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UkigumoSinopse:

No Japão do pós-guerra, Yukiko (Hideko Takamine) volta a Tóquio para procurar o amante que conhecera quando ambos trabalhavam na Indochina. Só que Tomioka (Masayuki Mori) é casado, e não tem lugar na sua vida para Yukiko. Esta tenta refazer a sua vida, com ajuda do interesseiro cunhado Iba (Isao Yamagata), até Tomioka voltar a tomá-la por amante. Mas quando Yukiko se habituava à sua nova condição, percebe que Tomioka tem nova amante, a casada Sei (Mariko Okada). Após um escândalo que leva à morte de Sei às mãos do marido (Daisuke Katō), Tomioka volta a procurar Yukiko, a qual, por mais que lute, nunca consegue deixar de querer Tomioka na sua vida.

Análise:

Mikio Naruse foi um dos mais populares realizadores japoneses dos anos 50 no seu país. Sem atingir no estrangeiro a fama de Kurozawa, Ozu ou Mizoguchi, Naruse era muito apreciado pelos seus pares. Os seus filmes são vulgarmente comparados aos de Ozu, pelo foco na sociedade japonesa do pós-guerra, e o uso de personagens comuns em histórias mundanas e dramas domésticos. Mas ao contrário de Ozu, que transmitia ideias num construir lento de situações ilustrativas, mas quase sem uma linha narrativa, Naruse apostava num drama de sentimentos revoltosos, situações de colapso e atmosfera pessimista, ainda que também ele filmando a calma zen de um haiku.

Exemplo cabal da cinematografia de Mikio Naruse é este “Nuvens Flutuantes”, baseado no livro homónimo de Fumiko Hayashi, publicado em 1951, e tendo como pano de fundo a sociedade dilacerada do Japão do pós-guerra.

Numa altura em que os Estados Unidos ainda apostavam quase exclusivamente no escapismo e fantasia (alicerçados num código de censura que vinha dos anos 30) como combustível primordial dos seus filmes, Naruse filma o resultado da guerra, sem pudor, numa história realista, que se aproxima imenso daquilo que em Itália, exactamente na mesma altura, se chamava Neo-realismo.

“Nuvens Flutuantes” conta-nos a história de uma mulher, Yukiko (Hideko Takamine), que regressa a Tóquio com o objectivo de encontrar Tomioka (Masayuki Mori), aquele com quem desenvolvera um romance durante a guerra, quando ambos trabalhavam na Indochina. Só que Tomioko é casado com Kuniko (Chieko Nakakita) e não tenciona deixar a mulher. Esta mais velha – Yukiko chega a perguntar se é mãe dele, – feia e doente, é o oposto da bela e jovem Yukiko. Tal traz Tomioka de volta, quando Yukiko já se conformava a viver sozinha e, sem emprego, tomara um soldado americano por amante. Só que, após o reatamento, e numa espécie de lua-de-mel longe da cidade, Tomioka vai trair Yukiko com outra mulher, a casada Sei (Mariko Okada), que o seguirá para Tóquio. Apercebendo-se disso Yukiko, entretanto grávida, aborta para não ser um peso para Tomioka, tendo que recorrer à ajuda do odiado cunhado Iba (Isao Yamagata), que no passado a violara. Ao ler que Sei foi morta pelo marido, e Tomioka despedido pelo adultério, Yukiko volta a procurá-lo. Seguem-se novas infidelidades e por fim uma proposta de emprego que leva Tomioka para longe de Tóquio. Percebendo que o seu amor por Tomioka desafia todo o bom senso, Yukiko insiste para que ele a leve consigo, ainda que a sua saúde esteja a definhar, e o clima da ilha para onde vão possa vir a ser fatal.

Assim, numa atmosfera bastante realista, e sem amarras de nenhuma ordem, Naruse aborda a dificuldade com o emprego no novo Japão, a crise de valores, a condição feminina, a prostituição, a traição masculina, o aborto, e a violação sexual dentro da família. É um Japão sem glória nem orgulho, sem brilho ou fascínio, onde a fotografia algo saturada de Masao Tamai realça a aridez (compare-se com o brilho dos flashbacks na Indochina). Num cenário, longe dos planos monumentais de Kurosawa e Mizoguchi, a atenção vira-se para o detalhe e a pequenez dos espaços e objectos, onde a ordem de Ozu é aqui substituída por um maior caos.

Sob o protagonismo de Hideko Takamine, a mesma que já brilhara em “Twenty-Four Eyes” (Nijûshi no hitomi, 1954) de Keisuke Kinoshita, o filme de Naruse é amargo e doloroso. Evitando (como apanágio do cinema japonês deste período) os dramatismos excessivos, Naruse salta os momentos dramaticamente mais marcantes. Por isso não vemos as traições de Tomioka, as suas idas e vindas, o assassinato de Sei, a morte de Kuniko, ou o aborto de Yukiko. Todos estes factos nos chegam quando os personagens os comentam ou a eles reagem mais tarde, num avançar narrativo que quase nos escapa, para sentirmos apenas o evoluir sentimental de Yukiko.

Interpretando uma mulher presa a um amor impossível de um homem que não a respeita nem merece, Hideko Takamine compõe uma Yukiko inesquecível, forte e fraca em medidas iguais. Desejo de todos os homens, mas usada sem escúpulos por eles. Tenaz nos seus propósitos, mas frágil contra um mundo que avançou depressa demais, e a deixa presa ao passado que na Indochina pareceu idílico.

“Nuvens Flutuantes” venceu vários prémios do Japão tendo em 1995 chegado a ser considerado o terceiro melhor filme de sempre naquele país.

Produção:

Título original: Ukigumo; Produção: Toho Company; Produtor Executivo: Sanezumi Fujimoto; País: Japão; Ano: 1955; Duração: 123 minutos; Estreia: 15 de Janeiro de 1955 (Japão).

Equipa técnica:

Realização: Mikio Naruse; Produção: Sanezumi Fujimoto; Argumento: Yōko Mizuki [a partir do livro homónimo de Fumiko Hayashi]; Fotografia: Masao Tamai [preto e branco]; Música: Ichirō Saitō; Design de Produção: Satoru Chūko; Montagem: Eiji Ooi; Direcção de Produção: Ryoichi Itaya.

Elenco:

Hideko Takamine (Yukiko Koda), Masayuki Mori (Kengo Tomioka), Mariko Okada (Sei Mukai), Daisuke Katō (Seikichi Mukai), Isao Yamagata (Sugio Iba), Chieko Nakakita (Kuniko Tomioka), Mayuri Mokushô (Nomiya no musume), Noriko Sengoku (Yakushima no okaasan), Fuyuki Murakami (Futsuin no shikensho-chou), Heihachirô Ôkawa (Isha), Nobuo Kaneko (Futsuin no shoin – Suitou), Roy James [como Roi H. Jêmusu] (Soldado Americano), Kan Hayashi, Akira Tani (Shinja), Seijiro Onda, Keiko Mori (Futsuin no jochuu).

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