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Kumonosu-jōSinopse:

Depois de assegurarem uma vitória ao senhor feudal do Castelo das Teias de Aranha, Taketoti Washizu (Toshiro Mifune) e Yoshiaki Miki (Minoru Chiaki) são chamados para serem recompensados. No caminho, os dois samurais perdem-se na floresta, indo ter a uma clareira onde encontram um fantasma. Este prediz que Washizu será feito Senhor da Guarnição Norte, e mais tarde se tornará senhor do castelo, e que Miki será feito Comandante da Primeira Fortaleza e mais tarde o seu filho será senhor do castelo. Os dois saem incrédulos, mas quando o seu senhor (Takamaru Sasaki) os promove aos postos preditos, Washizu passa a acreditar na profecia. Instigado pela esposa (Isuzu Yamada), Washizu teme que outros tenham ciúmes da sua profecia e o tentem matar. Movido por ambição, intriga e desconfiança, Washizu vai abrir o caminho para o trono do castelo, mesmo que tenha que matar aqueles que nele confiavam, e que passe a viver atormentado pelo fantasma da traição.

Análise:

Com um título original que literalmente significa “O Castelo das Teias de Aranha”, este “Trono de Sangue”, produzido pela nova companhia de Akira Kurosawa, é mais um dos seus célebres jidai-geki (filmes de época passados na era ds samurais). Kurosawa usou desta vez como inspiração a tragédia de Shakespeare “MacBeth”, para construir uma história de traição e paranóia, numa metáfora sobre a ambição e o poder.

Com Toshiro Mifune, Takashi Shimura e Minoru Chiaki (três dos sete samurais do filme homónimo) nos papéis masculinos principais, Kurosawa transpõe o drama escocês de Shakespeare para um cenário feudal japonês, num época em que senhores locais reinavam a a partir de castelos que mudavam de mãos sempre que novo equilíbrio de poderes resultava dos seus vassalos. Mas ao contrário do realismo sugerido por “Os Sete Samurais” (Sinchinin no samurai, 1954), em “Trono de Sangue” reina uma atmosfera irreal, de florestas encantadas, nevoeiros fantasmagóricos, espíritos malignos, espaços fechados e interpretações estilizadas, evocativas no teatro Nô japonês. Inspirada na tradição japonesa é também a caracterização da actriz principal, Isuzu Yamada, que usa as práticas “hikimayu” (remoção de sobrancelhas para as substituir por uma pintura esborratada a meio da testa) e “ohaguro” (dentes pintados de negro) para compor o seu personagem.

Na estilização referida, como não poderia deixar de ser, destaca-se o mais visceral dos actores japoneses, Toshiro Mifune, que nos transmite, do seu modo único, toda a sua convulsão interior. Esta é provocada por aparições, sonhos, medos, e ambições nascentes, em muito alimentadas pela esposa, uma interpretação inesquecível de Isuzu Yamada, que num jeito fortemente dramático vai declamando ao ouvido do marido toda a perfídia que condicionará a sua acção.

Tudo começa após a vitória do senhor do castelo, Tsuzuki (Takamaru Sasaki), sobre os seus inimigos, muito graças às vitórias em batalha de Taketoki Washizu (Toshiro Mifune) e Yoshiaki Miki (Minoru Chiaki). Washizu e Miki são então chamados ao castelo para serem homenageados, mas perdem-se na floresta, indo ter com um estranho fantasma (Chieko Naniwa), sentado a fiar. O fantasma faz a previsão de que Washizu será promovido a Senhor da Guarnição Norte, e mais tarde se tornará senhor do castelo, e que Miki será promovido a Comandante da Primeira Fortaleza e mais tarde o seu filho será senhor do castelo. Os dois saem incrédulos, mas a primeira parte da profecia cumpre-se, ao chegarem perante o seu senhor feudal.

Na sua fortaleza, Washizu (ou seja, o shakespeariano MacBeth) vive atormentado pela profecia, uma vez que não deseja o trono do castelo, vendo qualquer revolta como uma traição. É a sua mulher (Isuzu Yamada no papel de Lady MacBeth) que o instiga, convencendo-o de que Miki terá já contado a profecia ao senhor Tsuzuki, o qual se moverá contra si para o eliminar como ameaça. Movimentações de tropas junto à fortaleza sobressaltam Washizu, revelando-se que Tsuzuki tenciona usar a fortaleza como base num ataque a inimigos e pretende que Washizu comande o ataque.

Washizu vê essa nomeação como mais uma prova de confiança do seu senhor, mas a esposa mais uma vez convence-o de que é uma forma de o enviar para a morte. Nessa noite Washizu envenena os guardas de Tsuzuki e mata-o, culpando o braço direito do seu senhor, o velho general Noriyasu (Takashi Shimura). Com o corpo de Tsuzuki, Washizu entra no castelo, onde é recebido por Miki. Perante o conselho, Washizu é feito senhor do castelo, e o filho de Miki (Akira Kubo) é nomeado seu sucessor, tal como a profecia dissera.

