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The BuccaneerSinopse:

Durante a Guerra de 1812, os ingleses concentram as atenções a sul, tentando a tomada de Nova Orleans, para o que procuram aliciar o pirata francês Jean Lafitte (Yul Brynner), que domina os pântanos de Barataria, em redor da cidade. Só que Lafitte vê na guerra uma forma de ganhar a sua respeitabilidade, para merecer o amor da sua amada, Annette Claiborne (Inger Stevens). Para isso Lafitte oferece a sua ajuda aos americanos, que aproveitam o gesto para o atacar e lhe prender os homens. Com intervenção do general Andrew Jackson (Charlton Heston) Lafitte volta para defender Nova Orleães, conquistando o lugar de herói. Só que o passado volta para arruinar este estado de graça, quando chega a notícia de que foram os seus homens os responsáveis pelo afundamento do navio onde seguia a irmã de Annette.

Análise:

Em 1958 surgia o filme “O Corsário Lafitte” uma actualização (em VistaVision e Technicolor) do filme de 1938 de Cecil B. DeMille, protagonizado por Fredric Marsh no papel do célebre e ambíguo pirata. O remake fora decidido pelo próprio DeMille, lendário realizador e pioneiro de Hollywood, mas a sua crescente doença afastou-o da cadeira de realização, que confiou ao seu genro, o actor Anthony Quinn (ele próprio com um curto papel no filme de 1938). DeMille manteve-se como produtor executivo, supervisionando a obra que, segundo consta, não atingiu a sua aprovação. De facto Quinn não mais realizaria outro filme. Quanto a DeMille, faleceria pouco depois.

Com Yul Brynner (aqui de peruca loura) no principal papel, “O Corsário Lafitte” volta a contar a história do pirata Jean Lafitte, e da sua intervenção nos acontecimentos de 1812, quando os jovens Estados Unidos se debatiam com a Inglaterra numa guerra pela sua sobrevivência. Dada a sua juventude em relação à Europa, os Estados Unidos prezam a criação de uma mitologia que os identifique como nação, e para o qual personagens como Jean Lafitte constituem inesgotáveis recursos de um desejado romantismo.

Pirata, corsário, de fidelidades questionáveis, Lafitte dominava no início do século XIX os pântanos e labirintos florestais de Barataria. Aí era célebre pelas ciladas deixadas a quem passava, pelo comércio clandestino trazido à jovem sociedade americana, e pela hábil política de alianças que o levavam a ser considerado aliado ou inimigo, consoante as marés políticas reinantes.

O filme de Quinn mostra-nos um Lafitte (Yul Brynner) honrado, em debate moral consigo próprio, pela necessidade de ser alguém respeitável, merecedor do amor de Annette Claiborne (Inger Stevens), a filha do governador de Nova Orleans, e que por isso proíbe os seus homens que saquearem navios norte-americanos. Aceite hipocritamente por todos os que lhe compram artigos de luxo a baixo preço, Lafitte tem a cabeça a prémio, o que o leva a procurar redenção oferecendo os seus serviços aos americanos na luta contra a Inglaterra. Nem mesmo uma traição o demove, apelando para o general Andrew Jackson (Charlton Heston), que, como uma espécie de companheiro de armas, o aceita entre os seus, dando-lhe a liberdade dos seus homens para que todos lutem lado a lado pela independência.

A queda de Lafitte chega, no entanto, quando uma série de imprevistos mostram que foram os seus homens os responsáveis pelo afundamento do Corinthian, um navio que partira de Nova Orleans pouco antes. É mais uma vez o companheirismo e código de honra entre soldados que leva Jackson a defender Laffite, deixando-o em liberdade, ainda que para sempre longe da respeitabilidade desejada e da mulher amada.

