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A Star Is BornEsther Blodgett (Janet Gaynor) vive a sonhar com o cinema, e um dia, com o incentivo da sua avó (May Robson) decide rumar a Hollywood para tentar a sua sorte como actriz. Aí todas as portas parecem fechadas, mas ao se tornar amiga do assistente de realização, Danny McGuire (Andy Devine), é levada por este a alguns eventos sociais, como empregada, para estar do meio artístico. Num desses eventos conhece a estrela Norman Maine (Fredric March), que se começa a interessar por ela. A amizade desenvolve-se em romance, e Norman convence o seu produtor (Adolphe Menjou) a dar uma oportunidade a Esther, cuja ascensão (sob o nome de Vicky Lester) é vertiginosa. Só que enquanto Esther vê a sua estrela subir, a de Norman vai-se apagando.

Análise:

Embora inicialmente rejeitado por David O. Selznick, o argumento de “Nasceu Uma Estrela” passou a projecto na sua produtora independente, sendo entregue ao experiente William Wellman, que liderou um elenco de estrelas, para o que seria uma das grandes produções do ano de 1937. O tema era um retrato da máquina do cinema, principalmente naquilo que ela faz das suas estrelas principais, os actores.

Em “Nasceu Uma Estrela” acompanhamos a história de Esther Blodgett (Janet Gaynor), uma jovem que, como tantas da sua geração, vive com a cabeça perdida no glamour que vem do grande ecrã. Sob o incentivo da avó (May Robson), Esther vai para Hollywood tentar a sua sorte, e esta chega pelas mãos de Danny McGuire (Andy Devine), um colega de pensão, também a lutar por um emprego (no seu caso assistente de realização), que vai levando Esther para os eventos que pode, nem que seja como criada de servir. É numa dessas festas que Esther conhece Norman Maine (Frederic March), estrela cadente, em problemas com a bebida, com público e produtores, mas com o qual a jovem desenvolve uma química muito especial. Norman acaba por promover a carreira de Esther, agora chamada Vicky Lester, só que quanto mais ela brilha e é amada pelo público, mais a carreira dele se desvanece. Os dois acabam por casar, mas tal apenas traz a Norman uma maior evidência do seu papel secundário, tanto em Hollywood como na vida de Esther.

Com o drama humano como catalisador, “Nasceu Uma Estrela” traz-nos um olhar acutilante sobre a vida, carreira, ascensão e queda das estrelas de cinema, numa altura em que o chamado star system de Hollywood era já uma máquina trituradora impressionante. Por ele vemos não só os resultados das rápidas transferências de favor de público e estúdios sobre os actores, e o modo como isso lhes influencia a vida. Vemos toda a pátina de ilusão com que cada pessoa e acontecimento são vendidos (o cinismo do agente de marketing é inesquecível), e vemos o modo de produção de estrelas, na pessoa da própria Esther. Desde que entra no estúdio, Esther vê a sua biografia alterada, o nome mudado, e todo o seu aspecto físico transformado, desde a maquilhagem que lhe pretende modificar o rosto, até às aulas de postura e dicção, com vista a transformá-la numa personagem tipo, vendável por Hollywood.

“Nasceu Uma Estrela” é, por isso, essencialmente uma sátira, que nos mostra um mundo desumano, onde almas parecem estar à venda a troco da ilusão da fama, pagando depois o preço de vidas falsas e quedas abruptas, como é o caso de Norman Maine. Contraste, e humanizando um filme que de outro modo pareceria demasiado amargo, é a própria Esther, numa interpretação sentida de Janet Gaynor (hilariante nas suas imitações de Greta Garbo, Katharine Hepburn e Mae West), que é doce, inocente, e sabe manter sempre os seus princípios, apoiando o marido quando todos o abandonam, inclusivamente na linha final, em que no auge da sua fama, se apresenta como Mrs. Norman Maine.

O lado corrosivo do filme é tão acutilante que diversos momentos, que nos podem até parecer exageradamente dramáticos, são baseados em momentos reais. Exemplo é a intrusão intempestiva de Norman, embriagado, na aclamação de Esther/Vicky. Janet Gaynor viu o mesmo aconteceu, quando recebeu o Oscar por “A Hora Suprema” (7th Heaven, 1927) de Frank Borzage, e a sua irmã irrompeu embriagada pela cerimónia. Também a sequência do funeral, com uma multidão acossando estupidamente a actriz, foi uma réplica do funeral de Irving Tharberg, e pouco após a estreia do filme a cena repetir-se-ia no de Jean Harlow.

O filme foi um sucesso imediato, conquistanto o Oscar de Melhor Argumento, mesmo quando se dizia que Selznick podia vir a ser processado pela RKO, pois muitos consideravam a história uma cópia de “What Price Hollywood?” (1932) de George Cukor.

Curiosamente o mesmo George Cukor realizaria mais tarde o remake “Assim Nasce uma Estrela” (A Star is Born, 1954), com Judy Garland e James Mason, com a história transposta para o mundo do teatro. Um segundo remake, “Nasce uma Estrela” (A Star is Born, 1976) seria realizado por Frank Pierson, com Barbra Streisand, Kris Kristofferson nos principais papéis, e agora passado ao mundo da música rock.

Apesar da sua cor ainda muito insípida, num Technicolor em fase de evolução, o filme de Wellman foi o primeiro filme completamente a cores a ser nomeado para o Oscar de Melhor Filme.

Produção:

Título original: A Star Is Born; Produção: Selznick International Pictures; País: EUA; Ano: 1937; Duração: 110 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 20 de Abril de 1937 (EUA), 1 de Fevereiro de 1938 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: William A. Wellman, Jack Conway [não creditado]; Produção: David O. Selznick; Argumento: Dorothy Parker, Alan Campbell, Robert Carson [a partir de uma história de William A. Wellman e Robert Carson]; Música: Max Steiner; Fotografia: W. Howard Greene [cor por Technicolor]; Design de Produção: Lansing C. Holden; Direcção Artística: Lyle R. Wheeler; Montagem: James E. Newcom, Anson Stevenson [não creditada]; Figurinos: Omar Kiam; Efeitos Especiais: Jack Cosgrove; Director de Produção: Ray Flynn.

Elenco:

Janet Gaynor (Esther Victoria Blodgett / Vicki Lester), Fredric March (Norman Maine), Adolphe Menjou (Oliver Niles), May Robson (Avó, Lettie Blodgett), Andy Devine (Danny McGuire), Lionel Stander (Matt Libby), Owen Moore (Casey Burke, Realizador), Peggy Wood (Miss Phillips, Empregada do Casting), Elizabeth Jenns (Anita Regis), Edgar Kennedy (Pop Randall, Senhorio), J.C. Nugent (Mr. Blodgett).

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