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Taxi DriverTravis Bickle (Robert De Niro) é um veterano da Guerra no Vietname, que se sente deslocado no regresso a Nova Iorque. Trabalhando como taxista, Bickle quer afundar-se no trabalho, conduzindo tantas horas quantas o seu corpo permita, sobretudo nos horários e locais que os outros taxistas evitam. Trabalha por isso longas horas, e à noite, vendo de trás do volante a vida nocturna da cidade, com tudo o que esta tem de mais podre. Enojado com o que vê, Bickle não se consegue relacionar com os colegas ou ninguém, o que é realçado pela desajeitada forma como tenta cortejar Betsy (Cybill Shepherd), uma voluntária na campanha do candidato presidencial Charles Palantine (Leonard Harris). Levado ao extremo da sua psicose e asco pela cidade, Bickle toma a justiça em mãos, na tentativa de salvar a jovem prostituta Iris (Jodie Foster) do seu chulo Sport (Harvey Keitel), no que se tornará um evento tragicamente sangrento.

Análise:

Em 1976 chegava aquela que seria a quinta longa-metragem de Martin Scorsese. “Taxi Driver” era a prova de que finalmente todas as peças encaixavam no lugar certo. Voltando a filmar Nova Iorque, o seu submundo nocturno, de pequeno crime e personagens instáveis e desajustadas, Scorsese contava agora com a colaboração do argumentista Paul Schrader, que construiu uma história com algo de autobiográfico, escrita em apenas cinco dias.

Ele próprio um produto da sua época, e um dos movie brats (grupo que incluía Scorsese, Coppola, De Palma, Spielberg, Lucas, entre outros), Schrader escreveria quatro argumentos para Scorsese, bem como alguns para outros dos realizadores desta geração, antes de ele próprio começar a dirigir filmes.

Paul Schrader assumiria o carácter autobiográfico da história, ele próprio tendo passado por esgotamentos nervosos, em virtude da sua solidão numa grande cidade, dificuldades de relacionamento em geral, e uma desilusão amorosa. Nesse período o argumentista deu-se a várias obsessões, como Travis Bickle: filmes pornográficos e armas, conduzindo sem rumo pela cidade. Isso foi algo a que Schrader chamou a patologia do isolamento, que faz algumas pessoas caírem em espiral nessa solidão que acaba por ser o maior dos seus males.

A história mostra-nos, através do personagem de Travis Bickle (Robert De Niro), a solidão de alguém desajustado da sua realidade, e por isso deixando que esta se insinue como uma inimiga. Para Bickle (como podemos comprovar nas suas narrações em off), a cidade é um antro de pecado, sofrimento, corrupção, dos quais ele se tenta manter afastado. Bickle observa esse mundo sem o compreender, e enfrenta-o conflituosamente. Está-se assim em território Noir, com um anti-herói de alma negra, moralidade própria, que não encaixa no mundo à sua volta. Bickle despreza os colegas, despreza os clientes, despreza as pessoas que vê na noite, sejam prostitutas, chulos, clientes daquelas, ou simples transeuntes em busca de qualquer gratificação. Para ele tudo é sinal de podridão, e tudo necessita de uma grande limpeza, quase de contornos bíblicos (novamente as alusões cristãs a que Scorsese nunca foge).

Por vezes Bickle tenta a ligação ao mundo real, como é expresso no seu interesse por Betsy (Cybill Shepherd), a qual não podia ter ocupação mais desligada do mundo psicótico de Bickle, ao dedicar-se a uma campanha política. A completa inépcia de Bickle para fazer avançar o relacionamento coloca-o numa rota ainda mais violenta, quando resolve ser ele a trazer a limpeza às ruas de Nova Iorque, no episódio final que passa por “salvar” uma prostituta de doze anos (Jodie Foster) do seu chulo (Harvey Keitel), numa cena que marcaria a história do cinema pela sua extrema violência e imagens icónicas.

O filme não começou como um projecto de Scorsese, mas sim da Columbia Pictures, na pessoa dos produtores Julia Phillips e Michael Phillips. A sua primeira escolha foi Brian De Palma, que começou a trabalhar no filme, tendo inclusivamente escolhido alguns actores. Quando o projecto não parecia satisfazer ninguém, De Palma concordou em sair, e Tony Bill, actor e parte da equipa de produção do casal Phillips, candidatou-se ao lugar, mas quando os Phillips viram “Os Cavaleiros do Asfalto” (Mean Streets, 1973) convidaram Martin Scorsese, o qual trouxe consigo Robert De Niro para o papel principal.

