Etiquetas

, , , , , , , , , , , , ,

SeppukuSinopse:

Em Edo (antigo nome de Tóquio), em 1630, o ex-samurai Hanshirō Tsugumo (Tatsuya Nakadai) chega ao palácio do clã Iyi, onde pede ao seu senhor, Saitō Kageyu (Rentarō Mikuni), que lhe seja concedida a honra de praticar harakiri no seu pátio, o sacrifício cerimonial dos samurais, que lhe permita morrer com honra, ao invés de ter uma vida de miséria, depois de a casa que servia ter sido banida. Suspeitando que Tsugumo seja mais um dos samurais que procura palácios onde ameaçar o harakiri, só para que lhe dêem algum dinheiro, o senhor Kageyu testa-o, contando-lhe a história do pretenso samurai Motome Chijiiwa (Akira Ishihama), que meses antes chegou com o mesmo propósito, para depois tentar escapar. Só que, sem que Kageyu saiba, Motome Chijiiwa era genro de Tsugumo, que está ali por razões que vão além do simples suicídio.

Análise:

Quando, em 1962, Masaki Kobayashi realizou “Harakiri”, era já um realizador conceituado pela sua trilogia de filmes “A Condição Humana” (de 1959 a 1961), que lidava com o drama da guerra numa perspectiva pacifista. Continuando a explorar a sua veia humanista, seguiu essa trilogia com um Jidai-geki (filme de época da era dos samurais), baseado num romance de Yasuhiko Takiguchi.

A acção decorre em 1630, no período Edo (1603-1868), ou Xogunato Tokugawa, o último período feudal do Japão, numa altura em que o poder central se impunha sobre os senhores feudais. Com a eliminação desses clãs feudais, os samurais ao seu serviço passavam a não ter senhor, errando em busca de alguém a quem servir, mas na maioria dos casos dedicando-se ao roubo ou mendicidade.

“Harakiri” conta-nos a história de um desses ronin (samurais sem senhor), Hanshirō Tsugumo (Tatsuya Nakadai) que, chegado ao palácio do clã Iyi, pede que lhe seja concedida a honra de ali praticar harakiri. Tsugumo prefere um suicídio cerimonial que lhe permita morrer com honra, num pátio senhorial de respeito, a uma vida de pobreza e humilhação. Mas menos convencido, fica o senhor do palácio, Saitō Kageyu (Rentarō Mikuni), que recorda a Tsugumo a sacralidade do seu voto, e lhe conta uma história de um harakiri que não correu como esperado.

Em flashback vemos como Motome Chijiiwa (Akira Ishihama) se dirigiu ao clã Iyi com o mesmo propósito, mas levava espada de bambu. Como Kageyu suspeitou que Motome fosse mais um daqueles que apenas ameaçavam harakiri para forçar uma esmola, negou-lhe o pedido de se ausentar por dois dias, e forçou-o a cometer um suicídio bem mais difícil e doloroso com a espada de bambu.

Tsugumo garante que não será demovido, mas pede para seu assistente (aquele que dá o golpe final depois de o suicida se esventrar), sucessivamente, três dos homens de Kageyu, cada um deles indisponível. Enquanto espera, Tsugumo conta a sua história. Em novos flashbacks, vemos como se tornou tutor do jovem Motome Chijiiwa após o suicídio do pai deste, e como o educou e deu em casamento à sua filha Miho (Shima Iwashita), e deles teve um neto, numa vida humilde mas feliz. Quando a doença atacou Miho e o filho, sem outro recurso, Motome saiu para trazer dinheiro, não tendo mais voltado. Tsugumo percebe então que Motome provocou um suicídio que não teve honra, pois foi feito com uma espada de bambu, porque ele já tinha vendido a sua para ajudar a família, e foi forçado por quem não lhe permitiu sequer visitar a família. Conta de seguida que os três samurais indisponíveis o estão por ele os ter derrotado em combate, vingando o que causaram a Motome. Mas não é apenas vingança que Tsugumo deseja, a morte honrosa que procura será obtida em combate com os homens de Kageyu.