Comparando-o com o filme de 1938, nota-se uma atmosfera mais soturna no filme de Anthony Quinn. Onde Fredric Marsh era divertido e espirituoso, Yul Brynner transporta uma tragédia anunciada sobre os ombros. Parte dessa diferença recai sobre o papel que em 1938 fora desempenhado por Franciska Gaal, a sobrevivente do Corinthian (em parte irritante, em parte divertida), ora encolerizada pelos modos de Laffite, ora seguindo-o como apaixonada. No filme de 1958 o papel é dividido em dois. Um é o sobrevivente, Miggs (Jerry Hartleben), um miúdo que apenas surge no início e no final, mas cuja referência ao Corinthian lança a suspeita sobre Lafitte. A outra é a rebelde Bonnie Brown (Claire Bloom), cujo pai foi morto por Lafitte por ter afundado o Corinthian, e que vive uma relação de amor-ódio com o pirata, que parece forçada para levar o argumento a bom porto. Diferença acentuada está também no papel de Charles Boyer, o galante braço direito de Lafitte, no papel do francês Dominique You, que em 1938 fora interpretado com efeito cómico pelo burlesco Akim Tamiroff. Por fim destaque-se o papel do governador (E.G. Marshall), aqui um defensor de Lafitte, e o facto de neste filme terem sido os americanos e não os ingleses a destruírem Barataria.

Com um filme demasiado preocupado em fazer-nos acreditar que estamos a aprender história (note-se a introdução de DeMille, como um professor que nos explica os eventos defronte a um quadro), “O Corsário Lafitte” leva-se demasiado a sério, substituindo acção por discussões morais e políticas, e preferindo debates de honra e glória sobre a aventura, nos quais Lafitte e Jackson (que é como dizer Brynner e Heston, para os quais o filme foi feito à medida) saem como heróis perfeitos aos olhos do público.

Destaca-se no entanto a bonita fotografia, num filme quase integralmente filmado em estúdio, e onde a necessidade de realçar qualidade do Technicolor se revela como a principal prioridade estética de Anthony Quinn. É, ainda assim, um dos últimos grandes exemplos do filme clássico de piratas de Hollywood.

Produção:

Título original: The Buccanner; Produção: Paramount Pictures; Produtor Executivo: Cecil B. DeMille; País: EUA; Ano: 1958; Duração: 120 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 1 de Dezembro de 1958 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Anthony Quinn; Produção: Henry Wilcoxon; Argumento: Jesse Lasky Jr., Bernice Mosk [a partir do argumento de 1938 de Harold Lamb, Edwin Justus Mayer e C. Gardner Sullivane, baseado no livro “Lafitte, the Pirate” de Lyle Saxon, adaptado por Jeanie Macpherson]; Música: Elmer Bernstein; Fotografia: Loyal Griggs [filmado em VistaVision, cor por Technicolor]; Direcção Artística: Hal Pereira, Walter H. Tyler, Albert Nozaki; Efeitos Visuais: John P. Fulton; Cenários: Sam Comer, Ray Moyer; Figurinos: Ralph Jester, Edith Head, John Jensen; Caracterização: Wally Westmore; Montagem: Archie Marshek; Direcção de Produção: Frank Caffey, C. Kenneth Deland.

Elenco:

Yul Brynner (Jean Lafitte), Claire Bloom (Bonnie Brown), Charles Boyer (Dominique You), Inger Stevens (Annette Claiborne), Henry Hull (Ezra Peavey), E.G. Marshall (Gov. William Claiborne), Charlton Heston (Gen. Andrew Jackson), Lorne Greene (Mercier), Ted de Corsia (Capitão Rumbo), Douglass Dumbrille (Cobrador do Porto), Robert F. Simon (Capitão Brown), Sir Lancelot (Scipio), Fran Jeffries (Cariba – Rapariga Mawbee Girl), John Dierkes (Deacon), Ken Miller (Joven Sentinela), George Mathews (Pyke), Leslie Bradley (Capitão McWilliams), Bruce Gordon (Gramby), Barry Kelley (Comodoro Patterson), Robert Warwick (Capitão Lockyer), Steven Marlo (Beluche – Estivador), James Todd (Mr. Whipple), Jerry Hartleben (Miggs), Onslow Stevens (Phipps, Inspector de Alfândega), Theodora Davitt (Marie Claiborne), Wally Richard (Tenente Shreve), Iris Adrian (Mulher do Captitão Brown), James Seay (Oficial da Milícia Criola), Reginald Sheffield (Tripes), Stephen Chase (Coronel Butler), Julia Faye (Viúva à venda), Woody Strode (Toro), Paul Newlan (Capitão Flint), Norma Varden (Madame Hilaire), John Hubbard (Capitão Wilkes), Brad Johnson (Oficial de Foguetes), Harry Shannon (Tom Carruthers – Capitão do Corinthian), Henry Brandon (Major Inglês), Billie Lee Hart (Lizzie).