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GoodFellasHenry Hill (Ray Liotta) é um jovem italo-irlandês dos subúrbios de Nova Iorque, fascinado com a vida dos gangsters, a que ele chama «wiseguys» (espertalhões). Assim que pode, Henry escapa à escola para conviver com eles e fazer-lhes pequenos biscates, que vão levando a uma progressão na vida do crime, e a um avolumar de dinheiro. Já adulto, Henry, e os parceiros Jimmy Conway (Robert De Niro) e Tommy De Vito (Joe Pesci) vão participando em golpes mais arriscados, como o roubo do dinheiro da Lufthansa em JFK, em 1978. Vivendo num ritmo acelerado de noitadas, crimes e mulheres, Henry acaba numa passagem pela prisão que deita a perder a fortuna acumulada, e coloca em perigo o casamento com Karen (Lorraine Bracco). De novo em liberdade, Henry tenta uma escalada mais rápida, traficando droga, contra as indicações do seu chefe Paul Cicero (Paul Sorvino). Entretanto Henry assiste à paranóia de Jimmy que se desfaz de todos os cúmplices, e à morte de Tommy como moeda de troca entre padrinhos. Falta o seu fim, que Henry teme estar perto.

Análise:

Embora Martin Scorsese tivesse prometido a si mesmo não voltar a fazer filmes de gangsters, quando leu o livro “Wiseguy” de Nicholas Pileggi, mudou imediatamente de ideias. Escrito por um repórter criminal, “Wiseguy” pareceu ao realizador um retrato extremamente realista de um mundo que ele tinha visto perto de si, na Little Italy onde cresceu. Pileggi não pestanejou quando recebeu o telefonema de Scorsese, e os dois juntaram esforços na escrita do argumento, para um filme da Warner Bros., curiosamente uma produtora que crescera graças aos seus filmes de gangsters nos anos 1930.

“Tudo Bons Rapazes” tornou-se o mais caro filme de Scorsese até então, mesmo que tendo um orçamento médio pelos padrões de Hollywood, e ainda que a Warner tivesse problemas com a promoção do filme. A extrema violência e a linguagem permanentemente grosseira (com a “F word”, e suas conjugações, a ser dita 321 vezes, cerca de metade por Joe Pesci), levou a forte escrutínio, que resultou no corte de 10 fotogramas, por serem demasiado sangrentos.

A história parte de eventos reais, ligados ao estilo de vida da família Lucchese, e narrados em primeira pessoa por um dos seus homens, o italo-irlandês Henry Hill. Este, então em regime de protecção de testemunhas, terá servido de consultor, dizendo-se mesmo que muita gente que conheceu os personagens reais esteve presente nas filmagens nalgum papel de consulta, e que alguns gangsters reais tiveram papéis de figurantes.

Narrado em off por Henry Hill (Ray Liota), acompanhamos como, desde tenra idade, Henry se sentiu fascinado pela vida daqueles a quem chamava «wiseguys» (espertalhões), as pessoas do seu bairro com ligação à máfia, que surgiam com dinheiro fácil, e eram respeitados (e temidos) por toda a vizinhança, por estarem sob a protecção dos capos que controlavam esses bairros. Henry vai fazendo pequenas tarefas para o grupo liderado pelo patriarca Paulie Cicero (Paul Sorvino), e aos poucos subindo na hierarquia. Pelo caminho conhece e torna-se cúmplice de James Conway (Robert De Niro) e Tommy DeVito (Joe Pesci), o primeiro chamado “o cavalheiro”, seduzindo com charme, e sempre gorjetas generosas, o segundo um bruto disposto a resolver tudo ao tiro. Com eles Henry começa a planear golpes mais arrojados, e a viver em pleno a vida dos casinos e clubes nocturnos.

Já pleno membro da família, Henry casa com Karen (Lorraine Bracco), mas é a máfia e a sua vida nocturna de bebida, delitos e amantes, que mais o ocupa. Se por um lado ajuda Conway no golpe do aeroporto de JFK onde roubam um carregamento de 6 milhões de dólares da Lufthansa, por outro, depois de uma passagem pela prisão o ter privado de tudo, Henry envolve-se no tráfico de droga, contra a recomendação de Paulie. Será isso a trazê-lo à atenção do FBI, que por fim o captura e o convence a denunciar toda a família a troco de imunidade para si e Karen.

