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Cape FearMax Cady (Robert De Niro) é um condenado por violação violenta que, após cumprir uma pena de 14 anos, é posto em liberdade. Insatisfeito pela forma como foi defendido 14 anos antes, Cady vai começar a surgir por todo o lado na vida do seu antigo advogado, Sam Bowden (Nick Nolte), e família. Desde segui-los na rua, a surgir nos mesmos locais públicos e aparecer a espreitar-lhes as janelas à noite, Cady começa a ser uma ameaça constante para Sam, a sua esposa Leigh (Jessica Lange), e a filha do casal, Danielle (Juliette Lewis), por sinal prestes a fazer 16 anos, a idade da anterior vítima de Cady.

Análise:

Em 1991 estreava “O Cabo do Medo”, um remake do filme “Barreira do Medo” (Cape Fear, 1962), de J. Lee Thompson, e o primeiro de dois filmes mais comerciais que Scorsese faria para a Universal Pictures, como parte do seu acordo para a produção de “A Última Tentação de Cristo” (The Last Temptation of Christ, 1988). O filme começou por ser um projecto de Steven Spielberg, que cedo preferiu passá-lo ao olhar mais acutilante (no que diz respeito a atmosferas perturbadoras e violentas) de Martin Scorsese, trocando com ele a realização de “A Lista de Schindler” (Schindler’s List, 1993).

Como já acontecera em diversos filmes, foi mais uma vez Robert De Niro (aqui no seu sétimo filme com Scorsese) a figura fulcral no convencer de Scorsese, que neste caso não gostara do argumento original, por achar a família assediada demasiado perfeita. O argumento foi então reescrito Wesley Strick, tendo em vista eliminar essa idílica família, e Nick Nolte foi escolhido para interpretar a vítima do personagem de De Niro.

“O Cabo do Medo” mostra-nos Max Cady (Robert De Niro), um condenado a 14 anos de cadeia por ter violado violentamente uma jovem de 16 anos, que agora sai da prisão, e decide ir morar junto do seu antigo advogado de defesa. Este é Sam Bowden (Nick Nolte), que Max acusa de não ter feito tudo para o defender. Como tal, Max começa a seguir incomodativamente a família de Sam, insinuando-se sempre que pode no sentido de os fazer sentir inseguros. Sem conseguir que polícia possa agir, Sam recorre a um detective particular, (Joe Don Baker), para usar os métodos que quiser, para afastar Cady, e assim proteger a sua esposa Leigh (Jessica Lange) e a filha Danielle (Juliette Lewis) a qual está quase a completar 16 anos.

Com um thriller de grande intensidade e violência, Scorsese penetra naquilo que é nitidamente o território de Hitchcock. Tal percebe-se logo no genérico inicial (de quem mais, senão de Saul Bass?), com a incidência nos olhos, que aponta para “A Mulher que Viveu Duas Vezes” (Vertigo, 1958). O tema do olhar, e dos espelhos é recorrente durante o filme, com diversas revelações a acontecerem quando alguém se olha ao espelho, vê alguém ao espelho, oo o apercebe através de vidros. Junta-se a isto a banda sonora, que Elmer Bernstein adaptou da original de Bernard Herrmann (o famoso colaborador de Hitchcock). Acrescente-se ainda a forte insinuação sexual (as traições de Sam, a frustração de Leigh, a descoberta de Danielle), e até uma cena de travesti, que remete para “Psico” (Psycho, 1960).

Por fim temos, em “O Cabo do Medo”, o mais hitchcockiano nos temas, a culpa e a sua transferência. É a culpa de Cady que o leva à prisão, mas é a culpa que Sam sente, por não o ter defendido com todos os argumentos ao seu dispor, que justifica a vingança do ex-condenado. E assim, se por um lado temos a figura do vilão, condenado, e que sabemos ser recorrente na prática criminosa, do outro temos a família vitimizada, que é ela própria um centro de culpa, com um casal que se odeia, que tenta superar uma história de traições e não sabe como lidar com o crescimento de uma filha, que se sente sufocar, e recrimina os pais por tudo o que de mau acontece.

A um nível mais simbólico, é a culpa da família Bowden que atrai o mal que sobre si recai. E este, quase num sentido bíblico, é trazido por esse anjo negro que é Max Cady, um psicopata com a cabeça cheia de más leituras religiosas que o tornam um fundamentalista. Como sempre, Scorsese volta à iconografia cristã (as tatuagens de Cady, as suas citações, o papel que pensa ter), para procurar formas de lidar com culpas e hipocrisias, neste caso numa família de classe alta, que vive uma vida de mentira e paz podre. Cady fá-lo ameaçando Sam, insinuando-se com Leigh, e seduzindo a vários níveis Danielle (numa interpretação soberba de Juliette Lewis), a impressionável e rebelde filha do casal Bowden.

Tudo isto é conseguido com um design de produção absolutamente perfeito (da mansão dos Bowden à sequência do barco quase todos os cenários conseguem ser ao mesmo tempo idílicos e ameaçadores), uma acção vertiginosa, onde mais uma vez Scorsese mostra a sua mestria na arte de filmar longas sequências em movimentos originais e envolventes, e interpretações inesquecíveis.

