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Ascenseur pour l'echafaudJulien Tavernier (Maurice Ronet) e a sua amante Florence (Jeanne Moreau) têm um plano. Tavernier deve fingir trabalhar no seu escritório até tarde, enquanto trepa ao andar superior e mata o patrão (nem mais que o marido de Florence), simulando um suicídio. Mas depois de consumado o acto, Tavernier percebe que deixou a corda na varanda e tem que voltar ao edifício, ficando preso no elevador, após o contínuo desligar a corrente para o fim de semana. Para piorar, o seu carro é roubado por um jovem casal, Louis (Georges Poujouly) e Véronique (Yori Bertin), que se fazem passar por Sr. e Sra. Tavernier, nas várias infracções que cometem. Sem saber o que aconteceu, Florence vagueia as ruas sozinha, procurando Julien Tavernier.

Análise:

Então com 24 anos, Louis Malle estreava-se na realização com o filme “Fim-de-Semana no Ascensor”, uma homenagem ao Film Noir, feito de um crime premeditado por personagens amorais, vítimas e criaturas da dessensibilização da selva urbana. O filme de Malle surge como um exemplo do novo cinema francês, aquilo a que se chamaria a Nouvelle Vague, mesmo que o realizador não seja um membro do núcleo duro do movimento. Ainda assim, na sua abordagem, e propostas de filmagem, tornou-se um filme inspirador, que esteve na base do sucesso do movimento dos jovens autores franceses, surgido no final dos anos 1950.

A história trata de um crime que, apesar de perfeitamente planeado, corre mal. Estamos desde logo em território hitchcockiano, com o suspense a provir do facto de sabermos tudo sobre o crime e sobre as várias formas como pode vir a ser descoberto.

Julien Tavernier (Maurice Ronet) e Florence Carala (Jeanne Moreau) decidem a morte do marido desta, para assumirem a sua relação amorosa. Mas, e embora o plano pareça correr sem falhas, Julien repara que deixou numa varanda do edifício a corda que usara para escalar para o andar superior. Tem de regressar para a retirar e, dado o adiantado da hora, fica preso no elevador, entretanto desligado para o fim de semana. Como se não bastasse, Louis (Georges Poujouly) e Véronique (Yori Bertin), dois jovens das redondezas, vêem que Julien deixou o carro ligado e, num acto intempestivo, roubam o carro e vão para fora da cidade. A sua rebeldia e inexperiência vai levá-los a cometer várias infracções, que acabam na morte de um turista alemão, hospedado no mesmo motel onde o par passa a noite. Os jovens voltam a fugir, deixando para trás apenas a matrícula do carro, e o nome Tavernier. Enquanto isso, Florence vagueia pela cidade, quase em transe, sem saber o que se passou, sendo presa e interrogada sobre o paradeiro de Tavernier.

Assim, novamente como em Hitchcock, estamos no terreno da transferência de culpa. Tavernier, culpado da morte do patrão, é inocente de tudo o que lhe é imputado. Não tem alibi, pois revelar ter estado fechado num elevador que o colocaria perto do local do crime que de facto cometeu não parece boa opção. E Florence, autora moral do crime, vê-se descer a um inferno de dúvida, sentindo-se abandonada.

Filmado a preto e branco, de modo cru, “Fim-de-Semana no Ascensor” ficaria marcado por vários traços característicos, que poderiam ser encontrados no cinema francês dos anos seguintes. Primeiro temos o modo de interacção dos personagens principais, que chega a ser quase onírico, como exemplificado no telefonema inicial que despoleta a acção, depois de uma troca de frases que surgem como mantras. Temos, em contraste, o modo como os dois jovens se comportam, numa rebeldia sem causa nem objectivo, feita de frieza e repentismo inusitado. Temos ainda o modo de filmar, lânguido e contemplativo, evidente nas sequências em que acompanhamos Florence, à chuva, perdida na cidade, ao som da música hipnótica de Miles Davis (que improvisou para este filme). Temos finalmente o uso da luz natural e ausência de maquilhagem, que causou estranheza no modo como Jeanne Moreau foi filmada, mas que conferiu um maior realismo e intensidade a uma interpretação que ficaria para sempre marcada na sua carreira.

Tais ingredientes resultam num distanciamento que tende a desdramatizar que o poderia ser dramático. Pouco sabemos das motivações dos jovens, ou da relação entre Julien e Florence. Repare-se que Maurice Ronet e Jeanne Moreau não chegam a contracenar, e apenas os vimos a falar uma vez, ao telefone.

Sabemos no entanto que por entre coincidências e inevitabilidades, ninguém está em controlo, numa história de tragédia anunciada, mas ainda assim acompanhada com uma frieza que choca, e que não nos deixa indiferentes.

Produção:

Título original: Ascenseur pour l’échafaud; Produção: Nouvelles Éditions de Films (NEF); País: França; Ano: 1958; Duração: 91 minutos; Distribuição: Lux Compagnie Cinématographique de France; Estreia: 29 de Janeiro de 1958 (França), 4 de Maio de 1959 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Louis Malle; Produção: Jean Thuillier; Argumento: Roger Nimier, Louis Malle [adaptado por, e a parti do livro de Noël Calef]; Diálogos: Roger Nimier; Música: Miles Davis; Fotografia: Henri Decaë [preto e branco]; Direcção Artística: Rino Mondellini, Jean Mandaroux; Montagem: Léonide Azar; Direcção de Produção: Irénée Leriche; Caracterização: Boris de Fast; Efeitos Especiais: Pierre Lax.

Elenco:

Jeanne Moreau (Florence Carala), Maurice Ronet (Julien Tavernier), Georges Poujouly (Louis), Yori Bertin (Véronique), Jean Wall (Simon Carala), Elga Andersen (Frieda Bencker), Sylviane Aisenstein (Yvonne, A Rapariga do Bar), Micheline Bona (Geneviève), Gisèle Grandpré (Jacqueline Mauclair), Jacqueline Staup (Anna), Marcel Cuvelier (Recepcionista do Motel), Gérard Darrieu (Maurice), Charles Denner (Adjunto do Comissário Cherrier), Hubert Deschamps (Procurador Subsituto), Jacques Hilling (Empregado na Garagem), Marcel Journet (Presidente do Conselho de Administração), François Joux (Comissário de Polícia), Iván Petrovich (Horst Bencker), Félix Marten (Christian Subervie), Lino Ventura Comissário Cherrier).

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