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Le DoulosMaurice Faugel (Serge Reggiani) é um ladrão que acabou de ser posto em liberdade depois de cumprir uma pena de seis anos. Procurando compensar o tempo perdido, Maurice mata Gilbert Vanovre (René Lefèvre), um receptador de jóias de um golpe anterior, para se vingar da morte de uma amiga, e roubas as jóias, dinheiro e o revólver. Para que não se pense que foi ele o autor do crime, mantém o plano de participar num assalto simples, com Remy (Philippe Nahon), que conta ao amigo Silien (Jean-Paul Belmondo). Quando a polícia descobre Maurice e Remy, matando este, Maurice desconfia que foi denunciado por Silien. Entretanto o próprio Silien segue o seu plano de engano e embuste, mostrando que ninguém nesta história está a contar toda a verdade.

Análise:

Jean-Pierre Melville era já um realizador experiente quando a Nouvelle Vague surgiu, não se podendo dizer que pertença ao grupo de jovens realizadores que a fez despoletar. É no entanto, de certo modo, beneficiário da corrente, absorvendo algumas ideias, e deixando que os seus filmes se integrassem no meio daqueles que internacionalmente eram agora procurados como parte de um movimento que começava a influenciar realizadores e cinéfilos estrangeiros.

Nem sequer se pode dizer que “O Denunciante” fosse uma completa novidade na carreira de Melville, o qual sempre teve um carinho especial pelos filmes de gangsters. É contudo, com este filme de 1962, que Melville melhor consegue uma síntese do seu universo do submundo do crime, uma certa homenagem ao Film Noir americano, e algumas ideias provindas da Nouvelle Vague.

“O Denunciante” (no original “Le Doulos”, que significa literalmente chapéu, mas na gíria: denunciante, delator ou bufo) é uma história complexa e sinuosa, com uma estrutura admirável. Nele, através de uma narrativa sólida, baseada em elipses e nos pormenores que se vão deixando em aberto, constrói-se uma história de engano, onde somos constantemente lembrados de que afinal não sabemos tanto quanto julgamos, e que cada personagem pode ter mais a dizer do que pensáramos.

Tudo começa com a caminhada de Maurice Faugel (Serge Reggiani), num longo travelling por uma região desolada dos subúrbios de uma cidade. Maurice saiu recentemente da prisão, e procura o seu amigo Gilbert Vanovre (René Lefèvre), com quem discute os últimos detalhes do seu próximo assalto. Gilbert, um receptador de jóias, que lida com o produto de um assalto recente, é também (saberemos mais tarde) o responsável pela morte de Arlette, uma amiga de Maurice, acusada de dar com a língua nos dentes. É este o primeiro sinal de delação, logo acrescentado dos rumores sobre Silien (Jean-Paul Belmondo), sobre quem Maurice põe as mãos no fogo. Maurice mata Gilbert e foge com dinheiro e jóias roubadas, que esconde antes de voltar a casa.

Em casa, a namorada Thérèse (Monique Hennessy) é a sua confidente quanto ao golpe seguinte, antes que cheguem os amigos Silien e Jean (Philippe March), ambos preocupados com o estado de Maurice. Mais uma vez paira a desconfiança. Thérèse não confia em Silien, e este condena Maurice por ter uma vez falado de mais enquanto embriagado.

Quando Maurice parte para o anunciado golpe, com o amigo Remy (Philippe Nahon), Silien telefona à polícia, e de seguida tortura Thérèse até obter o endereço do lugar do assalto. Nessa casa, a polícia chega, Remy é morto, e Maurice mata o Inspector Salignari (Daniel Crohem), sendo por ele ferido, mas salvo sem que saiba por quem. Quando Maurice acorda, está em casa de Jean, mas não consegue permanecer e sai, sendo de seguida preso por suspeitas quanto à morte de Gilbert. Durante todo o tempo Maurice desconfia que o delator é Silien.

Só que Silien tem uma agenda mais complexa. Interceptando a carta de Maurice para Jean, descobre as jóias de Gilbert, e com elas confronta os assaltantes, Nuteccio (Michel Piccoli) e Armand (Jacques De Leon), matando ambos, de modo que pareça que ambos se mataram um ao outro, deixando as jóias roubadas no cofre aberto, e convencendo a namorada de Nuteccio, Fabienne (Fabienne Dali) a denunciá-los como autores do roubo e assassinos de Gilbert, e assim inocentando Maurice.

