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Show PeopleO Coronel Pepper (Dell Henderson) e a sua filha Peggy (Marion Davies) viajam da Georgia até Hollywood, para satisfazer o capricho da rapariga em ser actriz de cinema. Peggy, uma milionária mimada, pensa que Hollywood se curvará à sua presença, mas cedo percebe que não é mais que uma, numa multidão de pretendentes a estrelas. Por sorte o comediante Billy Boone (William Haines) simpatiza com ela, e leva-a para ser figurante numa comédia nos Comet Studios. Peggy revela um talento natural, e dá nas vistas, sendo contratada por uma produtora de filmes dramáticos. Aí, entra na engrenagem do star system, com uma falsa biografia, um romance forçado com o seu par (e falso conde) Andre (Paul Ralli), com o qual planeia um casamento. Para trás fica Billy Boone, e os tempos em que tudo era mais grosseiro, mas mais real.

Análise:

King Vidor, um dos mais respeitados realizadores das primeiras décadas de Hollywood, realizava em 1928 uma comédia ligeira, que é uma homenagem e crítica ao cinema americano e à máquina que lhe estava por detrás. Célebre por inovadoras obras de grande fôlego como “A Grande Parada” (The Big Parade, 1925) e “A Multidão” (The Crowd, 1928), que se contam entre os mais reputados filmes dos anos 1920, Vidor teve aqui espaço para um filme mais leve, que noutras mãos poderia parecer banal, mas nas suas é uma obra deliciosa.

Tudo surgiu por mão do magnata da comunicação William Randolph Hearst, que na época investia em Holywood, na sua parceria com a MGM, e promovia a carreira da sua amante, a actriz Marion Davies. Davies, já com uma longa carreira, passaria ao lado da fama, sendo hoje mais recordada pela promoção de Hearst que pelos filmes que protagonizou, porventura uma consequência nefasta da própria pressão de Hearst, já que num filme como “Miragens”, Davies mostra apetrechos para ser levada a sério como actriz.

A história trata de uma jovem rica da Georgia, Peggy Pepper (Davies), que chega a Hollywood trazida pelo pai (Dell Henderson), esperando uma passadeira vermelha que a leve ao estrelato. Claro que a realidade é bem diferente, e Peggy é tratada como qualquer pretendente a figurante, com filas intermináveis e formulários inconsequentes para preencher. Por sorte conhece o comediante Billy Boone (William Haines), que por simpatia a leva aos Comet Studios, onde se filmam comédias burlescas. Pensando que vai para um cenário dramático, Peggy desespera ao ver que é tratada com água na cara e tartes a voar. Billy convence-a que, para triunfar, tem que se sujeitar a tudo, e Peggy torna-se famosa na comédia, cedo sendo procurada por uma grande produtora. Billy fica para trás, e Peggy, agora Patricia Pepoire emparceira com Andre (Paul Ralli), em dramas épicos, cheios de pompa e pouco coração. Com biografias falsas, e um romance para capas de revistas Peggy deixa-se levar pelas delícias do estrelato, esquecendo as suas raízes, e dispondo-se a casar com Andre, um falso conde, só pelo título. Só que Billy, ainda enamorado de Peggy não está disposto a deixá-la esquecer de onde veio, e o quanto ela se divertia numa vida mais simples mas mais verdadeira que aquela que agora leva.

Muito se tem escrito sobre as motivações do filme de Vidor, e é facto comum que parece inspirado na carreira de Gloria Swanson, ela própria uma actriz que começou no burlesco de Mack Sennett, um passado que a própria tentou negar, quando se tornou uma estrela de super-produções dramáticas, tendo inclusivamente casado com um falso nobre.

Seja essa semelhança deliberada ou não, o facto é que “Miragens” é um retrato brilhante de uma era, de uma forma de fazer cinema, e do star system que lhe estava subjacente. Através da carreira de Peggy podemos ver como eram feitas as estrelas, do seu início modesto, falsos sonhos e ilusões, até à plasticidade da fama para que eram moldadas, feita de histórias falsas e golpes de marketing, que incluíam até romances de fachada.

