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The Color of MoneyFast Eddie (Paul Newman) é um antigo jogador de bilhar, que se retirou do jogo, continuando a circular nos bares, mas como vendedor ilegal de whisky. Um dia descobre no jovem Vince Lauria (Tom Cruise) um talento natural para o bilhar, cujas potencialidades o próprio não consegue antever. Eddie propõe-se a Vince e à sua namorada, Carmen (Mary Elizabeth Mastrantonio), como tutor, levando Vince a explorar os bares de bilhar dali até Atlantic City, não para ganhar jogos, mas sim para ganhar dinheiro, usando de todos os estratagemas que for necessário. A diferença de personalidades vai acabar por os afastar, mas Eddie volta ao bilhar, 25 anos depois de o ter deixado, cumprindo ele também o circuito que o levará ao torneio de Atlantic City onde haverá a hipótese de defrontar o seu ex-pupilo.

Análise:

Tal como já tinha acontecido com “O Touro Enraivecido” (Raging Bull, 1980), foi também por iniciativa de um actor que nasceu o novo filme de Martin Scorsese. Então fora Robert De Niro, após ter lido uma biografia de Jake La Motta, agora era o já veterano Paul Newman que, após ler o livro de Walter Tevis, via em Scorsese o realizador ideal para um filme que era uma espécie de sequela do seu filme anterior “A Vida É um Jogo” (The Hustler, 1961) de Robert Rossen.

Um argumento foi encomendado ao próprio Walter Tevis, mas Scorsese viria a rejeitá-lo, pois uma sequela linear do personagem Fast Eddie era algo que não lhe interessava. Foi contratado Richard Price que, trabalhando sobre as indicações de Newman e Scorsese, criou uma história baseada num novo jogador, e na sua relação com o veterano Eddie,agora com mais 25 anos que no filme de 1961.

Para contracenar com Newman foi escolhido o jovem Tom Cruise, que chamara a atenção na comédia para adolescentes “Negócio Arriscado” (Risky Business, 1983) de Paul Brickman, e que no mesmo ano do filme de Scorsese atingiria o estrelato com o celebérrimo “Top Gun – Ases Indomáveis” (Top Gun 1986) de Tony Scott.

“A Cor do Dinheiro” trata da relação entre dois jogadores de bilhar em momentos diametralmente opostos da sua vida. Eddie Felson (Paul Newman) é um veterano há muito retirado e que não sente qualquer necessidade de voltar a jogar. Vince Lauria (Tom Cruise) é um jovem talento natural, que nem sequer tem muito interesse no jogo. O encontro entre os dois mostra a Eddie que tem em Vince o instrumento para ganhar muito dinheiro, usando de tácticas de distracção e engano, que segundo ele são mais importantes que ganhar, pois o truque é convencer o adversário de que pode ganhar, para que as apostas subam. Aquilo a que os americanos chamam «hustling».

Aconselhado pela namorada Carmen (Mary Elizabeth Mastrantonio), a mais sensata do casal, o explosivo, mas ingénuo, Vince vai-se deixando aconselhar por Eddie, mesmo se nem sempre percebe as burlas do veterano, e se quase sempre deixa a sua impulsividade tomar conta do momento, preferindo ganhar a todo o custo só por uma questão de imagem e testosterona, do que perder propositadamente para seguir um esquema rebuscado de Eddie.

A história tem um volte-face quando Eddie decide finalmente voltar às mesas, para ser enganado logo à primeira por Amos (Forest Whitaker), um jogador que se faz de inexperiente, para ir subindo a parada aos poucos, alegando sorte, e por fim limpar a carteira a Eddie. Ferido da forma como habitualmente feria, Eddie abandona tudo, para mais tarde reencontrar Vince num famoso torneio de Atlantic City. Quando os dois se defrontam, Eddie vence, para depois descobrir que a derrota de Vince foi planeada, pois seguindo os antigos ensinamentos de Eddie, ele não está interessado em ganhar torneios, mas sim dinheiro nas apostas das salas laterais. Essa constatação mostra a Eddie como foi mais uma vez derrotado no seu próprio jogo.

