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YojimboSinopse:

No século XIX, no Japão, Sanjuro Kuwabatake (Toshiro Mifune), um ronin (samurai sem senhor), chega a uma aldeia que é vítima da rivalidade entre as famílias ambiciosas. As famílias de Seibei (Seizaburo Kawazu) e Ushitora (Kyū Sazanka) exploram o vício do jogo e controlam as principais actividades económicas, mantendo os cidadãos como seus escravos. Sanjuro decide então intervir, lançando uma série de armadilhas e intrigas nas quais coloca constantemente os dois bandos um contra o outro. Mas se tudo começa como planeado, a chegada de Unosuke (Tatsuya Nakadai), irmão de Ushitora, que traz consigo uma pistola, vai pôr em perigo o plano de Sanjuro.

Análise:

Continuando a mostrar ser o grande mestre do Jidai-geki (filmes de época, com histórias de samurais), Akira Kurosawa juntou ao seu curriculum um dos mais ocidentais filmes do género, “Yojimbo, o Invencível”, a partir de uma história sua, segundo o próprio, inspirada no livro de Dashiel Hammett “The Glass Key”, e com grandes semelhanças com “Red Harvest”, do mesmo autor.

Onde, nesta história do escritor de Noir, o herói é um detective privado numa selva urbana dilacerada por bandos rivais, o herói de Kurosawa vive no Japão de 1860, durante a queda o Xogunato Tukogawa, quando os samurais se encontravam sem senhor a quem servir, seguindo apenas os seus próprios interesses.

Um destes samurais sem senhor (ou ronin) é Sanjuro Kuwabatake (Toshiro Mifune), que nas suas deambulações depara com uma pequena aldeia, em tempos próspera pelo comércio de seda, mas agora amordaçada pela luta pelo poder de duas famílias rivais, que mantêm o seu povo escravizado pelo jogo. De um lado está Seibei (Seizaburo Kawazu), antigo senhor incontestado da aldeia, dono do bordel, e que domina Tazaemon (Kamatari Fujiwara), o mercador de seda. Do outro está Ushitora (Kyū Sazanka), antigo número dois de Seibei, e que tem no bolso Tokuemon (Takashi Shimura), o fabricante de sake. Os dois vão contratando tantos guarda-costas quanto podem (os chamados yojimbos), para tentar suplantar o rival, mantendo a aldeia vítima desta guerra surda.

Ao chegar, Sanjuro, tendo por único aliado o taverneiro Gonji (Eijirō Tōno), vai traçar um plano de pôr as duas famílias uma contra a outra. Para isso finge deixar-se aliciar por cada um dos lados, que o sabem o melhor samurai de toda a aldeia, para logo os deixar, plantando intrigas no seio de cada casa, de modo a precipitar combates que as fragilizem.

O seu plano desaba com a chegada de Unosuke (Tatsuya Nakadai), irmão mais novo de Ushitora, que usa pistola em vez de espada, arruinando alguns dos planos de Sanjuro, e descobrindo os seus propósitos, prendendo-o e torturando-o. Sempre com a ajuda do taverneiro, Sanjuro vai, no entando, mostrar-se o mais inteligente, e o mais hábil, conseguindo com a lâmina suplantar a pistola de Unosuke.

Com uma linguagem visual ocidentalizada (não esquecendo a música de Masaru Satō que, afastando-se o máximo possível da habitual música tradicional dos dramas de época japoneses, se inspirava, segundo o próprio compositor, em Henri Mancini), e um humor negro muito peculiar, não é necessária muita imaginação para reconhecer neste épico de Kurosawa, muitas das imagens de marca do antigo western americano. A chegada à aldeia, onde uma rua com duas filas de casas que se fecham perante o intruso e onde corre um vento poeirento permanente, é bastante ilustrativa. Como inesquecível é a passagem do cão com uma mão humana na boca, sinal suficiente de que chegámos a uma terra sem lei. Temos depois a exposição do oficial da lei corrupto, nas mãos de quem lhe pagar mais, e claro, o taverneiro como única voz amiga.

Com esta base de fundo, Kurosawa, num filme filmado com brilho e intensidade, cria a figura do herói solitário, sem passado nem história, que chega como um furacão, não deixando nada como estava antes da sua passagem. Ele é um homem que obedece a uma conduta pessoal, seguindo apenas os seus princípios, sobre os quais só aprendemos através da sua acção. É por essa acção que vemos que não é o dinheiro que o move, já que dele abdica várias vezes, e que, embora fale contra a fraqueza dos outros, comove-se e ajuda os mais fracos, como o agricultor que se reunirá à mulher que lhe fora roubada, e o próprio taverneiro, castigado por o ajudar.

