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NobiSinopse:

Nas Filipinas, no início de 1945, a ofensiva americana obriga à retirada japonesa. Tamura (Eiji Funakoshi) é um soldado entre tantos que estão sem rumo ou objectivo, perante a derrota das suas tropas. Expulso do seu batalhão como doente, para ser uma boca a menos para comer, não aceite no hospital, por não estar suficientemente doente, Tamura vai errando pela ilha de Leyke, encontrando companheiros, partilhando ou disputando comida, e assistindo a modos ilícitos desta partilha, medos e desesperos, crime, loucura e até canibalismo. Em modo automático, Tamura apenas se quer reunir às tropas que estão a retirar por mar, mas a sua viagem é infindável, e cheia de eventos que o fazem perder toda a esperança no ser humano.

Análise:

Para muitos, assunto tabu durante a década de 1950, a Segunda Guerra Mundial foi abordada de frente, na obra “Fogo na Planície” de Kon Ichikawa, o mesmo realizador que já antes realizara o manifesto anti-guerra, “The Burmese Harp” (Biruma no tategoto, 1956). Baseado no livro homónimo de Shōhei Ōoka, e com argumento da própria esposa de Ichikawa, “Fogo na Planície” foi muito polémico, sendo mesmo considerado repulsivo, no momento da sua estreia, por abordar um tema doloroso, e fazê-lo de modo tão cru e violento. Mas Ichikawa, um antigo desenhador, que crescera fascinado com o cinema da Disney e de Chaplin, empenhara-se em histórias realistas e dolorosas nos anos 1950, que viriam só mais tarde a ser consideradas pela crítica.

A acção leva-nos ao início de 1945, em plena Segunda Guerra Mundial. Assiste-se já ao rápido declínio do Império Japonês, com uma acelerada e não concertada retirada dos muitos territórios insulares ocupados, perante a triunfante ofensiva norte-americana. Exemplo é a ilha de Leyke, no arquipélago filipino, onde conhecemos o protagonista do filme, Tamura (Eiji Funakoshi).

Tamura acaba de ser rejeitado pelo comandante do seu batalhão, pois a sua saúde débil (sofre de tuberculose) impede-o de cavar trincheiras, sendo apenas mais uma boca para alimentar. Num momento em que tudo escasseia, principalmente a comida, Tamura é enviado com um objectivo, fazer-se acolher pelo hospital de campanha, ou suicidar-se com uma granada. No hospital, Tamura é de novo rejeitado, pois não está tão doente que não possa caminhar.

A partir de então Tamura vai errar pela ilha em busca de algo, que nem o próprio sabe o que será. Vai alinhar com grupos de soldados errantes como ele, partilhar comida, procurar mais comida, visitar aldeias abandonadas, ver a loucura e desespero dos seus colegas, assistir a bombardeamentos americanos, e sobretudo sobreviver.

O filme torna-se uma espécie de viagem pela loucura, e pelo desespero da guerra. Nele Tamura vê terras desoladas, destruição e corpos amontoados. Vê soldados que tentam enganar os outros, vendendo tabaco a troco de comida. Ouve de um plano de retirada, onde todos serão salvos, sonha com uma rendição pacífica, e assiste ao recurso ao canibalismo, onde homens são capazes de matar o seu próximo para sobreviver mais um dia.

Acompanhando durante algum tempo os companheiros Nagamatsu (Mickey Curtis) e Yasuda (Osamu Takizawa), Tamura vai testemunhar o quão baixo pode levar a degradação humana, mas, ao mesmo tempo, vai lutar com as poucas forças que lhe restam, para manter alguma da sua dignidade e princípios. A sua frase final de que não se importa de morrer desde que consiga ainda ver pessoas que vivem vidas normais, é exemplificativa do poder emocional transmitido no filme.

Filmado em cenários naturais (quase todo o filme é rodado ao ar livre) e com uma fotografia que transmite extrema desolação, “Fogo na Planície” choca pelo seu realismo, pelo modo como não esconde nenhum dos efeitos da guerra, doença, morte, escassez, fome, crime, e sobretudo esse citado desespero, presente em cada rosto, em cada palavra, em cada gesto.

Tal foi o realismo exigido por Ichikawa, que os actores passaram privações (que de comida quer de higiene) para melhor interpretarem e sentirem os seus personagens. Um caso extremo terá sido o próprio Eiji Funakoshi, que se privava de comer, sem que a equipa de produção soubesse, levando-o a um colapso que interrompeu as filmagens durante semanas.

Funakoshi é, aliás, soberbo na interpretação do protagonista, cujo olhar já apagado e distante constitui logo o primeiro plano do filme. Desde aí, como se estivéssemos na presença de um fantasma, sentimo-nos arrastados numa viagem a um inferno que não queremos que seja real. Mas fazemo-lo sentindo compaixão por Tamura e um certo sentido poético, na sua atitude resignada, mas ainda assim com uma réstea de bondade e esperança, patentes na sua narração em off.

“Fogo na Planície” é hoje considerado um dos mais realistas filmes de guerra já filmados, tendo recebido vários prémios internacionais, e continuando a chocar pela força das suas imagens.

Produção:

Título original: Nobi; Produção: Daiei Studios / Kadokawa Herald Pictures; País: Japão; Ano: 1959; Duração: 104 minutos; Distribuição: Daiei Eiga; Estreia: 3 de Novembro de 1959 (Japão).

Equipa técnica:

Realização: Kon Ichikawa; Produção: Masaichi Nagata; Argumento: Natto Wada [baseado no livro de Shōhei Ōoka]; Fotografia: Setsuo Kobayashi, Setsuo Shibata [preto e branco]; Música: Yasushi Akutagawa; Design de Produção: Atsuji Shibata; Montagem: Tatsuji Nakashizu; Direcção de Produção: Asao Kumada.

Elenco:

Eiji Funakoshi (Tamura), Osamu Takizawa (Yasuda), Mickey Curtis (Nagamatsu), Mantaro Ushio (Sargento), Kyû Sazanka (Cirurgião Militar), Yoshihiro Hamaguchi (Oficial), Asao Sano (Soldado), Masaya Tsukida (Soldado), Hikaru Hoshi (Soldado).