A par disso, vemos técnicas de filmagem, a construção de cenas cómicas, e o que se passava por trás das câmaras (muitos não saberão do uso de música ao vivo para criar ambiente para os actores nos filmes mudos). E claro, vemos o quanto a fama e o sucesso mudam a personalidade e objectivos das novas estrelas, tornando-as cada vez mais pessoas de capa de revista, distanciadas da realidade das suas próprias emoções.

Por tudo isto espanta como “Miragens” é, ao mesmo tempo, um retrato, uma sátira e ainda um spoof, quase parecendo um filme que anos mais tarde parodia o mudo, quando é na verdade um filme da própria época. Tal capacidade de análise distanciada é mais uma prova do engenho de Vidor, capaz de brincar e expor situações que conhecia melhor que ninguém.

Sem barreiras nem limites no seu humor, “Miragens” parodia tanto o burlesco como o grande drama, tanto os actores como as produtoras e o público. Ninguém parece escapar, e a própria Marion Davies (numa actuação a todos os níveis brilhante, quer nos exageros propositados da sua Peggy/Patricia, quer na subtileza com que vive os seus reais sentimentos), parodia-se a si própria, com um pequeno cameo como Marion Davies, ridicularizada por Peggy.

O filme é, aliás, famoso pelos inúmeros cameos e referências a actores famosos do seu tempo (Garbo, Gilbert, Pickford são nomeados várias vezes), com uma deliciosa cena em que Chaplin pede um autógrafo a Peggy, e um banquete de estrelas que inclui por ordem: Dorothy Sebastian, Louella Parsons, Estelle Taylor, Claire Windsor, Aileen Pringle, Karl Dane, George K. Arthur, Leatrice Joy, Renée Adorée, Rod La Rocque, Mae Murray, John Gilbert, Norma Talmadge, Douglas Fairbanks, Marion Davies e William S. Hart.

O próprio Vidor surge como ele próprio na sequência final, em que se filma um filme que poderia ser o já citado “A Grande Parada”, depois de termos visto no ecrã o seu filme “O Cavaleiro do Amor” (Bardelys the Magnificent, 1926), protagonizado por John Gilbert, actor aqui parodiado pelo Andre de Paul Ralli.

Curioso o facto de hoje, apesar dos seus inúmeros papéis dramáticos, Marion Davies ser conhecida quase só por este filme, uma comédia de tons burlescos, como se a vida imitasse a arte. Em mais uma semelhança entre arte e vida (esta decerto propositada), o filme termina com um longo beijo entre Peggy e Billy, em plena filmagem, que continua muito para além do grito “corta” do realizador. Era a homenagem ao mítico primeiro beijo entre Greta Garbo e John Gilbert, que passara para além da filmagem.

Destaque final para as sequências cómicas dos Comet Studios. Estas foram filmadas nos originais Keystone Studios de Mack Sennett, depois de este os ter trocado por novas instalações, e onde começaram as carreiras de Charles Chaplin, Fatty Arbuckle, Mabel Normand, Harold Lloyd e tantos outros.

Produção:

Título original: Show People; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / Cosmopolitan Productions; País: EUA; Ano: 1928; Duração: 75 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 11 de Novembro de 1928 (EUA), 12 de Fevereiro de 1931 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: King Vidor; Produção: Irving Thalberg [não creditado], King Vidor, Marion Davies; Argumento: Agnes Christine Johnston, Laurence Stallings, Wanda Tuchock (Continuidade), Ralph Spence (Intertítulos); Música: William Axt (original) Carl Davis (versão de 1982); Fotografia: John Arnold [preto e branco]; Cenários: Cedric Gibbons; Montagem: Hugh Wynn; Figurinos: Henrietta Frazer.

Elenco:

Marion Davies (Peggy Pepper / Patricia Pepoire), William Haines (Billy Boone), Dell Henderson (Coronel Pepper), Paul Ralli (Andre), Tenen Holtz (Director de Casting), Harry Gribbon (Realizador de Comédia), Sidney Bracey (Realizador de Dramas), Polly Moran (A Criada), Albert Conti (Produtor).

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