Etiquetas

, , , , , , , , ,

Mean StreetsCharlie (Harvey Keitel) é um jovem italo-americano, perdido entre a sua culpa católica e a vontade de agradar ao tio, para um dia ser um gangster respeitável como ele. Até a lá vai acompanhando os amigos Tony (David Proval) e Michael (Richard Romanus), os quais vão dando pequenos golpes, controlando um bar, e fazendo acordos de extorsão nas redondezas. Enquanto se divide entre querer parecer tão duro quanto eles, mas mantendo uma humildade que traz de casa, Charlie auxilia o insensato Johnny Boy (Robert De Niro) cujas constantes dívidas e carácter intempestivo o colocam sempre em sarilhos. Ao mesmo tempo Charlie inicia uma relação, aos seus olhos ilícita, com Teresa (Amy Robinson), uma prima de Johnny Boy, e que o seu tio não aprova.

Análise:

Depois de “Uma Mulher da Rua” (Boxcar Bertha, 1972), o filme de Scorsese feito sob as ordens de Roger Corman, os seus colegas e amigos John Cassavetes e John Milius tinham-lhe dito para deixar de fazer filmes para outros, e seguir a sua voz artística. Como resultado, Martin Scorsese pegou numa história que já desenvolvia desde a década anterior, com o seu amigo e co-argumentista Mardik Martin, a que chamaram “Season of the Witch” e desenvolveu-a no que se tornaria a sua terceira longa-metragem, “Os Cavaleiros do Asfalto”.

A ideia era continuar a trilhar o caminho das histórias da Little Italy, onde Scorsese cresceu, e que fora já a fonte para o seu filme de estreia, “Who’s that Knocking at My Door?” de 1967. Novamente com Harvey Keitel no principal papel, o filme foi chamado de segunda parte de uma trilogia semi-autobiográfica, na qual se volta a lidar com o mundo dos pequenos criminosos de rua com pretensões a homens respeitáveis na sua comunidade, lidando com a tradição italiana, o peso da Igreja Católica e os desafios do contacto com o mundo da liberal Nova Iorque.

Com Roger Corman a oferecer financiamento para um filme onde queria um elenco negro, Scorsese rejeitou a oferta, e encontrou apoio em Jonathan Taplin, road manager da banda The Band, para a qual mais tarde Scorsese realizaria um filme-documentário. Com um orçamento baixo, “Os Cavaleiros do Asfalto”, considerado um dos filmes mais emblemáticos de Nova Iorque, foi na verdade filmado maioritariamente nos estúdios de Hollywood, apenas com os exteriores filmados em cenários naturais.

Esse baixo orçamento é ainda responsável por algumas das opções técnicas do filme, como as handycam (câmaras transportadas manualmente) que lhe dão o seu aspecto distintivo. Com planos sempre em movimento (por vezes com câmaras coladas a um dos actores), e uma montagem frenética, Scorsese consegue um filme movimentado, mas elegante, onde a sua montagem (foi de facto o próprio Scorsese o responsável pela montagem), modo livre de interpretar, linguagem natural, banda sonora feita de pop dos anos 60 e música italiana (mais uma vez a dicotomia entre tradição italiana e presente americano), uma escolha cuidada de locais da Little Italy, e uma fotografia por vezes saturada, de neons e luzes médias de bares, o filme foi quase que uma revolução estética, lançando para a ribalta o nome de Martin Scorsese.

Um pouco à imagem do citado “Who’s that Knocking at My Door?”, “Os Cavaleiros do Asfalto” é um filme sobre o quotidiano de um grupo de jovens italo-americanos, a tentar fazer nome, por entre esquemas ilegais, serões de bebida em bares, e muita testosterona, que os deixa sempre à beira de mais uma exibição dos seus ares de macho. Tal como o filme de 1967, é novamente um argumento quase sem história, como pequenos quadros do dia a dia, e mais uma vez conduzido pelo personagem de Harvey Keitel.

Charlie (Keitel) quer ser alguém, podendo esquecer os seus pecados, na sempre presente culpa católica que o atormenta, ao tornar-se homem de confiança do seu tio (Cesare Danova), um gangster que controla alguns estabelecimentos locais. No seu quotidiano, tenta lidar com os seus pares, como Tony (David Proval) e Michael (Richard Romanus), e conduzir no bom caminho das lealdades de bairro, o seu protegido Johnny Boy (Robert De Niro). Ao mesmo tempo vive uma relação com a prima de Johnny, Teresa (Amy Robinson), a qual não pode assumir, pois não é bem vista pelo seu tio.

Ao lado de Keitel destaca-se ainda Robert De Niro, aqui na primeira de várias frutuosas colaborações com Scorsese. Visceral, imprevisível, para não dizer tresloucado, o Johnny Boy de De Niro é tão contagiante quanto enérgico, contribuindo para o ritmo alucinante do filme, e o seu modo particular de criar tensão em movimento. Quase em contraponto com Charlie, onde este é calmo e cerebral, Johnny Boy é ansioso e descontrolado, onde Charlie é contido e introspectivo Johnny Boy é instintivo e irreflectido. Curioso o final, onde os dois parecem partilhar da mesma sorte, com tão diferentes perspectivas e modos de estar e pensar, que são afinal, exemplos dos constantes duelos psicológicos que definem o personagem eternamente dividido de Charlie.

Como começava a ser imagem de marca, Scorsese tem um pequeno papel no filme, como o assassino Jimmy Shorts. É ainda sua a voz que ouvimos na sequência inicial, em off, como pensamento do personagem de Harvey Keitel. Também, tal como em “Who’s that Knocking at My Door?”, Scorsese volta a filmar a sua mãe, aqui como a velha senhora italiana que acorre durante a crise de Teresa.

“Os Cavaleiros do Asfalto” foi recebido entusiasticamente pela crítica, que o considerou um dos filmes mais inovadores dos últimos tempos. Por ele, Robert De Niro receberia o prémio de Melhor Actor Secundário, da National Society of Film Critics.

Produção:

Título original: Mean Streets; Produção: Warner Bros. / Taplin – Perry – Scorsese Productions; Produtor Executivo: E. Lee Perry; País: EUA; Ano: 1973; Duração: 107 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 2 de Outubro de 1973 (EUA), 27 de Março de 1979 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: Jonathan T. Taplin; História: Martin Scorsese; Argumento: Martin Scorsese, Mardik Martin; Fotografia: Kent L. Wakeford [cor por Technicolor]; Montagem: Sidney Levin; Director de Produção: Paul Rapp; Efeitos Especiais: Bill Balles; Guarda-roupa: Norman Salling.

Elenco:

Robert De Niro (Johnny Boy), Harvey Keitel (Charlie), David Proval (Tony), Amy Robinson (Teresa), Richard Romanus (Michael), Cesare Danova (Giovanni), Victor Argo (Mario), Jeannie Bell (Diane), David Carradine (Bêbedo), Robert Carradine (Rapaz com uma Pistola), D’Mitch Davis (Polícia), George Memmoli (Joey), Murray Moston (Oscar), Harry Northup (Soldado), Lenny Scaletta (Jimmy), Ken Sinclair (Sammy), Lois Walden (Rapariga Judia), Robert Wilder (Benton), Dino Seragusa (Velho), Peter Fain (George), Martin Scorsese (Jimmy Shorts) [não creditado].

Advertisement