Como não podia deixar de ser, para interpretar tão forte personagem, Kurosawa confiou o papel ao seu herói, Toshiro Mifune. Aqui menos exuberante que noutros filmes, Mifune não é por isso menos intenso. Com esgares e trejeitos muito próprios, Toshiro Mifune cria um personagem icónico, que prende cada plano e carrega o filme às costas com cada movimento.

Tal carisma e iconografia não passariam despercebidos dos autores ocidentais, que viram em “Yojimbo, o Invencível” um paradigma a imitar, sobretudo no campo do Western. O mito do herói solitário, sem agenda, de poucas palavras, expressando-se sobretudo pela sua acção, aparentando rudez e impenetrabilidade, mas capaz de gestos de compaixão, passou a dominar o imaginário dos filmes de heróis.

Apesar de ter sido considerado, nalguns locais, demasiado violento, “Yojimbo, o Invencível” foi um sucesso tanto no Japão como no Ocidente, inspirando inúmeros filmes. Acima de todos, destaca-se Sergio Leone com a sua trilogia dos Dólares, iniciada com “Por Um Punhado de Dólares” (Per un pugno di dollari, 1964) e com Clint Eastwood na pele do herói sem nome (note-se que Sanjuro Kuwabatake é um nome inventado no momento pelo herói de Kurosawa, fazendo-o por isso também um herói sem nome, como aliás o protagonista do citado livro de Dashiell Hammett), e que viria a marcar todos os westerns que se seguiram. Tão evidentes semelhanças, sem autorização de Kurosawa, levaram mesmo a que o filme sofresse de problemas legais. Adaptação autorizada seria aquela de Walter Hill, com o filme sobre a era da Proibição norte-americana, “O Último a Cair” (Last Man Standing, 1996), protagonizado por Bruce Willis (cujo personagem, também de nome desconhecido, é chamado apenas John Smith).

O próprio Kurosawa voltaria a este tema e personagem, no seu filme seguinte “Sanjuro” (Tsubaki Sanjūrō, 1962), também ele com Toshiro Mifune, e o vilão Tatsuya Nakadai, o qual se tornaria um actor importante nos filmes seguintes de Kurosawa.

Produção:

Título original: Yōjinbō; Produção: Kurosawa Production Co. / Toho Company; Produtores Executivos: Tomoyuki Tanaka, Ryūzō Kikushima; País: Japão; Ano: 1961; Duração: 110 minutos; Distribuição: Toho Company (Japão), Seneca Productions (EUA); Estreia: 25 de Abril de 1961 (Japão), 8 de Julho de 1969 (Cinema Estúdio, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Akira Kurosawa; Produção: Akira Kurosawa; Argumento: Ryūzō Kikushima, Akira Kurosawa [segundo uma história de Akira Kurosawa]; Fotografia: Kazuo Miyagawa [preto e branco]; Música: Masaru Satō; Design de Produção: Yoshiro Muraki; Montagem: Akira Kurosawa; Figurinos: Yoshiro Muraki; Direcção de Produção: Hiroshi Nezu.

Elenco:

Toshiro Mifune (Sanjuro Kuwabatake, O Samurai), Eijirō Tōno (Gonji, Taverneiro), Seizaburo Kawazu (Seibei, Dono do Bordel), Isuzu Yamada (Orin, Mulher de Seibei), Kyū Sazanka (Ushitora), Daisuke Katō (Inokichi, Irmão Gordo de Ushitora), Takashi Shimura (Tokuemon, Fabricante de Sake), Ikio Sawamura (Hansuke, O Oficial de Justiça), Kamatari Fujiwara (Tazaemon, O Mercador de Seda), Atsushi Watanabe (O Tanoeiro, Fabricante de Caixões), Yoko Tsukasa (Nui, Mulher de Kohei), Tatsuya Nakadai (Unosuke, Irmão de Ushitora, O Pistoleiro), Hiroshi Tachikawa (Yoichiro, Filho de Seibei), Yosuke Natsuki (Filho de Kohei), Susumu Fujita (Homma, Instrutor Que Foge), Kō Nishimura (Kuma), Takeshi Katō (Ronin Kobuhachi), Ichiro Nakatani (Primeiro Samurai), Sachio Sakai (Primeiro Soldado a Pé), Akira Tani (Kame), Namigoro Rashomon (Kannuki, O Gigante), Yoshio Tsuchiya (Kohei), Gen Shimizu (Magotaro), Yutaka Sada (Matsukichi), Shin Otomo (Kumosuke), Shôichi Hirose (Homem de Ushitora), Hideyo Amamoto (Yahachi), Shoji Oki (Sukeju), Fuminori Ôhashi (Segundo Samurai).

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