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Singin' in the RainEm Hollywood, em 1927, Don Lockwood (Gene Kelly) e Lina Lamont (Jean Hagen) são super-estrelas de cinema, amados pelos fãs que lêem nas revistas cor-de-rosa histórias falsas do romance entre os dois. Com a passagem para o cinema sonoro o estúdio Monumental Pictures entra em pânico, pois Lina não sabe representar nem sequer falar. Don e o seu amigo e compositor do estúdio, Cosmo Brown (Donald O’Connor) convencem o produtor R.F. Simpson (Millard Mitchell) a tornar o próximo filme um musical, com a voz de Lina dobrada pela jovem Kathy Selden (Debbie Reynolds), interesse amoroso de Don. Só que ao descobrir, Lina, ciumenta e ferida vai tentar aprisionar Kathy a esse papel, para lhe arruinar a carreira e salvar a sua.

Análise:

Em 1952, a MGM, a mais clássica (e de orientação familiar) das grandes produtoras de Hollywood, criava aquele que é para muitos o melhor musical do cinema. Já com uma grande reputação no campo do musical clássico, a tarefa de criar mais um filme de sucesso foi entregue ao produtor Arthur Freed, que juntou a si um par de realizadores, que já haviam colaborado no bem sucedido “Um Dia em Nova Iorque” (On the Town, 1949): Stanley Donen e Gene Kelly.

Ambos homens do teatro musical, Donen e Kelly pensavam um filme como um extenso bailado, onde as sequências tivessem sempre uma mão cómica, provinda da sua inspiração do vaudeville e burlesco. Não estranha por isso que o argumento do filme tenha surgido apenas após a escolha das canções, como uma história que as ligasse.

De facto, apenas “Make ‘em Laugh” e “Moses Supposes” são canções originais, e ainda assim com a primeira quase a plagiar “Be a Clown” de Cole Porter, presente no anterior filme de Kelly, “O Pirata dos Meus Sonhos” (The Pirate, 1948) de Vincent Minnelli. O próprio tema título, hoje completamente associado ao filme, fora já usado em cinco filmes anteriores. Tratava-se acima de tudo de uma homenagem ao teatro de revista norte-americano, desde as suas vertentes mais mundanas (vaudeville, burlesco) até aos casinos e teatros da Broadway (como exemplificado na referência às Ziegfeld Folies).

E afinal, com tanto de musical, “Serenata à Chuva” é um filme sobre cinema, mais concretamente sobre a transição do cinema mudo para o sonoro, com todos os traumas técnicos e humanos associados a tão rápida e revolucionária mudança.

O filme conta-nos humoristicamente a história de Don Lockwood (Gene Kelly) e Lina Lamont (Jean Hagen), um par amado de Hollywood, vivendo sucesso após sucesso, em filmes oco, pomposos e todos iguais. As revistas cor-de-rosa mostram-nos como um par romântico, algo que o marketing da produtora aprova. E mesmo que Don não suporte Lina, esta acaba por acreditar que os dois são noivos, pois é o que dizem as revistas.

Quando Don conhece a pretendente a actriz, Kathy Selden (Debbie Reynolds), que não conhece os seus filmes, fica abalado por esta realidade. Tudo se complica perante o sucesso do cinema sonoro, e a necessidade de mudar tudo no estúdio dirigido pelo produtor R.F. Simpson (Millard Mitchell). Só que passar os filmes de Lockwood e Lamont ao sonoro traz um problema. Lina tem uma voz impossível. Sob sugestão do compositor e amigo de Don, Cosmo Brown (Donald O’Connor), Kathy é trazida para dobrar a voz de Lina, correndo o risco de ficar presa a esse papel, quando a ciumenta Lina descobre que Don e Kathy estão apaixonados.

Com um humor que bebe principalmente do problema da juventude do cinema sonoro, “Serenata à Chuva” é quase um documento sobre o tanto que o mundo do cinema sofreu nessa altura. Vemos as aulas de dicção, o perigo dos maus diálogos que apenas resultavam em intertítulos nos filmes mudos, e claro a necessidade de dobrar vozes que não se adequavam à imagem que o público tinha de um actor ou actriz.

