o filme seja afinal a prova da força feminina perante a fraqueza masculina, numa sociedade que se pensava patriarcal.

“A Idade da Inocência” é, na verdade, um filme fora do cânone de Scorsese, que assim prova que está tão à vontade num filme de época filmado de modo clássico, como no submundo criminal da Nova Iorque do seu tempo. O resultado é um filme que não tem um instante perdido, nem é um filme menos imaginativo, ou emocionalmente intenso.

O livro de Edith Wharton tinha já sido adaptado ao cinema por suas vezes, a primeira em 1924, com realização de Wesley Ruggles, e a segunda em 1934, sob direcção de Philip Moeller.

Produção:

Título original: The Age of Innocence; Produção: Columbia Pictures / Cappa/De Fina Productions; País: EUA; Ano: 1993; Duração: 137 minutos; Distribuição: Columbia Pictures; Estreia: 31 de Agosto de 1993 (Festival Internacional de Veneza, Itália), 17 de Setembro de 1993 (EUA), 12 de Novembro de 1993 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: Barbara De Fina; Co-Produção: Bruce S. Pustin; Produtor Associado: Joseph P. Reidy; Argumento: Jay Cocks, Martin Scorsese [baseado no livro “The Age of Innocence” de Edith Wharton]; Música: Elmer Bernstein; Fotografia: Michael Ballhaus [cor por Technicolor]; Montagem: Thelma Schoonmaker; Design de Produção: Dante Ferretti; Direcção Artística: Speed Hopkins; Cenários: Robert J. Franco, Amy Marshall; Figurinos: Gabriella Pescucci; Caracterização: Allen Weisinger, Ronnie Specter; Efeitos Especiais: John Ottesen; Director de Produção: Bruce S. Pustin.

Elenco:

Daniel Day-Lewis (Newland Archer), Michelle Pfeiffer (Ellen Olenska), Winona Ryder (May Welland), Geraldine Chaplin (Mrs. Welland), Michael Gough (Henry van der Luyden), Richard E. Grant (Larry Lefferts), Mary Beth Hurt (Regina Beaufort), Robert Sean Leonard (Ted Archer), Norman Lloyd (Mr. Letterblair), Miriam Margolyes (Mrs. Mingott), Alec McCowen (Sillerton Jackson), Siân Phillips (Mrs. Archer), Jonathan Pryce (Rivière), Alexis Smith (Louisa van der Luyden), Stuart Wilson (Julius Beaufort), Carolyn Farina (Janey Archer), Kevin Sanders (Duque), W.B. Brydon (Mr. Urban Dagonet), Tracey Ellis (Gertrude Lefferts), Cristina Pronzati (Criada da Condessa Olenska), June Squibb (Criada de Mrs. Mingott), Domenica Cameron-Scorsese (Katie Blenker), Brian Davies (Philip), Henry Fehren (Bispo), Patricia Dunnock (Mary Archer), Joanne Woodward (voz da narradora).

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