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Vivre sa vieNana (Anna Karina) é uma bonita jovem parisiense, que deixa o marido e o filho, com vista a tornar-se actriz. Nana busca uma oportunidade entre aqueles que conhece, ao mesmo tempo que sente a sua vida colapsar, sem dinheiro, num emprego que quase nada lhe dá. Em doze episódios descorrelacionados, cada qual apresentado com um título que é quase uma indicação de espaço cénico e dramático, acompanha-se a descida de Nana para o mundo da prostituição e crime.

 

Análise:

Com a sua terceira longa-metragem, “Viver a Sua Vida”, Jean-Luc Godard, um dos pais da Nouvelle Vague francesa, mostrava inequivocamente qual o caminho que pretendia seguir. Esse era o de explorar a forma para lá de qualquer limite convencional, sacrificando o conteúdo narrativo sempre que necessário, com resultados que o aproximavam mais do cinema documental, que do cinema clássico de Hollywood.

A partir do livro “Où en est la prostitution” de Marcel Sacotte, Godard (que também escreveu o argumento), conta-nos a história de Nana Kleinfrankenheim (Anna Karina), uma bonita mulher de vinte e poucos anos, que decide dar novo rumo à sua vida, saindo de casa, abandonando marido e filho, por acreditar poder singrar como actriz. Nana vê-se em breve com dificuldades financeiras, pois o emprego de balconista numa loja de música não chega para lhe pagar a renda. Após uma série de tentativas falhadas para entrar em contacto com alguém do cinema, Nana resigna-se a tentar a prostituição, onde ganha mais dinheiro. Aí conhece Raoul (Sady Rebbot) que a explora como chulo, para mais tarde a trocar, num recontro violento com outros gangsters.

Dividindo o seu filme em doze quadros, temporalmente descorrelacionados, e não necessariamente mostrados na correcta sequência cronológica, Godard desafia as convenções do cinema clássico para nos contar, de modo frio, a descida de uma mulher ao mundo da prostituição.

Nana usa um corte de cabelo que lembra a Lulu de Louise Brooks em “A Boceta de Pandora” (Die Büchse der Pandora, 1929) de Georg Wilhelm Pabst, personagem que, como Nana, terminará na prostituição e morte, numa das muitas referências de Godard ao cinema e literatura. Veja-se como Nana partilha o nome com a personagem que dá título ao um célebre livro de Emile Zola, onde novamente a prostituição é contemplada, e como é vista no cinema a ver “A Paixão de Joana d’Arc” (La passion de Jeanne d’Arc, 1929) de Carl Theodor Dreyer, outra mulher cujo fim é um sacrifício anunciado.

Imagem de marca da Nouvelle Vague são, aliás, as constantes referências culturais, numa tendência dos personagens a darem-se a discussões filosóficas, como fica explicitado na citação inicial de Montaigne, ou mais tarde no quadro em que Nana encontra um filósofo e fala com ele sobre as limitações da linguagem (falada, escrita, pensada) e da verdade.

Brincando com a forma, e procurando modos provocantes de filmar, Godard inicia o seu filme com um longo diálogo no qual vemos alternadamente apenas as nucas dos dois interlocutores. Alterna depois momentos importantes da vida de Lulu com factos insignificantes e momentos contemplativos. Coloca Anna Karina (então sua esposa) a falar directamente para a câmara, ou simplesmente a dirigir-se-lhe com um olhar suplicante. Interrompe a banda sonora para uma narrativa em off. Alterna narrativa de acontecimentos sobre os personagens, com factos sociais frios, etc.

Visualmente destacam-se os habituais jump cuts (saltos na montagem, não respeitando o convencional raccord), um forte efeito de contraluz que por vezes destaca apenas um rosto num cenário negro, ou escurece completamente o rosto do personagem em foco. E claro, a abrupta interrupção das cenas, para dividir o filme em doze quadros que se apresentam com um título sobre um fundo negro.

Como habitualmente, filmando em cenários naturais, Godard mostra-nos as ruas de Paris, os cafés, os condomínios, e dedica um olhar a toda a idolatria da sociedade sua contemporânea. Esta vai desde a figura feminina, à música que toca nas jukeboxes, passando pelos inúmeros cartazes de parede, no seu habitual piscar de olhos à influência da cultura pop americana (há em todo o filme referências ao Film Noir). Por fim veja-se a referência ao cinema, do já citado “A Paixão de Joana d’Arc” aos anúncios de “Jules e Jim” (Jules et Jim, 1962) de François Truffaut, na tradição de os autores da Nouvelle Vague se referenciarem uns aos outros.

Sendo um manual de como desrespeitar o cinema de Hollywood, construindo uma narrativa muito pouco convencional, “Viver a Sua Vida” é tão intenso na sua abordagem cinematográfica, como é frio no modo como nos narra a história de Nana. Esta toca-nos ainda assim, graças à interpretação improvisada de Anna Karina, que através do seu olhar nos capta, e puxa para o drama da sua vida que, nas mãos de Godard, parece ser apenas um pequeno apontamento estatístico, num olhar cínico sobre a sociedade do seu tempo, marcada por uma ausência de valores e aumento galopante do capitalismo.

“Viver a Sua Vida” passou despercebido junto do público, tendo no entanto recolhido excelentes críticas, recebendo inclusivamente o Prémio do Júri e o Prémio da Cítica Italiana, no Festival de Veneza.

Produção:

Título original: Vivre sa vie : film en douze tableaux [Título inglês: To Live Her Life: A Film in Twelve Scenes]; Produção: Les Films de la Pléiade / Pathé Consortium Cinéma; País: França; Ano: 1962; Duração: 83 minutos; Distribuição: Panthéon Distribution; Estreia: 20 de Setembro de 1962 (França) 26 de Maio de 1972 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jean-Luc Godard; Produção: Pierre Braunberger; Argumento: Jean-Luc Godard [a partir do livro “Où en est la prostitution” de Marcel Sacotte]; Narrativa Adicional: Marcel Sacotte; Música: Michel Legrand; Fotografia: Raoul Coutard [preto e branco]; Montagem: Jean-Luc Godard, Agnès Guillemot; Figurinos: Christiane Fageol; Caracterização: Jacky Reynal; Direcção de Produção: Roger Fleytoux; Efeitos Especiais: Jean Fouchet.

Elenco:

Anna Karina (Nana Kleinfrankenheim), Sady Rebbot (Raoul), André S. Labarthe (Paul), Guylaine Schlumberger (Yvette), Gérard Hoffman (Cozinheiro), Monique Messine (Elisabeth), Paul Pavel (Jornalista), Dimitri Dineff (Dimitri), Peter Kassovitz (O Jovem), Eric Schlumberger (Luigi), Brice Parain (Filósofo), Henri Attal (Arthur), Gilles Quéant (Primeiro Cliente), Odile Geoffroy (Empregada do Café), Marcel Charton (Agente da Polícia), Jack Florency (Espectador).

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