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Hiroshima mon amourEm Hiroshima, depois da Segunda Guerra Mundial, uma mulher francesa (Emmanuelle Riva) filma um documentário pacifista sobre a tragédia da bomba nuclear ali largada. Ali ela envolve-se amorosamente com um homem japonês (Eiji Okada). Ambos marcados pela guerra, ele por ter perdido a família em Hiroshima, ela por ter perdido o amante alemão em Nevers, França, encontram um no outro e na cidade onde estão uma forma de exorcismo da memória e esquecimento das tragédias que os atormentam, e para as quais ainda procuram um sentido.

Análise:

“Hiroshima, Meu Amor”, considerado como um dos filmes que iniciou a Nouvelle Vague do cinema francês. Foi o primeiro filme de Alain Resnais, um autor que aqui mostrava a sensibilidade de esquerda, com a qual ficou desde logo conotado. É um filme de certo modo perturbador, e sem dúvida provocante, ao tocar num assunto quase tabu – as consequências do lançamento da bomba atómica em Hiroshima em Agosto de 1945, – e ao fazê-lo de um modo tão explícito. Em simultâneo conduz-nos por diálogos sinuosos, escritos por Marguerite Duras, os quais nos chegam como uma declamação de um longo poema. Neles opõem-se amor e tragédia, paz e guerra, memória e esquecimento, passado e presente, destruição e esperança, ocidente e oriente, homem e mulher.

A sequência inicial do filme é um documentário dessas consequências trágicas, com um despudorado olhar para os ferimentos sofridos pelos habitantes, e as deformidades resultantes da radiação na geração que se seguiu. Tudo isto nos é mostrado sem som, apenas com as palavras de uma voz feminina, que numa espécie de mantra vai repetindo a fórmula “eu vi em Hiroshima…”, para no final de cada descrição ouvir, negado, na voz masculina que repete “tu não viste nada em Hiroshima”, marcando a impossibilidade de se conhecer o que não se viveu. A sequência documental é intercalada apenas com grandes planos dos corpos dos dois amantes que docemente se tocam, mas estes contrastam com os corpos cinzentos de cinza, também entrelaçados, assim como surge entrelaçada a história de amor e de tragédia.

Inicia-se depois a parte ficcional. Esta traz-nos a história de um breve encontro romântico, de duas pessoas casadas (ela francesa, ele japonês – um par inter-racial como resultado de uma nova paz mundial), que não pretende ser mais que um episódio insignificante. Deles nada sabemos, e nada nos é explicado, a não ser uma ligação a Hiroshima. Em Hiroshima a mulher (Emmanuelle Riva) participa num filme documental. Em Hiroshima o homem (Eiji Okada) perdeu a sua família.

A mulher é o centro da história, trazendo-nos a visão de Hiroshima de um modo contemplativo, como uma homenagem póstuma e sentida. Mas aos poucos vamos saindo dessa Hiroshima física e entrando no seu passado, que se desvenda aos poucos, em frases soltas, e momentos desligados, como que levantando paulatinamente cada ponta do véu, sempre que o homem procura saber um pouco mais sobre o porquê de ela não poder ficar. Nessa viagem ao passado a mulher revela-se, revelando o que nunca quis assumir, e que tentou enterrar, como um crime. Um passado de um amor acabado em tragédia, que deixou à beira da loucura, e do qual não consegue ainda desligar-se.

É em Hiroshima, com as defesas em baixo perante os vestígios e a memória de uma tragédia maior que as palavras possam descrever, que a mulher vai pela primeira vez revisitar esse passado, em Nevers, onde a sua inocência morreu. Ao fazê-lo sente-se a trair o seu passado, pois retirou-o do aspecto quase lendário que ele tinha para si, expondo-o à luz da realidade. Ao fazê-lo, permite-se pela primeira vez vê-lo como algo que já terminou, e numa verdadeira catarse emocional, aceitar que pode novamente amar.

Esse reabrir da ferida, reviver do trauma, e consequente distanciamento, é a Hiroshima pessoal da mulher, que a vive no Japão, com um amante japonês, na cidade onde a bomba caiu. Tal como Hiroshima é a mulher que fica por fim, como uma folha branca, vazia, procurando coragem para reiniciar a sua vida. Essa consequência constata-se nos repetidos “Devora-me. Deforma-me à tua imagem, para que mais ninguém depois de ti compreenda o porquê de tanto desejo”, proferidos por ela, numa evocação da guerra e do poder do amor em moldar as pessoas uma à outra.

Embora hoje “Hiroshima, Meu Amor” não nos pareça uma história difícil de seguir, em 1959, chocou os espectadores pelo modo inovador de sobrepor ficção e documentário, e por filmar os acontecimentos ficcionais de um modo solto, não linear, sem uma aparente noção do tempo, como um chorrilho de memórias que se sucedem obsessivamente, e se atropelam sem ordem, e sem pedir licença. O filme prende sobretudo pela profundidade emocional trazida pela interpretação cativante de Emmanuelle Riva, que em pouco tempo nos desvenda uma personagem complexa a braços com difíceis traumas internos, que a levam constantemente da mais cândida doçura à mais inquietante neurose.

E se o trauma parece resultar no aceitar do amor pelo casal, esse amor é um amor marcado pela tragédia. Por isso a mulher profere ao seu amante “o teu nome é Hiroshima”, e ele lhe retorque “e o teu nome é Nevers”, as cidades que os marcaram e os tornaram quem são. Poderá o verdadeiro amor alguma vez ser livre do sofrimento?

Produção:

Título original: Hiroshima mon amour; Produção: Argos Films / Como Films / Daiei Studios / Pathé Entertainment; País: França/Japão; Ano: 1959; Duração: 90 minutos; Distribuição: Cocinor; Estreia: 10 de Junho de 1959 (França), 27 de Abril de 1974 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alain Resnais; Produção: Anatole Dauman, Samy Halfon; Argumento: Marguerite Duras; Música: Georges Delerue, Giovanni Fusco; Fotografia: Michio Takahashi, Sacha Vierny [preto e branco]; Montagem: Jasmine Chasney, Henri Colpi, Anne Sarraute; Design de Produção: Minoru Esaka, Mayo, Petri, Lucilla Mussini [não creditada]; Figurinos: Gerard Collery; Caracterização: Alexandre Marcus; Direcção de Produção: Sacha Kamenka, Takeo Shirakawa.

Elenco:

Emmanuelle Riva (Ela), Eiji Okada (Ele), Stella Dassas (Mãe), Pierre Barbaud (Pai), Bernard Fresson (Amante Alemão).

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