Tendo já provado ser um especialista a filmar a psicose da noite nova-iorquina e do desajustamento masculino, Scorsese imprimiu a “Taxi Driver” o seu cunho pessoal. Este é feito de longos planos-sequência, ângulos desconfortáveis de aproximação ao protagonista, uma montagem por vezes rápida e saltitante, e a lenta contemplação da noite (o filme tem um permanente carácter onírico), filmada de modo frio, sob as luzes dos néons e a música hipnótica e perturbante de Bernard Herrmann (o compositor de algumas das célebres bandas sonoras de filmes de Hitchcock, e que morreria logo após completar este trabalho), que aqui abdicou das suas orquestras e deu protagonismo aos metais do jazz. Mantinha-se o extremo sentido de realismo cru, e a câmara dinâmica, como um personagem de pleno direito, escolhendo para onde devemos dirigir (ou mesmo quando esconder) o nosso olhar.

Sobre esta psicose visual fria e caótica, move-se o personagem de Travis Bickle, paradigma da instabilidade, e da violência à flor da pele, na sua caracterização de um veterano do Vietname, que nunca mais vai encontrar paz no seu país de origem. Santo e pecador, Bickle procura a redenção pelo sangue, num sacrifício quase religioso a que vota a sua vida.

Pela sua abordagem surpreendente, e tema acutilante, “Taxi Driver” incluía-se na nova vaga de filmes de Hollywood, ácidos, perturbadores e contra a corrente tradicional do cinema clássico. O filme seria, contudo, marcado pela violenta e sangrenta sequência final, na qual o personagem de Bickle (já de cabelo rapado e crista – alusão a prática de tropas no Vietname antes de algumas batalhas) toma a justiça nas suas mãos. O modo como Scorsese filma, ao mesmo tempo cru e dramático, chocando-nos pelo uso do tempo tanto quanto pela violência gráfica e desconcertante uso da cor (na crucial fotografia de Michael Chapman), trar-lhe-ia problemas com a censura. Algumas lendas associadas ao filme contam que Scorsese contemplou a ideia de matar alguém na MPAA, sendo visto a beber e a brincar com uma arma. Outras versões dizem que terá mesmo contemplado o suicídio.

Emblemática é também a famosa cena de De Niro ao espelho, “You talkin’ to me?”. Esta terá sido uma improvisação de De Niro, não presente no argumento. Scorsese afirmou tratar-se de uma inspiração de Marlon Brando em “Reflexos num Olho Dourado” (Reflections in a Golden Eye, 1967), mas o próprio De Niro terá dito ter sido inspirado por Bruce Springsteen num concerto da altura. Já Stella Adler, antiga professora de interpretação de De Niro, explicou que essa frase era usada nos seus exercícios, em que pedia aos seus estudantes que a dissessem em diferentes contextos. Seja como for, tornou-se uma das linhas mais sonantes do cinema americano.

Embora Al Pacino tivesse sido contactado por Tony Bill, e Dustin Hoffman por Scorsese, num papel que Schrader escreveu a pensar em Jeff Bridges, é hoje impossível imaginar Travis Bickle sem pensar em Robert De Niro. Então ainda um actor pouco conhecido, De Niro assinou contrato antes de ganhar o Oscar de Melhor Actor Secundário em “O Padrinho, Parte II” (The Godfather, Part II, 1974), mas o prémio não o levou a renegociar o contrato. Célebre seria a sua dedicação de, com o seu período de condução de um táxi verdadeiro em Nova Iorque, o seu estudo de doenças mentais, e a prática de dialectos do Midwest, para procurar a sua voz no filme.

No polémico papel de Iris, a prostituta de doze anos, a primeira escolha (ainda no período de Brian De Palma) foi Melanie Griffith, a qual chegou a trabalhar no filme, mas foi despedida. Scorsese tentou primeiro Linda Blair, então famosa por “O Exorcista” (The Exorcist, 1973) de William Friedkin, mas acabou por optar por Jodie Foster, que já conhecia do seu filme anterior “Alice Já Não Mora Aqui” (Alice Doesn’t Live Here Anymore, 1974). É célebre a longa lista de jovens actrizes consideradas para o papel (mais de duzentas), algumas tendo participado no casting. Essa lista inclui nomes como Carrie Fisher, Mariel Hemingway, Jennifer Jason Leigh, Heather Locklear, Bo Derek, Kim Cattrall, Rosanna Arquette, Kristy McNichol e Michelle Pfeiffer. Por outro lado Isabelle Adjani e Ornella Muti terão rejeitado o papel. Jodie Foster, então realmente com doze anos, tinha de se fazer sempre acompanhar de um progenitor, e teve o seu corpo dobrado pela irmã de dezanove, Connie, nas cenas mais explícitas.

