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Boxcar BerthaNa América dos anos 1930, no período da depressão, a órfã e rebelde Bertha Thompson (Barbara Hershey) vive uma vida livre, ao sabor das carruagens de comboio em que vai viajando clandestinamente. Nos caminhos de ferro conhece e enamora-se de Big Bill Shelly (David Carradine), um intempestivo sindicalista. Depois de várias aventuras, em que conhece o jogador de cartas Rake Brown (Barry Primus), Bertha comete o seu primeiro crime, a que se segue o de libertar da prisão Rake, Big Bill, e o amigo deste, o negro Von Morton (Bernie Casey). A partir daí o quarteto viverá uma onda de assaltos e fugas, onde protesto sindical se confundirá com simples crime.

Análise:

Já fora da universidade, Martin Scorsese conheceu Roger Corman, que lhe propôs que trabalhasse para si na independente American International Pictures (AIP). Corman, famoso produtor e realizador de filmes série B, habituara-se a realizar obras de algum vulto, com poucos meios, o que parecia a Scorsese uma excelente ideia. A sua estadia na AIP foi, por isso, uma boa forma de desenvolver novas técnicas, aprender mais sobre o seu ofício, bem como conviver com uma nova geração de realizadores (alguns também protegidos de Corman), os chamados “movie brats“, Francis Ford Coppola, Brian De Palma, George Lucas e Steve Spielberg, que marcariam a transição do cinema americano dos anos 1970.

Já perfeitamente integrado na contra-cultura americana do seu tempo, Scorsese acabara de fazer a montagem do filme-concerto “Woodstock – 3 Dias de Paz, Música e Amor” (Woodstock), realizado por Michael Wadleigh, e de realizar o documentário anti-guerra do Vietname, “Street Scenes”, ambos de 1970. Protestos, pacifismo, geração hippy, drogas, música rock e psicadelismo entravam assim no léxico de Scorsese afastando-o da sua Little Italy de tradicionalismo católico de raízes italianas.

Sob sugestão do mesmo Roger Corman, que adquirira os direitos do livro de Ben L. Reitman que contava a história da criminosa Bertha Thompson, Scorsese dispôs-se a filmar um violento filme de gangsters. Vindo após o filme de Corman “O Dia da Violência” (Bloody Mama, 1970), “Uma Mulher da Rua” é evocativo de “Bonnie e Clyde” (Bonnie and Clyde, 1967) de Arthur Penn, um filme célebre pela sua violência, e por nos dar a perspectiva amarga de um par de criminosos sem redenção possível.

Nas mãos de Scorsese, “Uma Mulher da Rua” é a história de uma mulher meio selvagem (Barbara Hershey) que, pouco habituada a regras, ou a uma educação convencional, vive livremente, viajando em comboios de carga, e convivendo com os trabalhadores dos caminhos de ferro que vai encontrando. É assim que conhece o activista sindical Big Bill Shelly (David Carradine), um dos seus amantes, e Rake Brown (Barry Primus), um jogador de cartas trapaceiro. Por eles, e com eles, Bertha não hesita em meter-se em sarilhos que vão desde matar, roubar, prostituir-se e agredir agentes da autoridade, numa vida que se torna cada vez mais uma fuga deliberada.

O filme é atravessado por uma dose de ingenuidade que nos faz ver o quarteto (ao trio citado juntando-se o personagem de Bernie Casey) um pouco vítima de um sistema de corrupção, abuso prepotência de quem beneficia com a Grande Depressão, mas também da parte de uma América atrasada, preconceituosa e racista. Liberdade (de utopias anárquicas ao simples espírito hippy da época) confunde-se com transgressão, e em breve ninguém sabe ao certo por que luta, com pretensas posições de protesto laboral a confundirem-se com simples assaltos à mão armada. Esse romantismo deslocado cria uma atmosfera de tragédia anunciada, em que a fuga para a frente dos inusitados anti-heróis não é mais que um adiar do final previsto às mãos da lei.

Esta, tão corrupta como abusiva, chegará na chocante sequência final, que inclui sangrentos tiroteios e uma exuberante crucificação, com Big Billy, espetado numa carrugem de comboio em movimento, numa das mais explícitas e ambíguas alusões de Scorsese ao imaginário cristão.

Scorsese consegue assim, com poucos meios, um filme visualmente bem mais exuberante que aquele da sua estreia, onde a sua imersão na contra-cultura, sob influência clara de Corman, o leva a cenas de extrema violência e alguma nudez (mesmo que sem a necessária coerência de argumento) que o classificam no campo da exploitation, e como uma má cópia do citado “Bonnie e Clyde”. Destacam-se ainda assim as interpretações sinceras do já experiente David Carradine, e da então muito jovem Barbara Hershey.

Consta que, depois de ter o filme pronto, Scorsese o terá mostrado ao seu amigo e realizador independente John Cassavetes, que o terá feito prometer a não mais trabalhar segundo a agenda de outros, mas sim a usar o talento para criar algo seu. O resultado não se faria esperar.

Produção:

Título original: Boxcar Bertha; Produção: American International Pictures (AIP); Produtores Executivos: Samuel Z. Arkoff, James H. Nicholson; País: EUA; Ano: 1972; Duração: 88 minutos; Distribuição: American International Pictures (AIP); Estreia: 14 de Junho de 1972 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: Roger Corman; Produtora Associada: Julie Corman; Director de Produção: Paul Rapp; Argumento: Joyce Hooper Corrington, John William Corrington [baseado no livro “Sister of the Road” de Ben L. Reitman; Música: Gib Guilbeau, Thad Maxwell; Fotografia: John M. Stephens; Montagem: Buzz Feitshans; Consultor Visual: David Nichols; Figurinos: Bob Modes.

Elenco:

Barbara Hershey (Bertha Thompson), David Carradine (Big Bill Shelly), Barry Primus (Rake Brown), Bernie Casey (Von Morton), John Carradine (H. Buckram Sartoris), Victor Argo (McIver #1), David Osterhout (McIver #2), Harry Northup (Harvey Hall), Ann Morell (Tillie Parr), Marianne Dole (Mrs. Mailler), Joe Reynolds (Joe Cox).

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