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Family PlotEm 1976 estreava aquele que seria o último filme da longa carreira de Alfred Hitchcock. Continuando na Universal, Hitchcock filmava um thriller criminal em tom de comédia, baseado no livro Victor Canning “The Rainbird Pattern”, e com argumento de Ernest Lehman. Contando pela primeira e única vez com música de John Williams (antes de este atingir o estrelato), num filme seu, como actores, Hitchcock tinha consigo um quarteto mais habituado à televisão que ao grande ecrã: Karen Black, Bruce Dern, Barbara Harris e William Devane. É verdade que Alfred Hitchcock se encontrava já debilitado pela doença quando dirigiu este filme, mas nem por isso pensava ainda que seria o seu último. A decisão de não voltar a filmar viria mais tarde.

Sinopse:

Blanche Tyler (Barbara Harris) é uma falsa médium, que se aproveita da boa fé das suas clientes, geralmente idosas. Quando uma delas (Cathleen Nesbitt) decide procurar o sobrinho abandonado em bebé, promete a Blanche 10 000 dólares se o conseguir. Blanche e o seu namorado e cúmplice, George Lumley (Bruce Dern), vão então fazer de detectives, chegando, com risco da própria vida a Arthur Adamson (William Devane), que faz tudo para não ser encontrado. É que Adamson e a sua namorada e cúmplice, Fran (Karen Black) são criminosos que raptam figuras importantes para obterem valiosos diamantes como resgate.

Análise:

“Intriga em Família” ficou na história do cinema como o último filme dos 53 realizados por Alfred Hitchcock (contando com o filme perdido “The Mountain Eagle” de 1926). Não era, na mente do realizador a sua despedida, uma vez que, terminado este filme, se dedicou a preparar o argumento de um próximo, de título “‘The Short Night”, que nunca chegou a ver a luz do dia. Hitchcock encontrava-se já doente, o que terá afectado a produção de “Intriga em Família”.

Com base no livro “The Rainbird Pattern” de Victor Canning, Hitchcock entregou o argumento a Ernest Lehman, com quem já trabalhara em “Intriga Internacional” (North by Northwest, 1959). As divergências entre os dois foram no entanto importantes. Onde Lehman queria salientar o lado negro do drama criminal, Hitchcock estava mais interessado em aligeirar o tom. De facto o realizador explicaria mais tarde que para si a inspiração era imaginar como realizaria Ernst Lubitsch um thriller, de modo subtil, cómico e sofisticado.

Com o seu misto de humor negro e suspense, Hitchcock conta-nos a história de dois casais, ambos vivendo à margem da lei, mas enquando os “bons” se limitam a dar pequenos golpes em que enganam velhinhas ricas, para que Blanche (Barbara Harris) mantenha a aparência de médium, os “maus” são capazes de roubar, raptar, chantagear e mesmo matar.

Os bons são a citada Blanche e o seu cúmplice e amante George Lumley (Bruce Dern). São um pouco burlescos, atrapalhados, confusos, e por isso cómicos. Os maus são Arthur Adamson (William Devane) e a sua amante e cúmplice, Fran (Karen Black). São frios, calculistas, demasiadamente sérios, e por isso pouco merecedores da nossa simpatia. Como seria de esperar, em breve as histórias dos dois casais cruzam. Cruzam literalmente no ecrã, quando George tem de travar numa passadeira que Fran atravessa, deviando o foco da narrativa do primeiro para o segundo casal. Isto porque a mais recente cliente de Blanche (interpretada por Cathleen Nesbitt num papel que chegou a ser pretendido por Lilian Gish) se convence de que deve resolver um caso do seu passado, encontrando o sobrinho que forçou a sua irmã a abandonar enquanto bebé. Sob o incentivo de uma choruda recompensa, Blanche e George vão procurar o desaparecido sobrinho, acabando por chegar a Arthur Adamson. Só que este pensa que esse cerco se deve ao facto de ser um raptor, e por isso vai tentar livrar-se do casal que só lhe quer entregar uma herança milionária.

