Etiquetas

, , , , , , , , ,

Les cousinsCharles (Gérard Blain) é um rapaz de província que vem para a cidade estudar direito, e assim honrar os pais que tudo fizeram por ele. Em Paris, Charles fica em casa do primo Paul (Jean-Claude Brialy), um cínico e desiludido boémio, que vive uma vida de noitadas, conquistas amorosas, muita bebida e alguns desacatos. De início fascinado pela novidade da vida decadente, o tímido Charles apaixona-se por Florence (Juliette Mayniel), uma rapariga do círculo de Paul. Quando Paul lhe tira a namorada, Charles decide voltar a dedicar-se a tempo inteiro aos estudos, fechando-se à vida boémia e irresponsável do primo.

Análise:

Em Março de 1959 Claude Chabrol estreava o seu segundo filme como realizador. Depois de se iniciar na realização, no ano anterior, com “Um Vinho Difícil” (Le Beau Serge, 1958) que, por não entusiasmar no circuito dos festivais, teve estreia adiada para ao início de 1959, os dois filmes têm sido descritos como filmes irmãos. Mas foi com “Les cousins” que, aquele que mais tarde viria a ser apelidado de Hitchcock francês, saía do anonimato, trazendo o primeiro olhar interessado sobre a chamada Nouvelle Vague.

No espírito do trabalho desta nova geração de realizadores, “Les cousins” é um drama psicológico, de características filosóficas, marcado pelo negativismo e nihilismo de uma geração, numa história que é um retrato da juventude parisiense visto através das diferenças entre dois primos, Charles (Gérard Blain) e Paul (Jean-Claude Brialy).

Charles é um bem comportado moço de província, que vem para a cidade estudar direito. Tudo o que quer é poder encher de orgulho a mãe, o seu farol moral, que tanto lutou por ele, e a quem ele escreve regularmente. A recebê-lo está Paul, um rapaz da cidade, de gostos desenvolvidos, mas cínico e desiludido com a vida. Paul prefere a vida boémia, e passa o tempo em festas, atrás de raparigas, ou a beber. Embora esta vida cause estranheza ao ainda puro Charles, este não deixa de sentir uma certa fascinação por toda aquela gente tão diferente e sofisticada.

É assim que Charles se deixa atrair por Florence (Juliette Mayniel), com quem ele quer viver um amor a sério. Florence, uma das muitas amigas de Paul, de início sente-se atraída pela ideia de uma pureza sentimental, e um amor que tem algo de religioso, distante do mundo mundano que conhece. Mas cedo é arrastada de volta a esse mundo, quando o mais carnal Paul lhe mostra que é ele que a pode compreender. Essa revelação é um teste para Charles, que o aceita como prova de que são os estudos o seu único objectivo.

Rejeitando o estilo de vida do primo, Charles dedica-se ao seu estudo a tempo inteiro. Crueldade da vida é o facto de o libertino e preguiçoso Paul passar nos exames, e o trabalhador Charles reprovar, o que abalando definitivamente a fé em si próprio, no seu trabalho e naquilo que a vida para si representa.

Então com apenas 28 anos, Claude Chabrol trazia-nos um olhar amargurado, e mesmo desiludido sobre a vida, filmado a preto e branco, com algumas das imagens de marca da Nouvelle Vague, como a montagem acelerada, os diálogos instintivos, e uma encenação austera que o purga de qualquer dramatismo, seja de interpretação ou de planos de câmara. São as interpretações que guiam o filme, com Gérard Blain seguro como o ingénuo e inapto Charles, e Jean-Claude Brialy como o irresponsável, mas magnético Paul, com toques de sadismo, e um ego que o deixa brincar com as vontades dos outros.

O negrume de “Les cousins” vem sobretudo da visão da vida do grupo de amigos de Paul, que se limita a gozar os dias, sem objectivos ou valores, como se o fim estivesse próximo (a sequência onde se sugere uma orgia, com declamações nazis é bem prova da completa amoralidade do grupo). Esse lado negro (que não é desprovido de humor e mesmo empatia) é acentuado pela conclusão que mostra que o trabalho e os valores não são recompensa, tudo terminando num acidente absurdo, como se Chabrol quisesse dizer que no fundo nada vale a pena.

“Les cousins” receberia o Urso de Ouro do Festival Internacional de Berlim, colocando a Nouvelle Vague pela primeira vez no mapa do cinema internacional.

Produção:

Título original: Les cousins [Título inglês: The Cousins]; Produção: Ajym Films / Société Française du Cinéma pour la Jeunesse; País: França; Ano: 1959; Duração: 105 minutos; Distribuição: Les Films Marceau (França), Films Around the World (EUA); Estreia: 11 de Março de 1959 (França).

Equipa técnica:

Realização: Claude Chabrol; Produção: Claude Chabrol, Roland Nonin [não creditado]; Argumento: Claude Chabrol; Diálogos: Paul Gégauff; Música: Paul Misraki; Direcção Musical: Georges Derveaux; Fotografia: Henri Decaë [preto e branco]; Design de Produção e Cenários: Jacques Saulnier, Bernard Evein; Montagem: Jacques Gaillard; Caracterização: Irène Charitonoff; Direcção de Produção: Jean Cotet.

Elenco:

Gérard Blain (Charles), Jean-Claude Brialy (Paul Thomas), Juliette Mayniel (Florence), Claude Cerval (Jean, dito Clóvis), Guy Decomble (O Livreiro), Geneviève Cluny (Geneviève), Michèle Méritz (Yvonne), Corrado Guarducci (Italiano, Conde Minerva), Stéphane Audran (Françoise), Paul Bisciglia (Marc), Jeanne Pérez (Mulher de Limpeza), Françoise Vatel (Martine), André Chanal, Gilbert Edard, Clara Gansard, Jean-Louis Maury (Estudante no Bridge), Virginie Vitry.

Anúncios