Por tudo isto, “A Cor do Dinheiro” é principalmente uma história do submundo do bilhar, com tudo o que tem de ilegal, tal como “O Touro Enraivecido” o fora do mundo do boxe. Apesar de uma caracterização convincente e cativante desse submundo, talvez o que mais custe a aceitar seja que Vince passe tão rapidamente de um miúdo infantil que não entende nada além do desejo quase hormonal de ganhar jogos, a um tão cínico e competente «hustler» capaz de ludibriar o próprio mestre sem pestanejar.

Se a comparação com “O Touro Enraivecido”, é mais uma vez através da acção no «ringue» (neste caso mesa de bilhar) que Scorsese dá escape aos momentos de tensão que vão sendo alimentados na relação entre os personagens. Mais uma vez os momentos de câmara (agora no acompanhamento das tacadas) são coreografados até ao limite, com todas as tacadas a serem filmadas de um modo activo, que inclui movimentos de câmara rápidos e travellings sobre a mesa que fazem quase com que certas jogadas sejam vistas do posto de vista de uma bola. A isto Scorsese alia uma montagem rapidíssima em todas as sequências de jogo, tornando-o tenso e activo.

Por outro lado “A Cor do Dinheiro” é um típico produto dos anos 1980, que o próprio Scorsese ajudava a definir. A banda sonora (novamente de Robbie Robertson) era um desfilar de alguns dos maiores nomes do rock de então (Phil Collins, Eric Clapton, Don Henley, Robert Palmer, Mark Knopfler), e toda a estética remete para essa década, desde os penteados de Tom Cruise e Mary Elizabeth Mastrantonio, até ao comportamento exuberante e fanfarrão de Vince, que replicava o personagem de Cruise no recente “Negócio Arriscado”.

Mas se as audiências mais jovens notaram a ascensão de Cruise como símbolo da sua década, é a interpretação serena de Paul Newman que fica para a história, com um Fast Eddie que se expressa sobretudo pelo que não diz e não mostra. Esta interpretação valeria a Newman o Oscar de Melhor Actor, o primeiro da sua já longa carreira, e um ano depois de lhe ter sido dado um de homenagem, quando a Academia de repente reparou que ele nunca tinha sido premiado. Newman recusou dizendo que ainda tinha muito para dar. Fosse ou não por essa bofetada de luva branca, no ano seguinte venceria a estatueta.

Perfeitamente integrado nos tiques e modas de uma nova geração “A Cor do Dinheiro” foi um enorme sucesso de bilheteira, ao mesmo tempo que garantia a Scorsese novos elogios da crítica, num filme que, como o próprio narra em off nos segundos iniciais, trata da arte da sorte.

Produção:

Título original: The Color of Money; Produção: Touchstone Pictures / Silver Screen Partners II; País: EUA; Ano: 1976; Duração: 119 minutos; Distribuição: Buena Vista Pictures; Estreia: 8 de Outubro de 1986 (EUA), 20 de Fevereiro de 1987 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: Irving Axelrad, Barbara De Fina; Produtor Associado: Dodie Foster; Argumento: Richard Price [baseado no livro de Walter Tevis]; Música: Robbie Robertson; Orquestração: Gil Evans; Fotografia: Michael Ballhaus; Montagem: Thelma Schoonmaker; Design de Produção: Boris Leven; Cenários: Karen O’Hara; Figurinos: Richard Bruno; Caracterização: Monty Westmore; Directores de Produção: Dodie Foster, Daniel J. Heffner; Efeitos Especiais: Curtiss Smith.

Elenco:

Paul Newman (Fast Eddie Felson), Tom Cruise (Vincent Lauria), Mary Elizabeth Mastrantonio (Carmen), Helen Shaver (Janelle), John Turturro (Julian), Bill Cobbs (Orvis), Forest Whitaker (Amos), Bruce A. Young (Moselle), Elizabeth Bracco (Diane no Bar), Paul Geier (Jogador na Rotina Dois Irmão e Um Estranho), Joe Guastaferro (Chuck, o Barman), Keith McCready (Grady Seasons), Jerry Piller (Tom), Alex Ross (Barman que Aposta), Robert Agins (Earl no Chalkie’s), Alvin Anastasia (Kennedy).

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