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Alice Doesn't Live Here AnymoreAlice (Ellen Burstyn) é uma mulher que deixou os seus sonhos para viver a vida de dona de casa, sob a sombra de um marido (Billy Green Bush) que pouco tem para lhe oferecer. Quando este morre num acidente, Alice vê o acontecimento como uma oportunidade de voltar a cantar, na terra onde antes foi feliz. Inicia assim, com o filho de oito anos, Tommy (Alfred Lutter III), uma viagem entre o Novo México e a Califórnia, com paragens nalguns lugares para tentar ganhar algum dinheiro, ora como cantora, ora como empregada de mesa. Neles vai conhecendo novas pessoas que tentam insinuar-se na sua vida, como é o caso do melífluo Ben (Harvey Keitel) ou do mais tradicional David (Kris Kristofferson). Os novos desafios vão testar a capacidade de Alice em manter-se fiel aos seus sonhos como mãe e mulher independente.

Análise:

A quarta longa-metragem de Martin Scorsese foi a sua primeira numa major de Hollywood, a Warner Bros., no mesmo ano em que voltara a filmar a sua herança cultural, no documentário “Italianamerican”, no qual entrevista os próprios pais.

A oportunidade para “Alice Já Não Mora Aqui” surgiu quando a Warner, alicerçada no extraordinário êxito de “O Exorcista” (The Exorcist, 1973) de William Friedkin, quis capitalizar o momento de Ellen Burstyn, entregando-lhe controlo para um novo filme. Burstyn foi a responsável pela escolha do argumento e do realizador, pedindo ajuda a Francis Ford Coppola, que a aconselhou a ver “Os Cavaleiros do Asfalto” (Mean Streets, 1973). Procurando um realizador jovem, que acrescentasse algo mais cru a uma história com propensão para se tornar lamechas, Burstyn gostou do que viu, e Scorsese foi o escolhido.

Reputado já como realizador de homens, Scorsese tinha agora o teste de ser igualmente incisivo e relevante numa história feminina (e de certo modo feminista). Esta tratava de uma mulher, Alice (Ellen Burstyn) que de repente fica viúva de um marido que a maltratava, e com o filho, Tommy (Alfred Lutter III) por criar. Tendo que voltar a ter um emprego, Alice decide-se por voltar a cantar, algo que fizera antes de casar, em Monterey, na California. Sendo Monterey o sinónimo de uma felicidade há muito perdida, Alice resolve viajar para lá com o filho, parando nalguns lugares para tentar juntar dinheiro como cantora em bares. Em cada paragem vai conhecendo pessoas que tentam entrar na sua vida. É o caso de Bem (Harvey Keitel), o sedutor bem falante, que mais tarde se revela um marido abusador, e de David (Kris Kristofferson), o pacato agricultor divorciado, que quer voltar a ver alegria na sua casa.

Só que Alice sabe agora o quanto hipotecou os seus sonhos ao casar. Por isso está relutante a deixar que novamente um homem controle a sua vida, mesmo quando sabe o quão confortável isso lhe é. Alice vai agora tentar, errar, insistir, desesperar, mas nunca virar a cara à luta, pois tem uma vida para recomeçar e um filho para criar.

De acordo com a própria Ellen Burnstyn, o todo filme foi uma experiência, em que ela e Scorsese quiseram construir uma história real, de pessoas imperfeitas, perdidas, em crises de nervos, com medo de errar, mas ainda assim lutando por algo. Tal é exactamente o que o filme transmite, no modo cru, e no quase violento transmitir de sentimentos que Scorsese vinha treinando.