É sabido como a passagem ao sonoro acabou com muitas carreiras, sendo um dos casos mais famosos o de Clara Bow, outro o de John Gilbert, parceiro de Greta Garbo em tantos sucessos do mudo, e que segundo consta teve a carreira sabotada à custa de maus diálogos e problemas de sincronização, propositados por alguém, tal como os exemplificados em “Serenata à Chuva”.

Vemos depois o que era filmar quando a necessidade de captar o som exigia colocar microfones nos locais certos, fazer os actores representar em função desses locais, espalhar cabos pelo set, e evitar qualquer ruído extra. Se esses resultados são penosamente perceptíveis nalguns filmes do início dos anos 1930, eles são a principal fonte de humor em “Serenata à Chuva”, um filme onde a boa disposição é permanente, desde a soberba interpretação de Jean Hagen na irritante Lina Lamont (num papel pensado para Judy Holliday) ao virtuosismo de Donald O’Connor, passando claro pelos inúmeros trocadilhos e toques de burlesco (note-se por exemplo o momento em que Gene Kelly fica com o fato desfeito na porta do carro após dizer algo como “vou-me desfazer daqui para fora”.)

Mas, sendo um musical, é pelas sequências de canto e dança que o filme é mais memorável. Pensadas e coreografadas por Donen e Kelly, estas ficam nos anais do cinema, seja por canções como “Singin’ in the Rain”, “Make ‘em Laugh” e “Good Morning”, seja pelas sequências de dança que as acompanham. Na boa tradição de Gene Kelly, não se tratava apenas de dançar elegantemente, mas sim de criar algo único, e cheio de humor com cada situação e cenário. Se o número “Singin’ in the Rain” nos alegra pela própria situação de alguém que se recria alegremente num dilúvio (o exemplo da felicidade no momento da descoberta da paixão), “Make ‘em Laugh” é o burlesco de Donald O’Connor levado a um extremo hilariante e um dos mais incrivelmente acrobáticos números dançados de sempre, e “Good Morning” uma coreografia a três, cheia de boa disposição, sincronia e divertido aproveitamento do cenário, como antes fora o dueto Kelly-O’Connor na vertiginosa e surreal “Moses Supposes”.

Perfeccionista e exigente, consta que Kelly terá chegado a levar Debbie Reynolds às lágrimas. De notar que a actriz era estreante, não tinha treino de dança e contava então 19 anos, fazendo horas de caminho em transportes públicos para estar no estúdio a horas todos os dias, num papel para o qual foram consideradas Judy Garland, Kathryn Grayson, Jane Powell, Leslie Caron e June Allyson. Também Donald O’Connor corroborou desse carácter tirânico de Gene Kelly, confessando o pânico de falhar e ser repreendido por ele. Em “Good Morning” terá sido Kelly a dobrar o som do sapateado de Reynolds, depois de ela ter tido que receber tratamento por ferimentos nos pés. Do mesmo mal (internamento por exaustão e ferimentos vários) sofreu Donald O’Connor, depois de ser obrigado a filmar “Make ‘em Laugh” duas vezes, já que a versão original ficou mal filmada. Já Kelly filmou parte do seu número “Singin’ in the Rain” em estado febril, e teve parte do seu sapateado dobrado por Carol Haney e Gwen Verdon.

Ainda “Singin’ in the Rain”, a peça central do filme, é também paradigma do modo de pensar de Gene Kelly. Mais do que dançar de modo tecnicamente perfeito, Kelly imaginava as coreografias a partir do cenário, dos props, e das circunstâncias do argumento. Por isso o vemos feliz por estar à chuva, e o vemos dançar com um guarda-chuva, pendurar-se num poste, saltar nas poças de água, e caminhar com um pé acima outro abaixo do passeio, ou ainda fazer humor com o facto de estar a ser observado por um polícia. Nenhum momento da sequência é vão, todos fazem uso de qualquer aspecto humorístico do cenário, e todos se traduzem numa enorme musicalidade.

Mas a mais elaborada sequência musical é a quase extra-história “Broadway Melody”. Esta, num musical moderno, que parece remeter para “Um Americano em Paris”, é arrojada e traz-nos uma sequência inesquecível entre Gene Kelly a Cyd Charisse. O seu carácter onírico e abstracto é impressionante e ao mesmo tempo eficaz, como se tivéssemos entrado noutro filme, ou num sonho dentro do filme. Charisse era ainda uma desconhecida e, pelo seu desempenho, tecnicamente de tirar o fôlego, carregado de tensão sexual e dramatismo, viria a merecer a atenção da MGM que logo lhe daria papéis de destaque.

