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The King of ComedyRupert Pupkin (Robert De Niro) é um aspirante a comediante, obcecado com a figura de Jerry Langford (Jerry Lewis), um dos mais bem famosos comediantes do seu tempo. Mas ao invés de tentar construir uma carreira, Pupkin vive num mundo de ilusão, no qual se vê tornar-se famoso da noite para o dia. Para tal basta-lhe captar a atenção de Langford, o que ele faz, passando a persegui-lo, mesmo quando Langford e o seu staff deixam claro que não o querem por perto. Com a ajuda da também iludida Masha (Sandra Bernhard), uma groupie de Langford que o quer convencer de têm uma ligação emocional, Rupert vai aos limites do bom senso para conseguir os seus quinze minutos de fama, e assim impressionar Rita (Diahnne Abbott), a rapariga que Rupert decidiu que se deveria apaixonar por ele.

Análise:

Com “O Rei da Comédia”, Martin Scorsese trabalhava pela quinta vez com o actor Robert De Niro, sedimentando uma das relações mais proveitosas do cinema com aquela que Scorsese chamou a melhor interpretação de De Niro sob sua direcção. Curiosamente, o filme, e o seu lado mais amargo foi, para Scorsese, a razão pela qual ele e De Niro não voltaram a trabalhar juntos nos sete anos seguintes. Por mais de uma vez Scorsese diria que talvez tenha sido um erro filmar “O Rei da Comédia”.

Com base num argumento de Paul D. Zimermann, escrito já há mais de uma década, e comprado por De Niro, Scorsese (que preferia antes realizar The Last Temptation of Christ) olha para o mundo da televisão, dos talk shows, das celebridades e daqueles que as seguem até à insanidade. A história mostra-nos Rupert Pupkin (Robert De Niro), um pretendente a comediante, que vive na ilusão de ser famoso, e poder estar lado a lado com as celebridades, desde que tenha uma oportunidade. Na cave do apartamento da sua mãe (interpretada pela mãe de Scorsese) imagina talk shows e rotinas de stand up comedy, que vive como se fossem reais. Essa contínua ilusão vai fazê-lo interpretar positivamente todas as rejeições, perseguindo o seu ídolo, Jerry Langford (Jerry Lewis), por acreditar que este não poderá negar-lhe uma oportunidade mal conheça o seu trabalho.

Obviamente, Langford e o seu staff não têm o mínimo interesse em Pupkin, recusando chamadas, fingindo não estar presentes, ou sujeitando-o a esperas infrutíferas. Mas em cada rejeição acredita estar apenas a segundos da oportunidade desejada. Pelo meio Pupkin imagina que Langford o convidou para a sua casa de campo, e surge sem convite com a sua namorada, Rita (Diahnne Abbott, na altura a esposa de De Niro), que ele quer impressionar, pois na verdade, tal como tudo na sua vida, Rita não é sua namorada, mas ele acha que sim.

Só quando as rejeições se tornam quase violentas, Pupkin aceita a realidade, muito por culpa de Masha (Sandra Bernhard), também ela iludida com a figura de Langford, que persegue, por uma paixão doentia. A união das duas desilusões leva ao acto final, com o rapto de Langford, e a chantagem para que Pupkin surja no seu talk show por 15 minutos.

Com uma interpretação soberba de De Niro, no papel do betinho (o seu aspecto e vestuário terão sido inspirados em Andy Kaufman) cujos problemas em ligar-se à realidade o tornam um eterno optimista incapaz de entender uma negativa, “O Rei da Comédia” espanta ainda pelo papel de Jerry Lewis.

Ele próprio um verdadeiro rei da comédia no seu tempo, Lewis tem um papel que vai contra tudo aquilo que se espera da sua persona artística. Amargo, arrogante, antipático, Jerry Lewis compõe um Jerry Langford (repare-se como as iniciais são as mesmas) paradigma do actor que veste uma pele em público que nada tem a ver consigo, sendo em privado alguém que despreza tudo e todos à sua volta, não colocando um pingo de humor na sua vida.

A interpretação de Lewis foi muito elogiada, levando o próprio a dizer que não estava a interpretar, mas sim a mostrar-se como realmente é. De facto Lewis inspirou-se em si próprio, tendo, segundo Scorsese, dirigido ele mesmo algumas sequências, como as suas caminhadas na rua, em que os transeuntes o interpelavam, reconhecendo-o genuinamente sem saber que se rodava um filme (a escolha do mesmo nome próprio para personagem permitia que os genuínos gritos por Jerry fossem utilizados no filme). A cena com a senhora ao telefone que lhe pede que fale ao filho com cancro para logo a seguir lhe desejar que morra de cancro terá mesmo sido inspirada num caso real.