Se Juliette Lewis é uma adolescente exemplar com todas as suas contradições, fragilidades e tentações; se Nolte, um actor conhecido por papéis de duro, consegue ser nervoso e frágil (num papel para o qual a primeira escolha foi Harrison Ford), e se Jessica Lange consegue passar de gélida a mulher visivelmente frustrada sexualmente, o destaque vai inteirinho para Robert De Niro.

Raras vezes se viu no cinema um vilão tão perturbador. Com um olhar, uma palavra, De Niro impõe-se, compondo um personagem tão imprevisível como assustador, elevando a outros níveis o personagem originalmente composto por Robert Mitchum. Igualmente influenciado por outro filme protagonizado por Mitchum, “A Sombra do Caçador” (The Night of the Hunter, 1955), pelas tatuagens e inspiração religiosa, na sua acção, Max Cady é quase que de fora deste mundo, alguém saído de um pesadelo, com uma presença inexplicável, não se sentisse ele o tal enviado dos céus para castigar a hipocrisia dos outros.

Essa capacidade de Cady, e do filme como um todo, tornam “O Cabo do Medo”, mais ainda que um thriller sobre a culpa, um filme com muito de onírico (repare-se como tudo começa e termina com as frases ditas de modo hipnótico por Danielle, como se nos contasse um conto de terror), cujas imagens à noite, o uso de cores garridas em fundo, e imagens feéricas como a noite dos fogos de artifício, ou a tempestade no rio, nos fazem perguntar se não foi tudo um pesadelo. Esse pesadelo que atravessa o filme é, afinal, o da consciência de vivermos num mundo onde a nossa segurança não passa de uma ilusão, fruto de uma convenção de não agressão, que quando desaparece deixa tudo aquilo que é civilizado nas relações sociais ser substituído pela simples barbárie. É essa barbárie, que parece quase de outro mundo, e que a justiça, a polícia, ou a simples racionalidade não parecem poder tocar, que envia os Bowden, mais que numa viagem de fuga, para um mundo diferente, onde vale tudo para a conseguir a sobrevivência, num ultrapassar de barreiras que lembra “Cães de Palha” (Straw Dogs, 1971) de Sam Peckimpah.

Como sempre, Scorsese deu liberdade aos seus actores, o que resultou em sequências completamente improvisadas, como a cena do teatro entre De Niro e Lewis, filmada numa só take. Também as cenas de Robert De Niro and Illeana Douglas foram resultado de completa improvisação. E como curiosidade refira-se que os dois actores principais da versão de 1962, Robert Mitchum e Gregory Peck, surgem no filme de Scorsese em pequenos papéis (o primeiro como polícia, o segundo como advogado), o mesmo acontecendo com outro actor desse filme, Martin Balsam (aqui o juiz). Esta foi, aliás, a última aparição de Gregory Peck no grande ecrã.

O “Cabo do Medo” foi condenado pelos mais puristas, por uma maior cedência de Scorsese a um cinema de grande espectáculo. É, ainda assim, um thriller impressionante, cheio de vigor, apresentando soluções estéticas eficazes, e uma simbologia que funciona por diferentes camadas.

O filme, que foi um enorme sucesso de bilheteira, recebeu nomeações para Melhor Actor (De Niro) e Melhor Actriz Secundária (Lewis), tendo ainda sido nomeado para o Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival Internacional de Berlim.

Produção:

Título original: Cape Fear; Produção: Amblin Entertainment / Cappa Films / Tribeca Productions; Produtores Executivos: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg [não creditado]; País: EUA; Ano: 1991; Duração: 128 minutos; Distribuição: Universal Pictures; Estreia: 15 de Novembro de 1991 (EUA), 6 de Março de 1992 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: Barbara De Fina, Robert De Niro [não creditado]; Argumento: Wesley Strick [baseado no anterior argumento de James R. Webb, baseado no livro “The Executioners” de John D. MacDonald]; Música: Elmer Bernstein [a partir da partitura original de Bernard Herrmann]; Fotografia: Freddie Francis [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Montagem: Thelma Schoonmaker; Design de Produção: Henry Bumstead; Direcção Artística: Jack G. Taylor Jr.; Cenários: Alan Hicks; Figurinos: Rita Ryack; Caracterização: Elizabeth Lambert, Dorothy J. Pearl, Edouard F. Henriques; Efeitos Especiais: J.B. Jones; Director de Produção: Deborah Lee.

Elenco:

Robert De Niro (Max Cady), Nick Nolte (Sam Bowden), Jessica Lange (Leigh Bowden), Juliette Lewis (Danielle Bowden), Joe Don Baker (Claude Kersek), Robert Mitchum (Tenente Elgart), Gregory Peck (Lee Heller), Martin Balsam (Juiz), Illeana Douglas (Lori Davis), Fred Dalton Thompson (Tom Broadbent), Zully Montero (Graciella).