Em “Broadway Melody” e um pouco por todo o filme, Donen e Kelly mostram mais que nunca como são homens do musical, e que entendem o cinema como uma coreografia. O modo como filmam é sempre dinâmico, como se a câmara fosse um dos bailarinos, e a sua posição inspirasse os movimentos dos outros, tanto quanto é inspirada por eles. A câmara move-se livremente em longos travellings que valorizam cada movimento, e acima de tudo a alegria de viver (e dançar) que transparece em cada passo de Kelly, ao mesmo tempo que não se descura uma montagem que faz uso de imensos planos em cada cena dançada.

Estranhamente “Serenata à Chuva” foi, aquando da sua estreia, um sucesso muito moderado, sendo mesmo retirado de cartaz prematuramente para não colidir com uma reposição de “Um Americano em Paris”. O filme foi nomeado para dois Oscars, Melhor Actriz Secundária (Jean Hagen) e Melhor Banda Sonora, não ganhando nenhum. Já Donald O’Connor receberia o Globo de Ouro de Melhor Actor Secundário. Com o passar do tempo, “Serenata à Chuva” foi-se tornando cada vez mais popular, surgindo frequentemente nas listas dos melhores filmes de sempre, constando quase sempre como melhor musical de sempre.

Por curiosidade acrescentem-se duas coisas. A primeira é que é mesmo Jean Hagen que ouvimos quando Kathy Selden (Debbie Reynolds) está supostamente a dobrar a voz de Lina Lamont no filme. Já na canção “Would You” a voz não é nem de Hagen, nem de Reynolds, mas sim de Betty Noyes, que assim fazia na realidade o que a personagem de Reynolds fazia no filme. A segunda é que nas cenas iniciais em que nos é mostrado o filme “The Royal Rascal” da dupla Lockwood-Lamond, o que vemos é na verdade “Os Três Mosqueteiros” (The Three Musketeers, 1948) de George Sydney, aqui a preto e branco, e com Jean Hagen colocada onde no original está Lana Turner.

Produção:

Título original: Singin’ in the Rain; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1952; Duração: 102 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 27 de Março de 1952 (EUA), 18 de Dezembro de 1952 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Gene Kelly, Stanley Donen; Produção: Arthur Freed; Produtor Associado: Roger Edens [não creditado]; Argumento: Adolph Green, Betty Comden; Música: Lennie Hayton [não creditado]; Canções: Arthur Freed (letras), Nacio Herb Brown (músicas); Fotografia: Harold Rosson [preto e branco e cor, por Technicolor]; Montagem: Adrienne Fazan; Direcção Artística: Cedric Gibbons, Randall Duell; Cenários: Edwin B. Willis, Jacques Mapes, Harry McAfee [não creditado]; Figurinos: Walter Plunkett; Caracterização: William Tuttle; Directores de Produção: Charles J. Hunt [não creditado], William C. Strohm [não creditado]; Efeitos Visuais: Warren Newcombe, Irving G. Ries; Direcção Musical: Lennie Hayton, Johnny Green [não creditado]; Orquestração: Conrad Salinger, Wally Heglin, Skip Martin; Arranjos Vocais: Jeff Alexander; Coreografia: Stanley Donen, Gene Kelly.

Elenco:

Gene Kelly (Don Lockwood), Donald O’Connor (Cosmo Brown), Debbie Reynolds (Kathy Selden), Jean Hagen (Lina Lamont), Millard Mitchell (R.F. Simpson), Cyd Charisse (Bailarina), Douglas Fowley (Roscoe Dexter), Rita Moreno (Zelda Zanders), Madge Blake (Dora Bailey) [não creditada], Robert Fortier (Gangster no Bailado «Broadway Melody») [não creditado], Kathleen Freeman (Phoebe Dinsmore, Professora de Dicção) [não creditada], Jack George (Maestro) [não creditado], Judy Landon (Olga Mara) [não creditada], Julius Tannen (Homem no filme de demonstração do cinema sonoro) [não creditado], Bobby Watson (Professor de Dicção) [não creditado], Adam York (Agente Publicitário) [não creditado].

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