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The Barefoot ContessaA actriz de Hollywood, Maria Vargas (Ava Gardner), morreu, e no seu funeral algumas das pessoas que melhor a conheceram recordam essa mulher ímpar. É o caso do realizador Harry Dawes (Humphrey Bogart), que conjuntamente com o produtor Kirk Edwards (Warren Stevens) e o seu Relações Públicas, Oscar Muldoon (Edmond O’Brien) a descobriu num bar em Espanha, convencendo-a a tentar uma carreira no cinema. Mas a indomável Maria Vargas nunca se deu bem com a vida de Hollywood, e numa briga com o seu produtor, trocou-o por Alberto Bravano (Marius Goring), um milionário sul-americano que a leva a viajar pela Riviera francesa. Aí, cedo se farta da elite dos casinos e colide com Bravano, sendo levada pelo charmoso Conde Vincenzo Torlato-Favrini (Rossano Brazzi), com quem virá a casar. Mas a Maria não estava destinado que encontrasse a felicidade, como Dawes adivinhara, esse casamento seria o início de mais uma tragédia.

Análise:

Integralmente filmado em Itália, quer em vários cenários naturais, quer nos estúdios da Cinecittà, “A Condessa Descalça” é um dos mais ambiciosos projectos do realizador e argumentista Joseph L. Mankiewicz, um dos nomes mais sonantes da Hollywood dos anos 1950. Mankiewicz, um realizador, que antes de o ser já era argumentista, foi um dos expoentes da escrita para cinema da sua geração, um dos responsáveis pela subida de patamar que ocorreu nessa década, com a importação de muita gente (e peças e ideias) do teatro.

Foi já na sua própria companhia, Figaro, e depois do grande sucesso obtido com “Júlio César” (Julius Ceasar, 1953) para a MGM, noutra célebre ligação entre teatro e cinema, que Mankiewicz realizaria um filme que falava agora dos bastidores do cinema de Hollywood.

Mais que um documento sobre o cinema, “A Condessa Descalça” é um retrato da vida de uma actriz, que acede com relutância a viajar para Hollywood, para manter sempre uma distância entre si e o símbolo em que todos à sua volta querem que ela se torne.

Essa actriz é a espanhola Maria Vargas (Ava Gardner), com cujo funeral o filme se inicia. Um pouco à luz de “O Mundo a Seus Pés” (Citizen Kane, 1941) de Orson Welles, a protagonista encontra-se morta no início do filme, e é através dos testemunhos daqueles que a conheceram, que ela nos vai sendo revelada. Temos assim uma estrutura que passa por vários flashbacks (e até de flashbacks dentro de flashbacks), narrados em off por alguns dos personagens, sempre voltando ao lugar onde todos se encontram presentemente, o cemitério.

Tudo começa com Harry Dawes (Humphrey Bogart), o realizador dos filmes de Maria, que conta como, conjuntamente com o produtor Kirk Edwards (Warren Stevens) e o seu Relações Públicas, Oscar Muldoon (Edmond O’Brien), chegou a um clube nocturno de uma aldeola, onde Maria dançava. Dawes descreve o encontro, com Maria a desprezar a arrogância desumana de Edwards, e a hipocrisia de Muldoon, mas a deixar-se cativar pelo sonho de Dawes. Nos Estados Unidos Maria torna-se um sucesso, mas não aguenta a vida de fama de Hollywood, e muito menos o facto de Edwards se julgar dono dela. Por despeito abandona tudo para viajar com Alberto Bravano (Marius Goring), um milionário sul-americano especialista em esbanjar dinheiro para que falem dele. Mas cedo Maria se farta de Bravano, sendo salva pelo respeitoso e charmoso Conde Vincenzo Torlato-Favrini (Rossano Brazzi), com quem virá a casar.