Ainda quanto ao elenco, Harvey Keitel, que trabalhara em três dos primeiros quatro filmes de Scorsese, escolheu o papel de Sport, o chulo, mesmo quando lhe tinha sido oferecido o mais presente papel do director de campanha, que iria para Albert Brooks. Finalmente, no principal papel feminino, estaria Cybill Shepherd, depois de os nomes de Jane Seymour, Glenn Close, Susan Sarandon, Sigourney Weaver, Goldie Hawn, Liza Minnelli, Barbara Hershey, Anjelica Huston e Mary Steenburgen terem sido considerados.

Habituais imagens de marca de Scorsese são o seu próprio cameo (aqui como um cliente de Bickle) e a inclusão dos seus pais (os pais de Iris que no final surgem no jornal). Note-se ainda que um dos discos falados entre Bickle e Betsy é de Kris Kristofferson, protagonista do anterior filme de Scorsese, “Alice Já Não Mora Aqui”.

Como curiosidade acrescente-se que este foi o último filme da Columbia a usar o logo original da mulher segurando a tocha. Na sua remasterização do 35º aniversário (2011), Scorsese fez questão de deixar o logo inicial, ainda que de mais baixa qualidade que o filme.

Considerado, desde logo, uma obra fundamental, quer pelo público quer pela crítica, “Taxi Driver” foi nomeado para quatro Oscars, incluindo o de Melhor Filme e de Melhor Actor, tendo ainda vencido a Palma de Ouro do Festival de Cannes.

“Taxi Driver” terá impressionado em excesso John Hinckley, Jr., o homem que em 1981 tentou assassinar o presidente norte-americano Ronald Reagan, para impressionar Jodie Foster. Hinckley foi ilibado por insanidade, e o filme foi projectado pela defesa como modo de impressionar os jurados.

Produção:

Título original: Taxi Driver; Produção: Columbia Pictures Corporation / Bill/Phillips / Italo/Judeo Productions; País: EUA; Ano: 1976; Duração: 113 minutos; Distribuição: Columbia Pictures; Estreia: 8 de Fevereiro de 1976 (EUA), 15 de Abril de 1977 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: Michael Phillips, Julia Phillips; Produtor Associado: Phillip M. Goldfarb; Argumento: Paul Schrader; Fotografia: Michael Chapman [filmado em Eastman, cor por Metrocolor]; Música: Bernard Herrmann; Montagem: Tom Rolf, Melvin Shapiro; Direcção Artística: Charles Rosen; Cenários: Herbert F. Mulligan; Figurinos: Ruth Morley; Caracterização: Dick Smith, Irving Buchman; Efeitos Especiais: Tony Parmelee; Director de Produção: Phillip M. Goldfarb [não creditado].

Elenco:

Robert De Niro (Travis Bickle), Jodie Foster (Iris), Albert Brooks (Tom), Harvey Keitel (Sport), Leonard Harris (Charles Palantine), Peter Boyle (Wizard), Cybill Shepherd (Betsy), Diahnne Abbott (Concession Girl), Frank Adu (Negro zangado), Victor Argo (Argo), Gino Ardito (Polícia na Manifestação), Garth Avery (Amigo de Iris), Harry Cohn (Taxista em Bellmore), Copper Cunningham (Prostituta no Táxi), Brenda Dickson (Mulher da Telenovela), Harry Fischler (Correio), Nat Grant (Assaltante), Richard Higgs (Agente dos Seviços Secretos), Beau Kayser (Homem da Telenovela), Victor Magnotta (Fotógrafo dos Serviços Secretos, Bob Maroff (Mafioso), Norman Matlock (Charlie T), Bill Minkin (Assistente de Tom), Murray Moston (Controlador de Iris), Harry Northup (Doughboy), Gene Palma (Baterista de Rua), Harlan Cary Poe (Assistente na Campanha), Steven Prince (Andy, Vendedor de Armas), Peter Savage (Cliente), Martin Scorsese (Passageiro a observar silhuetas), Nicholas Shields [como Robert Shields] (Assistente de Palantine), Ralph S. Singleton (Entrevistador de T.V.), Joe Spinell (Agente Pessoal), Maria Turner (Prostituta Zangada), Robin Utt (Assistente na Campanha).

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