Com um tema tão tradicionalmente japonês, “Harakiri” (palavra que significa cortar a barriga, e que é o nome popular dado ao acto sagrado Seppuku) é um filme que choca facilmente as mentalidades ocidentais, que não poderão nunca ter a certeza de lhe ter compreendido todas as nuances. É certo que o filme trata de honra e vingança, sentimentos universais, e presentes em tantas outras obras. Mas as motivações não são sempre aquelas a que estaríamos habituados.

Assim começamos com a honra samurai de preferir um suicídio tradicional a uma vida sem glória. Uma atitude tipicamente japonesa, e que tanto deu que falar aquando do confronto bélico que foi a Segunda Guerra Mundial. Este é o tema transversal à obra (e o seu título), e vemos como o antigo senhor de Tsugumo o cometeu, quando a sua casa foi derrotada, tal como Jinai Chijiiwa (Yoshio Inaba), oficial da mesma casa, braço direito de Tsugumo e pai de Motome. O próprio Tsugumo só não o terá feito por promessa feita de cuidar de Motome. Sabemos depois que os samurais errantes o praticam quando não vêem esperança de servir novo senhor. E testemunhamos, nas palavras dos protagonistas, a vergonha que é um samurai usar o nome sagrado do suicídio apenas para pedir esmola. Temos por fim o exemplo do próprio Tsugumo que, apesar de movido por vingança, sabe que deve morrer no final como única saída honrosa.

Exemplo é também o cerimonial de Motome, onde aprendemos os preceitos do acto, e tudo aquilo que é vergonhoso fazer ou não fazer. Novo exemplo dessa honra samurai são os cortes dos rabichos, modo como Tsugumo envergonha os seus três oponentes, derrotados em duelo, mas não mortos. De rabicho cortado, eles recusam deixar-se ver em público.

Por fim, exemplo final dessa luta pela honra, fica a decisão do chefe do clã. Kageyu decreta que se informe que Tsugumo morreu num harakiri pacífico, e que os samurais mortos em combate por Tsugumo sejam declarados mortos por doença. Esta “doença” será extensível aos três samurais que Tsugumo humilhara previamente, e que serão agora sumariamente executados para que essa humilhação não seja conhecida. É um cortar do mal pela raiz, que para Kageyu é a única forma de proteger o nome do seu clã, eliminando todas as possíveis fontes de vergonha. Esse gesto é acompanhado pelo reconstituir da figura sagrada dos seus antepassados, cuja armadura Tsugumo deitara ao chão.

Tão ocos como essa armadura são os ideiais do clã, e com ele, de todo o feudalismo que Kobayashi ataca. De facto “Harakiri” não é mais que uma exposição de hipocrisia de uma época e modo de vida. Do desperdício de vidas por orgulhos incompreensíveis, à crueldade de um acto que retira um pai a uma família em sofrimento, como no caso de Motome, até à hipocrisia final de um clã (e um regime), que vive sobre falsas pretensões de honra e dignidade, tudo no filme aponta para um ataque frontal de Kobayashi, e no qual se podem ler críticas ao seguidismo sem autocrítica, de que o Japão seu contemporâneo poderia estar no momento a viver.

De notar que a morte de Tsugumo ocorre quando, após ter sobrevido a tantos samurais de lança e espada, é atingido por armas de fogo, numa alegoria da morte do velho Japão aos pés de um novo mundo onde novas armas (nucleares) ditam as realidades. Acrescente-se que as espadas usadas no filme eram verdadeiras, o que incomodou um pouco Tatsuya Nakadai, um não especialista, ao contrário dos figurantes que o defrontam, todos treinados na arte de combate com espada.