Durante todo este tempo, apenas Dawes se parece preocupar com o que quer realmente Maria, o que faz bater o seu coração, quanto do que vive é fantasia ou real. Por ela preocupa-se com o casamento, antevendo que aquela mulher que nunca verdadeiramente se consentiu amar, pode cair num grande sofrimento se nem tudo correr bem com o seu marido. Apenas não antevê a tragédia que se aproxima.

Tendo por base a fabricação e ascensão de uma estrela de cinema, não faltariam ao filme comparações com pessoas reais. Ao que se supõe, Maria Vargas teria sido inspirada em Rita Hayworth, também ela de origem latina, e que casaria com um príncipe (Aly Khan), com elementos tirados da vida da própria Ava Gardner, a qual teve uma tumultuosa relação com o produtor Howard Hughes, que terá sido modelo para a figura de Kird Edwards.

Todo o filme é narrado em linguagem de cinema (com o narrador principal a ser o realizador Dawes), com analogias de cinema presentes nos diálogos, os quais são, aliás, riquíssimos e elegantes, como se de uma peça de teatro se tratasse. Não admira que Mankiewicz tenha sido por ele nomeado para o Oscar de Melhor Argumento.

“A Condessa Descalça” vive essencialmente da presença magnética de Ava Gardner, e da relação entre os personagens de Bogart e Gardner. Esta é uma relação de mentor-protegida, ou de pai-filha, embora com um ou outro vislumbre de atracção física, nunca concretizada. É entre estes duelos, e um percorrer de analogias da história de Cinderela, que Maria Vargas vai deixando o seu recanto espanhol, imiscuindo-se na alta nobreza da corte hollywoodiana (primeiro) e dos casinos da Riviera francesa (depois), até conhecer o seu príncipe, como se a sua vida fosse um conto de fadas, já escrito para o qual bastava apenas encontrar um elenco. Mas Maria é frágil, e só Dawes compreende isso, sendo o seu papel do da fada-madrinha, que tenta alertar a princesa para as dificuldades ainda por vir.

Com um par de actores carismáticos, e um argumento fortíssimo, resta a Mankiewicz deleitar-se (e a nós) no construir das cenas, e situações, e caracterizar dos restantes personagens, onde se destaca o enérgico Oscar Muldoon que garantiu a Edmond O’Brien o Oscar de Melhor Actor Secundário. Se a história é contada por homens (onde a essência de Maria nos parece sempre elusiva e enigmática), é o destino de uma mulher nas suas mãos, que toma o lugar central, num filme de aparência clássica, mas onde Mankiewicz inova a nível de estrutura, e na moral que nos mostra como são tantas as formas como um conto de fadas pode acabar mal.

Produção:

Título original: The Barefoot Contessa; Produção: Figaro / Transoceanic Film; País: EUA / Itália; Ano: 1954; Duração: 125 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 29 de Setembro de 1954 (EUA), 23 de Outubro de 1957 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Joseph L. Mankiewicz; Produtores Associados: Angelo Rizzoli, Robert Haggiag; Argumento: Joseph L. Mankiewicz; Música: Mario Nascimbene; Fotografia: Jack Cardiff [cor por Technicolor]; Montagem: William Hornbeck; Cenários: Arrigo Equini; Figurinos: Fontana, Rosi Gori [não creditada]; Direcção de Produção: Forrest E. Johnston.

Elenco:

Humphrey Bogart (Harry Dawes), Ava Gardner (Maria Vargas), Edmond O’Brien (Oscar Muldoon), Marius Goring (Alberto Bravano), Valentina Cortese (Eleanora Torlato-Favrini), Rossano Brazzi (Conde Vincenzo Torlato-Favrini), Elizabeth Sellars (Jerry), Warren Stevens (Kirk Edwards), Franco Interlenghi (Pedro Vargas), Mari Aldon (Myrna), Alberto Rabagliati (Proprietário), Bessie Love (Mrs. Eubanks), Diana Decker (Loura Bêbeda), Bill Fraser (J. Montague Brown), Enzo Staiola (Empregado de café), Maria Zanoli (Mãe de Maria), Renato Chiantoni (Pai de Maria).

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