Já a ligação de Lewis com De Niro e Bernhard não terá sido smpre fácil. Sendo Robert De Niro um actor do Método, usava estratagemas como insultar Lewis para obter as reacções esperadas, o que não agradou a Jerry. Por essa mesma razão, muitas das cenas entre eles (como a da casa de campo, e a do rapto) são completamente improvisadas, o mesmo valendo para o personagem de Bernhard, que tinha pouca experiência como actriz e ia improvisando.

Com um filme que é ao mesmo tempo divertido e amargo, Scorsese abandonou um pouco a sua forma mais conhecida de filmar. Em “O Rei da Comédia” filma-se sobretudo em interiores, com planos mais cuidados e convencionais, numa estética e design que é já dos anos 80, e tenta captar aquela que provém da televisão. Por essa razão todas as cenas de televisão foram filmadas em vídeo, para dar o aspecto característico da televisão de então.

Esse desvio no cinema de Scorsese valeu-lhe muitas críticas entre os seus admiradores, e o filme ficou comercialmente muito abaixo do esperado. Outra crítica habitual ao filme é o seu final em aberto, que nem sempre é entendido. De facto, dada a constante confusão entre realidade e fantasia que nos é dada a ver pelos olhos de Pupkin, há que considerar que a linha entre as duas tenha sido ultrapassada em qualquer ponto do filme sem nos apercebermos, e muito do que vemos no acto final seja apenas mais uma fantasia de Pupkin.

“O Rei da Comédia” foi estreado oficialmente no Festival de Cannes. Uma versão digitalmente remasterizada surgiu em 2013. Nota ainda para a banda sonora, da autoria de Robbie Robertson, da banda The Band, para quem Scorsese realizara o documentário “A Última Valsa” (The Last Waltz, 1978).

Destaque final para a presença de celebridades, quer em carne e osso (caso de Tony Randall, Ed Herlihy e Lou Brown), quer apenas nomeadas (como Woody Allen ou Liza Minnelli, que já antes contracenara com De Niro, e que chegou mesmo a filmar algumas cenas nunca usadas neste filme). Curiosidade é o facto de três elementos da banda The Clash surgirem como figurantes numa cena.

Produção:

Título original: The King of Comedy; Produção: Embassy International Pictures / Twentieth Century Fox Film Corporation; Produtor Executivo: Robert Greenhut; País: EUA; Ano: 1982; Duração: 108 minutos; Distribuição: Twentieth Century Fox Film Corporation; Estreia: 18 de Dezembro de 1982 (Islândia), 7 de Maio de 1983 (Festival de Canne, França), 28 de Julho de 1983 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: Arnon Milchan; Produtor Associado: Robert F. Colesberry; Argumento: Paul D. Zimmerman; Música: Robbie Robertson; Fotografia: Fred Schuler [cor por Technicolor]; Montagem: Thelma Schoonmaker; Design de Produção: Boris Leven; Direcção Artística: Edward Pisoni, Lawrence Miller; Cenários: George DeTitta Sr., Daniel Robert; Figurinos: Richard Bruno; Caracterização: Philip Goldblat; Director de Produção: Robert F. Colesberry.

Elenco:

Robert De Niro (Rupert Pupkin), Jerry Lewis (Jerry Langford), Diahnne Abbott (Rita), Sandra Bernhard (Masha), Tony Randall (O Próprio), Shelley Hack (Cathy Long), Frederick De Cordova (Bert Thomas), Joyce Brothers (A Própria), Ed Herlihy (O Próprio), Lou Brown (O Próprio), Victor Borge (O Próprio), Richard Baratz (Caricaturista), Catherine Scorsese (Mãe de Rupert), Leslie Levinson (Roberta Posner), Margo Winkler (Receptionista), Cathy Scorsese (Dolores), Thelma Lee (Mulher na Cabine Telefónica), George Kapp (Convidado Mistério), Rob-Jamere Wess (Segurança), Kim Chan (Jonno), Richard Dioguardi (Capitão Burke), Jay Julien (Advogado de Langford), Bill Minkin (Clarence McCabe), Diane Rachell (Mulher de McCabe), Jimmy Raitt (Director de Estúdio), Martin Scorsese (Realizador de TV).

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