Apesar de um tema tão negro, Masaki Kobayashi compõe um filme fascinante. Filmado com grande austeridade (tanto de interpretações, como de cenários, como ainda de movimentos de câmara), “Harakiri” impõe-se pela tensão criada desde o primeiro plano frequentemente filmando os protagonistas pelas costas, e deixando o diálogo passar da primeira pessoa para a terceira em cortes inesperados), pela contínua surpresa de uma história que, sempre que parece sempre estar terminada abre a porta para um novo motivo de interesse, pela força de cada plano (tanto de interiores como de exteriores), e claro, pela brilhante interpretação de Tatsuya Nakadai. Então com apenas 29 anos, Nakadai demonstra uma incrível maturidade, capaz de transmitir grande número de emoções em leves mudanças de tom de voz, ou de expressões de rosto. Aliando serenidade e intensidade, a sua interpretação torna-o um dos grandes actores japoneses da altura, como seria salientado nalgumas das obras seguintes de Akira Kurosawa.

Apesar de um tema tão negro, Masaki Kobayashi compõe um filme fascinante. Filmado com grande austeridade (tanto de interpretações, como de cenários, como ainda de movimentos de câmara), “Harakiri” impõe-se pela tensão criada desde o primeiro plano. Frequentemente filmando os protagonistas pelas costas, e deixando o diálogo passar da primeira pessoa para a terceira em cortes inesperados, Kobayashi surpreende-nos constantemente, com uma história aparentemente simples que, sempre que parece estar terminada, abre a porta para um novo motivo de interesse. Destaca-se a força de cada plano (tanto de interiores como de exteriores), e claro, a brilhante interpretação de Tatsuya Nakadai. Então com apenas 29 anos, Nakadai demonstra uma incrível maturidade, capaz de transmitir grande número de emoções em leves mudanças de tom de voz, ou de expressões de rosto. Aliando serenidade e intensidade, a sua interpretação torna-o um dos grandes actores japoneses da altura, como seria salientado nalgumas das obras seguintes de Akira Kurosawa.

“Harakiri” concorreu no Festival de Cannes de 1963, tendo recebido o Prémio Especial do Juri. O filme foi objecto de um remake recente, “Hara-Kiri: Death of a Samurai” (Ichimei, 2011) realizado por Takashi Miike.

Produção:

Título original: Seppuku; Produção: Shochiku Eiga; País: Japão; Ano: 1962; Duração: 132 minutos; Distribuição: Shochiku Eiga; Estreia: 16 de Setembro de 1962 (Japão).

Equipa técnica:

Realização: Masaki Kobayashi; Produção: Tatsuo Hosoya; Produtores Assistentes: Gin’ichi Kishimoto, Tsugio Saitô; Argumento: Shinobu Hashimoto, Yasuhiko Takiguchi [baseado no livro “Ibun rônin ki” de Yasuhiko Takiguchi]; Fotografia: Yoshio Miyajima [preto e branco]; Montagem: Hisashi Sagara; Figurinos: Mitsuzō Ueda; Direcção Artística: Junpei Oosumi, Shigemasa Toda; Cenários: Zenichi Tajiri; Música: Tōru Takemitsu; Coreografia de Combate: Hideki Kato.

Elenco:

Tatsuya Nakadai (Hanshirō Tsugumo), Rentarō Mikuni (Saitō Kageyu), Akira Ishihama (Motome Chijiiwa), Shima Iwashita (Miho Tsugumo), Tetsurō Tanba (Hikokuro Omodaka), Masao Mishima (Tango Inaba), Ichiro Nakatani (Hayato Yazaki), Kei Sato (Masakazu), Yoshio Inaba (Jinai Chijiiwa), Hisashi Igawa (Soldado), Tôru Takeuchi (Soldado), Yoshiro Aoki (Umenosuke Kawabe), Tatsuo Matsumura, Akiji Kobayashi, Kōichi Hayashi, Ryûtarō Gomi [como Katsuo Gomi], Jō Azumi (Ichiro Shimmen).

Anúncios