Nada disto seria possível sem a força das interpretações dos seus protagonistas. Se Harvey Keitel e Kris Kristofferson são discretos nos seus papéis (o primeiro sinuoso e violento, o segundo seguro e calmo), é Ellen Burstyn quem mais brilha num elenco que inclui ainda Diane Ladd e uma muito jovem Jodie Foster. Forte, fraca, doce, neurótica, introspectiva, extrovertida, a sua Alice é um carrossel de emoções que Burstyn controla com mestria, compondo uma personagem real, nos limites, mas nunca caindo na lamechice óbvia. Ao seu lado, o pequeno actor Alfred Lutter é o complemento perfeito. As interacções entre ambos são tão surpreendentes como desconcertantes, comoventes e reais. Percebendo a química existente entre ambos, Scorsese pediu-lhes que improvisassem, desafiando-os com novas linhas e situações, razão pela qual os diálogos parecem sempre tão reais e tão pouco encenados. Exemplo é a famosa anedota «Shoot the dog!» que Tommy conta várias vezes, exactamente da mesma forma como tinha feito com Scorsese numa viagem de carro.

Martin Scorsese provava assim, não só a sua versatilidade, como a sua integridade, não deixando que Hollywood o mudasse. De facto, mesmo num filme que foge à sua temática mais característica, encontram-se todas as suas imagens de marca: a handycam, os planos não encenados, os diálogos abruptos, a improvisação, agora de uma forma mais polida, com melhores meios e contando uma história de uma mulher que nada tem a ver com o seu historial nova-iorquino.

Com todo o realismo que Scorsese se impunha nesta fase da sua carreira, nota-se o lugar para algum lirismo. Este está presente logo na sequência inicial, em que uma Alice de oito anos espelha a Dorothy de “O Feiticeiro de Oz” (The Wizard of Oz, 1939) de Victor Fleming, cantando no seu alpendre rural, filmada com filtros de cor, para “envelhecer” a imagem. “Alice Já Não Mora Aqui” pode então ser visto como um paralelo do filme de Fleming, com a longa «yellow brick road» a ser toda a viagem de Alice, e a sua conclusão final a ser a mesma «there’s no place like home», casa sendo aqui o lugar que se constrói, e não aquele que se sonha. Por isso Alice troca o sonho de uma felicidade em Monterey, que era afinal apenas uma longínqua memória, por algo bem mais real, simbolizado no último plano do filme onde a vemos levar o filho a um centro comercial chamado Monterey Village.

“Alice Já Não Mora Aqui” foi muito apreciado pela crítica, e Ellen Burstyn venceu o Oscar de Melhor actriz, com Diane Ladd nomeada para Melhor Actriz Secundária, e Robert Getchell nomeado pelo seu argumento. A estes prémios juntaram-se os BAFTA de Melhor Filme, Actriz, Actriz Secundária e Argumento, juntamente com outros prémios de outras instituições. Já Scorsese, nomeado aos BAFTA e à Palma de Ouro de Cannes, não chegou a ser premiado, mas era a partir de agora um dos nomes da moda do cinema internacional.

O filme gerou ainda a sitcom Alice, que foi transmitida na CBS entre 1976 e 1985.

Produção:

Título original: Alice Doesn’t Live Here Anymore; Produção: Warner Bros.; Produtores Executivos: Larry Cohen, Lawrence D. Cohen; País: EUA; Ano: 1974; Duração: 112 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 9 de Dezembro de 1974 EUA).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: David Susskind, Audrey Maas; Produtora Associada: Sandra Weintraub; Argumento: Robert Getchell; Fotografia: Kent L. Wakeford [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Música: Richard LaSalle; Design de Produção: Toby Carr Rafelson; Montagem: Marcia Lucas; Figurinos: Lambert Marks, Lucia De Martino; Caracterização: Bob Westmoreland.

Elenco:

Ellen Burstyn (Alice Hyatt), Alfred Lutter III (Tommy), Kris Kristofferson (David), Billy Green Bush (Donald), Diane Ladd (Flo), Lelia Goldoni (Bea), Lane Bradbury (Rita), Vic Tayback (Mel), Jodie Foster (Audrey), Harvey Keitel (Ben), Valerie Curtin (Vera), Murray Moston (Jacobs), Mia Bendixsen (Alice, 8 anos), Harry Northup (Barman de Joe & Jim).

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