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Le Signe du LionPierre Wesselrin (Jess Hahn) é um americano de cerca de 40 anos, que vive em Paris. Violinista desempregado, Pierre vive das ajudas dos amigos, quando recebe a notícia da morte de uma tia rica, que lhe deixará metade da fortuna. Feliz, Pierre convida os amigos a celebrar, com dinheiro emprestado por eles. Só que o testamento revela que a tia deixara tudo a um primo de Pierre, e este vê-se sem um tostão. Fugindo de hotel em hotel, sem pagar as contas, Pierre vai vivendo do dinheiro que consegue pedir a algum amigo. Chegado o Verão, com os amigos fora de Paris, Pierre vê-se a cair cada vez mais fundo, dormindo na rua, tentando roubar um pedaço de comida, até, já em delírio mental, se ver recolhido por um mendigo, que passa a vaguear as ruas de Paris pedindo ao seu lado.

Análise:

Depois de algumas curtas e médias-metragens esporádicas nos anos 1950, é em 1962, já depois do advento da Nouvelle Vague, que Éric Rohmer estreia aquela que seria a sua primeira longa-metragem. Também ele membro da equipa Cahiers du Cinema, Rohmer teve ajuda dos seus parceiros para se aventurar na nova linguagem cinematográfica, com o próprio Claude Chabrol a produzir o seu filme “O Signo do Leão”, na sua companhia AJYM, e Jean-Luc Godard a surgir num pequeno papel.

Nele, Rohmer (que também escreveu o argumento) conta a história de Pierre Wesselrin (Jess Hahn), um antigo músico americano, mal sucedido, que vive em Paris com modestos recursos. Vemos pela primeira vez Pierre, dormindo, pela manhã dentro, acordado pela chegada do carteiro que traz a notícia da morte da tia de Pierre. Sendo esta riquíssima, Pierre vê-se imediatamente multimilionário, convocando os seus amigos para celebrar pelo dia e noite dentro.

Só que a herança não chega, pois a tia deixou tudo a outro sobrinho, primo de Pierre. Este fica apenas com as dívidas que contraiu, e sem coragem para contar a verdade aos amigos que pensam que foi tudo um esquema para sacar algum dinheiro. Com a chegada do Verão, e a partida dos amigos para férias, tudo fica pior para Pierre. Sem trabalho nem dinheiro, é despejado, passando a viver em hotéis, fugindo sempre que é pressionado a pagar. Assim perde a bagagem, ficando apenas com a roupa que veste, e alguns trocos que saca a algum amigo num bar. A partir daí o declínio é rápido. Sem ter de comer, mais tarde arruinando um sapato, e tendo a sua roupa cada vez mais maltratada, Pierre vai gastar as últimas moedas, e finalmente tentar roubar comida.

Vagueando pelas ruas de Paris sem rumo, Pierre vai dormir ao relento, procurar comida no chão e lixo, e finalmente, já à beira de perder a sanidade mental, ser acolhido por outro mendigo que passa a pedir pelas ruas com Pierre ao seu lado. Tudo sem que Pierre saiba que entretanto o seu primo morreu num acidente de automóvel, deixando-o como herdeiro de toda a fortuna da tia.

Através da história da queda de um homem na grande cidade, Rohmer filma sobretudo Paris. É nas suas ruas, becos, vielas, estradas, pequenas lojas e mercados, bares e hotéis, que a câmara se move. Como habitual na Nouvelle Vague isto implica travellings improvisados, e por vezes longos planos-sequência, sempre em cenários naturais, e com poucos actores (usando verdadeiros transeuntes como figurantes inusitados). O que mais espanta em “O Signo do Leão” (cujo título refere o signo do protagonista, revelador de coragem e nobreza, tudo aquilo que Pierre Wesselrin vai mostrar não ter) é o modo como Paris nos parece inóspita e suja, com o filme de certo modo a fazer pela cidade o que Vittorio De Sica tinha feito por Roma com o seu “Ladrões de Bicicletas” (Ladri di Biciclette, 1948).

Ainda longe dos traços que seriam comuns na carreira de Éric Rohmer, em “O Signo do Leão”, com recurso a uma banda sonora, que inclui uma sonata de violino (algo raro na obra do cineasta), diálogos parcos e pouco importantes, é apenas através da acção de Pierre que a história se desenrola. Esta, como dito atrás, é uma história de uma queda anunciada, de um modo muito realista, que nos dá a ver detalhes como a primeira mancha nas últimas calças de Pierre, ou o modo como descose a sola de um sapato, num paulatino mas constante e muito prosaico declínio que o levará quase à loucura, e onde nada é verdadeiramente dramático ou importante.

Um poeta da moralidade nos seus filmes mais conhecidos, Rohmer prefere deixar os julgamentos de valor e análises pessoais de fora nesta sua estreia. Por isso não ouvimos o que Pierre pensa de si próprio ou como vai a sua consciência da própria situação evoluindo. Talvez isso torne o filme visualmente ainda mais forte. Sem essa intrusão das palavras, “O Signo do Leão” torna-se quase um documentário sobre a vida no limiar da pobreza, filmado com um distanciamento cru e por isso chocante.

Mal entendido pelo público, dado o seu tema deprimente, “O Signo do Leão” foi um fracasso comercial, fazendo com que Rohmer adiasse por mais alguns anos o seu regresso à cadeira de realizador. Ainda assim, talvez concordando que havia um excesso de carga negativa no filme, Rohmer não resiste a filmar um final feliz, num golpe de teatro que faz lembrar o final alternativo do filme de F. W. Murnau, “O Último dos Homens” (Der letzte Mann, 1924).

Produção:

Título original: Le Signe du Lion; Produção: Ajym Films; País: França; Ano: 1962; Duração: 98 minutos; Distribuição: Exploit Film; Estreia: 3 de Maio de 1962 (França).

Equipa técnica:

Realização: Éric Rohmer; Produção: Claude Chabrol; Produtor Delegado: Roland Nonin; Argumento: Éric Rohmer; Diálogos: Paul Gégauff; Música: Louis Saguer; Fotografia: Nicolas Hayer [preto e branco]; Montagem: Anne-Marie Cotret; Direcção de Produção: Jean Cotet; Violino: Gérard Jarry.

Elenco:

Jess Hahn (Pierre Wesselrin), Michèle Girardon (Dominique Laurent), Van Doude (Jean-François Santeuil), Paul Bisciglia (Willy), Gilbert Edard (Michel Caron), Christian Alers (Philippe), Paul Crauchet (Fred), Jill Olivier (Cathy), Sophie Perrault (Chris), Stéphane Audran (Gerente do Hotel), Jean Le Poulain (Mendigo).

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