Sem que Scorsese o adivinhasse, “Tudo Bons Rapazes”, cujo nome original, GoodFellas, foi uma mudança do título do livro “Wiseguy”, para não se confundir com a série de televisão do mesmo nome (1987), ou a comédia de Brian DePalma, “Os Espertalhões” (Wiseguys, 1986), tornar-se-ia um dos mais fundamentais filmes de gangsters de Hollywood, e o patamar a ser ultrapassado (ou quando muito imitado) por produções futuras.

Com o seu olhar agridoce sobre as actividades ilícitas e modo de vida marginal da comunidade italo-americana de Nova Iorque, Scorsese penetra no romântico mundo da máfia, de um modo mais terra-a-terra e cru que os épicos da saga “O Padrinho” (The Godfather) de Coppola. Ao mesmo tempo. “Tudo Bons Rapazes” toca na nostalgia de outras eras, seguindo o crescimento de um personagem que era afinal contemporâneo do realizador (Henry Hill nasceu em 1943, Scorsese em 1942). O respeito por essa realidade é tal, que Scorsese a descreve de modo emocionalmente distante, e por vezes quase documental, mas sem deixar de se sentir alguma nostalgia. Em “Tudo Bons Rapazes” não há julgamentos de valores que não sejam os que o público quiser fazer, não havendo por isso qualquer tentativa de endeusar, desculpar ou recriminar os personagens, mas apenas de apresentar factos.

O resultado é um filme com uma forte dose de realismo, no que é um regresso às fórmulas da Nouvelle Vague que já haviam marcado a primeira fase da carreira de Scorsese. Por isso temos a voz off de dois personagens (Liotta e Bracco), uma história por episódios não necessariamente apresentados por ordem cronológica, uma montagem rapidíssima, planos que vão dos mais clássicos aos mais arrojados, nos quais a câmara se move dinamicamente entre os personagens, longos planos-sequência (onde o mais célebre é o travelling que leva Liotta e Bracco a entrar num clube pela cozinha), imagens paradas, cortes abruptos, e claro, um extenso uso da steadycam (câmara que é transportada pelo operador, mas de modo bastante estável). Scorsese obtém assim um filme sempre dinâmico, sempre acutilante, onde os personagens nos são descritos, não apenas pelas suas acções ou diálogos, mas também pelo modo vertiginoso com que desfilam à nossa frente. O ritmo pode, por isso, ser calmo, quase clássico, para logo de seguida ser frenético, e passar mesmo ao neurótico, como acontece no último dia de Henry Miller, no qual ele conduz sob o efeito de drogas, sentindo-se paranóico, com visões de helicópteros.

O mesmo é conseguido a nível das interpretações e diálogos. Grande parte do filme foi mesmo improvisado, em particular as cenas envolvendo o personagem de Joe Pesci, que tem uma interpretação fabulosa. A história «You think I’m funny?» é uma improvisação baseada num episódio real de Joe Pesci, tal como o jantar em casa da sua mãe (Chaterine Scorsese) e o episódio em que Spider é alvejado, são completamente improvisados. Já habituado aos procedimentos do Método, Scorsese promovia a surpresa, para provocar reacções genuínas, como é exemplo a estalada de Paulie a Henry quando este sai da prisão.

Ray Liotta foi mesmo a surpresa do filme, com a produtora a tentar impor Tom Cruise entre outros actores mais famosos (fala-se em Alec Baldwin e John Malkovich). Mas Scorsese e De Niro foram irredutíveis, sabendo que estavam perante um actor capaz de criar um Henry Miller suficientemente próximo do público para que seguíssemos o seu raciocínio, e suficientemente alienado para se comportar como um criminoso. O resultado mereceu o aplauso do verdadeiro Henry Miller, que quis conhecer Ray Liotta para o cumprimentar.

Ao lado de Liotta, Robert De Niro (um habitual parceiro de Scorsese), Joe Pesci (como o psicopata fala-barato, nervoso, e de dedo no gatilho) e Paul Sorvino (na figura do patriarca de poucas palavras, mas com olhar mortífero) criam personagens inesquecíveis e emblemáticas. Destaque também para Lorraine Bracco, como Karen, a esposa de Henry. De rapariga viva a esposa pactuante, de mulher fiel a abusada, Bracco compõe uma personagem forte e exemplo do que seria a mulher de armas, mãe de famíla tradicional de uma sociedade tão presa à tradição.