Washizu está agora satisfeito com uma profecia que se torna realidade, mas a esposa confessa estar grávida, e que devia ser o seu filho a sucedê-lo. Convence-o então que tudo foi um plano de Miki para mais tarde o assassinar. Quando Miki e o filho faltam a uma festa, por um acidente com um cavalo, Washizu toma isso como prova de conspiração, e enlouquecido por nova aparição do fantasma, vai matar Miki, provocando a fuga do filho deste, que agora se junta a Noriyasu e aos antigos inimigos do castelo.

Por fim, após nova aparição fantasmagórica na floresta, é a profecia final (“Não perderás uma batlha até que a floresta ataque o castelo”), que Washizu vê como principal motivação para os seus homens acerca da sua invencibilidade. Ironicamente é essa revelação que, quando os inimigos avançam protegidos por árvores cortadas (num plano de belíssimo efeito), que os homens de Washizu perdem a esperança e o matam. Fica célebre a morte dramática de Washizu, cravado de flechas enquanto luta ainda contra a sua demência, não percebendo que foi ele o causador da sua queda (as flechas eram verdadeiras, e os arqueiros tinham que saber para que lado Mifune se movia, para não o atingirem de verdade). O estilo operático dessa cena é ilustrativo de todo o filme, o qual é uma exposição de estados de espírito rovoltos, de paranóia, medo, e tanto daquilo que traz ao de cima o pior do ser humano.

Começando com uma das suas habituais cenas de chuva torrencial (figura de Kurosawa para nos transmitir a negatividade que se avizinha), “Trono de Sangue” é filmado quase integralmente em estúdio (excluindo as cenas do exterior do castelo, que foi construído no Monte Fuji, local escolhido pelo seu nevoeiro natural e aspecto desolado). Quer seja a floresta, com a sua noite e nevoeiro fantasmagóricos, quer nos interiores austeros e minimalistas das várias salas, é quase sempre nestes espaços que a acção decorre. Kurosawa evita filmar batalhas, ou as mortes principais, para nos confinar às intrigas palacianas, onde os estados de espírito, mudanças de atitude e explanação de intenções ganham preponderância, num fundo e espaço cénico puramente teatral. Mantém-se assim a desejada unidade shakespeariana com toda a força a surgir das interpretações, e não da acção (que quase sempre nos é transmitida pela chegada de mensageiros).

Também evocativo da iconografia teatral é o papel do coro. Seja aquele extra-diegético, que, em off, no início dá o mote e no final a conclusão, seja o diegético, dos quatro samurais de Washizu, que em vários momentos do drama, resumem os acontecimentos, em conversas que não são mais que um pontuar narrativo.

Por tudo isso, sendo um filme intenso e ao mesmo tempo austero, “Trono de Sangue” tem sido elogiado por críticos de todo o mundo, que o consderam mesmo uma das mais fortes adaptações de sempre da peça de Shakespeare, apesar das suas evidentes liberdades.

Produção:

Título original: Kumonosu-jō; Produção: Toho Company / Kurosawa Production Co.; País: Japão; Ano: 1957; Duração: 109 minutos; Distribuição: Toho Company; Estreia: 15 de Janeiro de 1957 (Japão).

Equipa técnica:

Realização: Akira Kurosawa; Produção: Akira Kurosawa, Sōjirō Motoki; Argumento: Hideo Oguni, Shinobu Hashimoto, Ryūzō Kikushima, Akira Kurosawa [inspirado na peça “MacBeth” de William Shakespeare]; Fotografia: Asakazu Nakai [preto e branco]; Design de Produção: Yoshirō Muraki; Montagem: Akira Kurosawa; Música: Masaru Satō; Direcção de Produção: Hiroshi Nezu; Figurinos: Taiki Mori; Caracterização: Masanori Kobayashi; Efeitos Especiais: Eiji Tsuburaya [não creditado].

Elenco:

Toshiro Mifune (Taketoki Washizu), Isuzu Yamada (Lady Asaji Washizu), Takashi Shimura (Noriyasu Odagura), Akira Kubo (Yoshiteru Miki), Hiroshi Tachikawa [como Yōichi Tachikawa] (Kunimaru Tsuzuki), Minoru Chiaki (Yoshiaki Miki), Takamaru Sasaki (Grande Senhor Kuniharu Tsuzuki), Gen Shimizu, Kuninori Kōdō (Comandante Militar), Kichijirō Ueda (Empregado de Washizu), Eiko Miyoshi (Velha no Castelo), Chieko Naniwa (Fantasma), Nakajirō Tomita (Segundo Comandante Militar), Yu Fujiki (Samurai de Washizu), Sachio Sakai (Samurai de Washizu), Shin Otomo (Samurai de Washizu), Yoshio Tsuchiya (Samurai de Washizu), Yoshio Inaba (Terceiro Comandante Militar).

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