Resta a Maurice ainda perceber quem o denunciou em primeiro lugar, que ao contrário das aparências nunca foi Silien. Pena que Maurice já tenha engendrado uma vingança sobre Silien que nem mesmo ele vai conseguir parar.

Numa história de golpes e contra-golpes, é o código de lealdade (ou traições) entre ladrões, o personagem principal, como explicitado na frase inicial “Há que escolher – mentir ou morrer”. Roubar e matar sim, denunciar, nunca, parece ser a lei, algo que nos recorda os problemas morais levantados no célebre Noir “O Denunciante” (Kiss of Death, 1947) de Henry Hathaway. No filme de Melville, os denunciantes parecem viver sob um espectro que atemoriza e condiciona a história e os seus vários golpes. Por eles (ou contra eles), temos uma sucessão de episódios fechados em que nunca se diz tudo, cujo resultado é o de nos levar sempre a pensar algo que mais tarde descobriremos estar errado.

O filme começa por acompanhar Maurice, que vemos matar Gilbert, esconder as jóias, prosseguir o assalto combinado com Remy, ser interrompido pela polícia e ferido, e finalmente levado para a esquadra. Pelo meio vemos Silien fazer uma chamada ao inspector Salignari, e depois a torturar Thérèse. Passamos então à história de Silien, que vemos recuperar as jóias escondidas por Maurice, seduzir Fabienne para o seu lado, e orquestrar a morte de Nuteccio e Armand. Temos finalmente a junção de todas as pontas quando, através do testemunho de Jean, confirmamos que a história de Silien é diferente da que supúnhamos. Só que o que Maurice esquece é que já encomendou a vingança e pode ser tarde para a parar.

Temos assim um filme de gangsters, na lealdade ou falta dela, que é um Film Noir (na amoralidade, no tratamento de sombras e contraluz, e no respeitar da iconografia – o fumo, as gabardinas, etc.), é um thriller tenso, e é sobretudo um estudo sobre a verdade e o quanto ela nos pode escapar por entre aparências e histórias incompletas.

O trabalho de Melville é impressionante, sem que um segundo seja gasto superfluamente, desde o longo travelling inicial até um plano-sequência longuíssimo (na intensa e reveladora interrogação de Maurice na esquadra), desde o tratamento da luz (aqui com toques expressionistas) à direcção de actores, onde se destaca um brilhante Jean-Paul Belmondo, frio mas intenso, e um Serge Reggiani cínico, mas sempre emocional.

Quentin Tarantino viria a referir “O Denunciante” como o seu argumento preferido e principal influência na realização de “Cães Danados” (Reservoir Dogs, 1992), enquanto o mestre do género, Martin Scorsese refere o filme de Melville como o seu filme de gangsters preferido.

Produção:

Título original: Le Doulos [Título inglês: The Finger Man]; Produção: Compagnia Cinematografica Champion / Rome Paris Films; País: França / Itália; Ano: 1962; Duração: 104 minutos; Distribuição: Pathé Contemporary Films (EUA); Estreia: 13 de Dezembro de 1962 (Itália), 8 de Fevereiro de 1963 (França).

Equipa técnica:

Realização: Jean-Pierre Melville; Produção: Carlo Ponti, Georges de Beauregard; Argumento: Jean-Pierre Melville [baseado no livro de Pierre Lesou]; Música: Paul Misraki; Direcção Musical: Jacques Métehen; Fotografia: Nicolas Hayer [preto e branco]; Montagem: Monique Bonnot; Design de Produção: Daniel Guéret; Cenários: Pierre Charron; Direcção de Produção: Georges de Beauregard; Pianista: Jacques Loussier.

Elenco:

Jean-Paul Belmondo (Silien), Serge Reggiani (Maurice Faugel), Jean Desailly (Commissário Clain), René Lefèvre (Gilbert Varnove), Marcel Cuvelier (Inspector), Philippe March [como Aimé De March] (Jean), Fabienne Dali (Fabienne), Monique Hennessy (Thérèse), Carl Studer (Kern), Christian Lude (Médico), Jacques De Leon (Armand), Jacques Léonard (Inspector), Paulette Breil (Anita), Philippe Nahon (Remy), Charles Bayard (Velho), Daniel Crohem (Inspector Salignari), Charles Bouillaud (Barman), Michel Piccoli (Nuteccio).

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