Destaque ainda para a banda sonora, feita integramente de música pop e rock contemporânea da história, a qual ajuda a definir os tempos que vão de 1955 a 1980. Estes são marcados por temas famosos de gente como The Rolling Stones, Harry Nilsson, The Who, Muddy Waters, George Harrison, Bobby Vinton, Cream, Tony Bennett, Aretha Franklin, Derek and the Dominos, Dean Martin, The Ronettes e Sid Vicious, entre outros.

“Tudo Bons Rapazes” estreou no Festival de Veneza, onde Scorsese arrecadou o Leão de Prata (prémio de Melhor Realizador). Foi ainda nomeado para seis Oscars, vencendo o de Melhor Actor Secundário (Joe Pesci), cinco Globos de Ouro, sete BAFTA (onde receberia os prémios de Melhor Filme, Realizador, Argumento, Montagem e Design de Produção), e inúmeras outras nomeações que premiaram principalmente Scorsese. Desde então o estatuto do filme não parou de crescer, sendo considerado um marco do cinema americano, e um modelo nos filmes de gangsters.

Como curiosidades extra-filme, acrescente-se que o golpe da Lufthansa de 1978 só foi inteiramente resolvido em 2014, levando à prisão os restantes envolvidos ainda vivos. Quanto a Henry Miller, fez questão de se apresentar na estreia de “Tudo Bons Rapazes” em 1990, tendo assim perdido os direitos de imunidade do seu programa de protecção de testemunhas. Miller viria a incorrer no crime, voltando a ser condenado por diversas vezes desde 1990.

O filme termina com um plano em que o personagem de Joe Pesci dispara para a audiência, numa clara homenagem ao filme pioneiro “The Great Train Robbery” (1913) de Edwin S. Porter. Segundo Scorsese, com isso se pretende dizer que, de então até cá, nada mudou, no crime ou no cinema.

Produção:

Título original: Goodfellas; Produção: Warner Bros. Pictures; Produtora Executiva: Barbara De Fina; País: EUA; Ano: 1990; Duração: 139 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: Setembro de 1990 (Festival Internacional de Veneza, Itália), 18 de Setembro de 1990 (EUA), 23 de Novembro de 1990 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: Irwin Winkler; Produtor Associado: Bruce S. Pustin; Argumento: Nicholas Pileggi, Martin Scorsese [baseado no livro “Wiseguy” de Nicholas Pileggi]; Fotografia: Michael Ballhaus [cor por Technicolor]; Montagem: Thelma Schoonmaker; Design de Produção: Kristi Zea; Direcção Artística: Maher Ahmad; Cenários: Leslie Bloom; Figurinos: Richard Bruno; Caracterização: Carl Fullerton, Allen Weisinger; Efeitos Especiais: Connie Brink.

Elenco:

Robert De Niro (James Conway), Ray Liotta (Henry Hill), Joe Pesci (Tommy DeVito), Lorraine Bracco (Karen Hill), Paul Sorvino (Paul Cicero), Frank Sivero (Frankie Carbone), Tony Darrow (Sonny Bunz), Mike Starr (Frenchy), Frank Vincent (Billy Batts), Chuck Low (Morris Kessler), Frank DiLeo (Tuddy Cicero), Henny Youngman (O Próprio), Gina Mastrogiacomo (Janice Rossi), Catherine Scorsese (Mãe de Tommy), Charles Scorsese (Vinnie), Suzanne Shepherd (Mãe de Karen), Debi Mazar (Sandy), Margo Winkler (Belle Kessler), Welker White (Lois Byrd), Jerry Vale (O Próprio), Julie Garfield (Mickey Conway), Christopher Serrone (Jovem Henry), Elaine Kagan (Mãe de Henry), Beau Starr (Pai de Henry), Kevin Corrigan (Michael Hill), Michael Imperioli (Spider), Robbie Vinton Robbie Vinton (Bobby Vinton), Johnny Williams (Johnny Roastbeef), Samuel L. Jackson (Stacks Edwards).

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