Com o humor presente em cada momento em que Barbara Harris e Bruce Dern partilham uma cena, por mais dramática que seja (veja-se como escapam ao carro sem travões, ela a caminhar sobre a cara dele), há ainda muito espaço para o suspense. Este surge, por exemplo, na célebre sequência do carro sem travões, ou na sequência final do rapto e salvação de Blanche. Com muito do filme rodado em exteriores, dir-se-ia que Hitchcock estava cada vez mais à vontade com isso, ele que sempre procurara interiores de estúdio (consta que teria mesmo adorado o set do cemitério, onde ocorrem alguns dos mais belos planos do filme, e que resultou de se pagar para não cuidar da vegetação durante um mês, para que ele tivesse o aspecto descuidado que o realizador desejava).

Se bem que num tom ligeiro, “Intriga em Família” integra alguma da iconografia do mestre, num twist do tema do falso culpado, aqui tornado falso inocente. Temos a habitual ironia (Adamson tenta matar aqueles que ele não sabe que apenas o querem beneficiar), e regressa a fria loura, embora aqui uma morena de peruca (Karen Black em mais um papel de transformação hitchcockiana) no momento de recolher os resgates. A figura de Fran, vestida de negro, de peruca loura sob um largo chapéu terá inspirado Brian De Palma para o seu “Vestida para Matar” (Dressed to Kill, 1980). De regresso estão também as tadicionais e eloquentes sequências mudas de Hitchcock.

O filme é aliás uma prova do momento que Hitchcock atravessava, sem nada para provar, e muito ainda com que se divertir. Do seu habitual cameo a detalhes deliciosos como o aparecimento de uma Bates Ave., ou a chamada de atenção para uma sanita química (Hitchcock fora o primeiro realizador de Hollywood a filmar uma sanita, em 1960 em “Psico”).

Também o quarteto de protagonistas se parece divertir. Todos eles tinham principalmente experiência de televisão (alguns com passagem pela série “Alfred Hitchcock Presents”), preparados, por isso, para tom que o filme deveria ter. Embora outros nomes tenham sido sugeridos, e nalguns casos chegado a fazer screen tests (Burt Reynolds e Roy Scheider como Arthur Adamson, Al Pacino e Jack Nicholson como George Lumley, Faye Dunaway como Fran, e Goldie Hawn como Blanche), Hitchcock revelou-se contente com as escolhas. William Devane foi mesmo uma adição forçada pelo realizador, que para isso despediu o já contratado, e já usado nas primeiras filmagens, Roy Thinnes.

“Intriga em Família” destaca-se ainda por ser o único filme do realizador com uma banda sonora de John Williams. Sem pertencer à galeria das obras-primas de Hitchcock, “Intriga em Família” é uma bonita despedida, cativante e divertida.

Como curiosidade final, fica o último plano, em que, pela primeira vez, um actor de Hitchcock (no caso Barbara Harris) quebra a quarta parede, para nos dar uma piscadela de olho. Foi último momento de cumplicidade com o seu público, numa carreira de 51 anos como realizador.

Produção:

Título original: Family Plot; Produção: Universal Pictures; País: EUA; Ano: 1972; Duração: 115 minutos; Distribuição: Universal Pictures; Estreia: 9 de Abril de 1976 (EUA), 10 de Novembro de 1977 (Cinemas Caleidoscópio e Tivoli, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Alfred Hitchcock [não creditado]; Argumento: Ernest Lehman [baseado no livro “The Rainbird Pattern” de Victor Canning]; Fotografia: Leonard J. South [cor por Technicolor]; Música: John Williams; Design de Produção: Henry Bumstead; Figurinos: Edith Head; Montagem: J. Terry Williams; Efeitos Especiais: Albert Whitlock; Cenários: James W. Payne; Directores de Produção: Ernest B. Wehmeyer, Hilton A. Green [não creditado]; Caracterização: Jack Barron, Doug Kelly [não creditado].

Elenco:

Karen Black (Fran), Bruce Dern (George Lumley), Barbara Harris (Blanche Tyler), William Devane (Arthur Adamson), Ed Lauter (Joseph Maloney), Cathleen Nesbitt (Julia Rainbird), Katherine Helmond (Mrs. Maloney), Warren J. Kemmerling (Grandison), Edith Atwater (Mrs. Clay), William Prince (Bispo Wood), Nicholas Colasanto (Victor Constantine), Marge Redmond (Vera Hannagan), John Lehne (Andy Bush), Charles Tyner (Wheeler), Alexander Lockwood (Parson), Martin West (Sanger).

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