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Éducation SentimentaleFrédéric (Jean-Claude Brialy) é um jovem da província, que em Paris se apaixona por Anne (Marie-José Nat), uma mulher casada com o cínico Didier (Michel Auclair). Anne consegue ao marido um emprego junto do casal Catherine (Dawn Addams) e Charles (Pierre Dudan), e descobre que Frédéric é hóspede destes. Sozinha, devido à traição do marido com Barbara (Carla Marlier), Anne vai-se deixando cativar por Frédéric. Apercebendo-se disso, a manipuladora Catherine vai tentar separá-los, juntando Frédéric e Barbara. Quando Frédéric e Barbara finalmente confessam o seu amor, Didier informa a esposa de que tem de deixar o país por problemas com a justiça, e Anne segue-o por obrigação. Catherine tenta então seduzir Frédéric, que sempre quis em segredo.

Análise:

Alexandre Astruc foi um jornalista e crítico de cinema, importante para o desenvolvimento da teoria de autor que surgia na crítica francesa, nomeadamente na década de 1950. Foi nessa década que começou a filmar, notabilizando-se pelo estilo que ficou conhecido como «caméra-stylo» (câmara-esferográfica), o qual resultava da sua ideia de que o realizador devia usar a câmara como se usa uma esferográfica. A década de 1960 encontrou Astruc a adoptar a linguagem da Nouvelle Vague, o que é nítido no seu filme “Éducation sentimentale”, uma adaptação de um romance de Gustave Flaubert, publicado em 1869.

O filme de Astruc mostra-nos a vida de um jovem, Frédéric Moreau (Jean-Claude Brialy), recém-chegado a Paris, e por isso ainda ingénuo e livre das hipocrisias da vida da grande cidade, que se deixa apaixonar por uma mulher casada, Anne Arnoux (Marie-José Nat), em quem ele adivinha bondade, fragilidade e sofrimento. Mas Anne é devota ao seu marido Didier (Didier Arnoux), mesmo que este, cínico e ambicioso, coloque a sua sede de dinheiro à frente da esposa, e não hesite em traí-la com a modelo Barbara (Carla Marlier).

Quando Anne procura ajuda para o marido junto do casal Dambreuse (Catherine – Dawn Addams, e Charles – Pierre Dudan), descobre que Frédéric é hóspede deles. Mas Catherine percebe a ligação, e congemina para os afastar, atirando Barbara para os braços de Frédéric. Os reencontros sucedem-se até que Frédéric e Anne confessam o seu amor um pelo outro. Só que então Didier anuncia ter de partir para o Canadá, por desfalques que deu em França, e pede a Anne que o acompanhe. Esta, por dever matrimonial não o pode negar. Aproveitando a fraqueza de Frédéric, Catherine tenta conquistá-lo, mas este ao ver Anne partir sofrendo por ele, resolve permanecer sozinho.

Ainda que usando uma encenação mais planeada que os seus colegas mais novos da Nouvelle Vague, a influência deste movimento é clara em “Éducation sentimentale”. Há uma preocupação fundamental com o desenvolver dos momentos interiores dos personagens, negligenciando-se por isso os cenários ou mesmo um certo realismo de acontecimentos. O argumento é desligado, com as situações a ocorrerem precipitadamente, sem fluidez. Quanto aos personagens, como típico da Nouvelle Vague, são frios, bruscos, decadentes, centrados nas suas vidas de hipocrisia e cinismo, dados a dissertações filosóficas, e completamente alheios ao mundo que os rodeia.

Destaca-se assim o personagem de Frédéric (numa convincente interpretação de Jean-Claude Brialy), o estranho numa terra estranha, e por isso ainda não completamente corrompido, que sonha e quer mais que dinheiro, como lhe é criticado por Charles. Por essa lufada de ar fresco num mundo aparentemente fechado e saturado, a vazia Barbara, a sofredora Anne e a cínica Catherine, cada uma à sua maneira, e por razões diferentes, vão sentir-se atraídas por ele.

Filmando de um modo sincopado os diversos episódios que tentam constituir uma história nunca muito coesa, Astruc mostra uma enorme dificuldade em transpor para os anos 60 do século XX, uma história de contornos políticos (passava-se durante a revolução de 1848) de um jovem sonhador de um século antes, com todas as consequências sociais e pessoais que o adultério e o amor à distância poderiam acarretar. Assim, um dos romances mais elogiados de Flaubert torna-se uma história fria, quase como um estéril exercício científico de dissecação de algumas ideias.

Produção:

Título original: Education sentimentale; Produção: Société Française de Cinématographie (SFC) / Films Jeanne Tourane / UFA-Cormacico / Produttori Associati Internazionali; País: França / Itália; Ano: 1962; Duração: 91 minutos; Distribuição: UFA-Cormacico; Estreia: 23 de Março de 1962 (República Federal Alemã), 2 de Maio de 1962 (França).

Equipa técnica:

Realização: Alexandre Astruc; Produção: Jean Tourane; Produtor Delegado: Roger Ribadeau-Dumas; Argumento: Roger Nimier, Roland Laudenbach [adaptado do livro “L’Éducation sentimentale” de Gustave Flaubert]; Música: Richard Cornu; Fotografia: Jean Badal [preto e branco, filmado em Dyaliscope]; Montagem: Geneviève Maury, Maryse Siclier; Design de Produção: Jacques Saulnier, Georges Glon; Figurinos: Lucilla Mussini; Caracterização: Michel Deruelle.

Elenco:

Jean-Claude Brialy (Frédéric Moreau), Marie-José Nat (Anne Arnoux), Dawn Addams (Catherine Dambreuse), Michel Auclair (Didier Arnoux), Carla Marlier (Barbara), Pierre Dudan (Charles Dambreuse), Nicolas Vogel.

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