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Chikamatsu MonogatariSinopse:

No Japão do século XVII, Mohei (Kazuo Hasegawa) é um artífice do Grande Impressor Ishun (Eitarō Shindō), o principal editor de Quioto. Quando Osan (Kyoko Kagawa), esposa de Ishun, pede ajuda a Mohei para saldar uma dívida do seu irmão, Mohei pensa dar um desfalque no patrão, algo de que se vem a arrepender. No seguimento, o avarento Ishun tenta vingar-se de Mohei, declarando-o amante ilícito de uma das suas empregadas (Yōko Minamida). Sentindo-se culpada, e traída por um marido que despreza, Osan ajuda Mohei a fugir, e os dois são considerados amantes. Ishun tenta então capturá-los em separado, para evitar a humilhação da sua casa, enquanto Mohei e Osan, lutando contra as adversidades, se apaixonam a sério um pelo outro.

Análise:

Continuando na Daiei, e com o seu colaborador Yoshikata Yoda na escolha e tratamento dos argumentos, Kenzi Mizoguchi continuou com “Os Amantes Crucificados” a sua temática do sofrimento dos desprivilegiados. Novamente com um filme de época, Mizoguchi usa o pano de fundo o ano de 1693 para nos mostrar uma sociedade fortemente hierarquizada, onde reputações e condutas morais têm um peso importantíssimo na definição dos laços e posições sociais.

O mote é-nos dado logo no início, quando na oficina do Grande Impressor Ishun (Eitarō Shindō) todos acorrem a espreitar o cortejo que conduz um par de amantes ilícitos (a esposa de um samurai e um seu empregado) ao local de execução. Tal mostra-nos, não só o modo como são as relações ilegais castigadas, como ainda o que espera uma casa em que tal ocorra, em particular se o marido traído (e note-se que é apenas este a ter uma palavra a dizer, nunca uma mulher traída) não fizer justiça pelas próprias mãos.

O marido, que desde logo pressentimos que poderá ser vítima de traição, é o próprio Ishun, um prepotente e avarento dono de uma oficina de estampagem de desenho de artigos em papel, requisitado pela corte e instituições oficiais. O seu principal artífice é Mohei (Kazuo Hasegawa), que comete o erro de querer ajudar a mulher do patrão, a jovem Osan (Kyoko Kagawa) que quer pagar uma dívida do irmão. Mohei começa por pensar desfalcar o patrão, mas arrepende-se, confessando. Só que Ishun está magoado pois acabou de ser rejeitado pela empregada Otama (Yōko Minamida), apaixonada de Mohei, e que inventara estar noiva dele, para escapar ao assédio do patrão.

A teia urdida por Mizoguchi, quase que como numa comédia de enganos, tem como consequência um beco sem saída para Mohei, que acaba preso pelo patrão, e um sentimento de culpa para Osan, a qual tenta expor a indiscrição do marido, e salvar Mohei (a cena em que troca de quarto com Otama, resulta na troca do seu papel, ela tornando-se a companheira de infortúnio e de amor de Mohei). O resultado é a fuga de ambos, quando são tidos como amantes, precipitando-lhes uma queda sem fim.

A princípio por medo, depois por amor, Mohei e Osan resistem à racionalidade e fazem tudo para continuar juntos. Note-se como o constatar do amor mútuo é aquilo que os demove do suicídio planeado, como se um amor condenado por todos fosse a sua salvação. Ao mesmo tempo Ishun quer vingança, mas sem alarido, pois o adultério traz desgraça à sua casa, ainda aumentada pelo facto de não ter alertado as autoridades.

Está-se a partir de então no campo da moral de uma época que recrimina e castiga impiedosamente. Tal o medo da reputação trazida pelo acto tão repudiado, que em sucessivas vinhetas vemos como os amantes viajam sob falsos pretextos, ou como são rejeitados pelo pai de Mohei, e pela mãe de Osan, um e outra prontos a denunciá-los, por não compreenderem como podem os filhos ter cometido tal crime.

Mohei e Osan são, por isso, amantes que não o podem ser, desafiando toda a sociedade do seu tempo e pagando consequentemente o seu preço, como é típico dos heróis de Mizoguchi. Antes de apanhados já foram condenados, quer por Ishun, quer pelas suas famílias quer por conhecidos e estranhos.

A bonita fotografia de Mizoguchi (incluindo cenários reais, interiores, e cenas nocturnas de estúdio com a sua habitual beleza onírica) marca também “Os Amantes Crucificados”, não faltando os longos planos-sequência, e desta vez indo mais longe no uso das expressões faciais para transmitir emoção. Não faltam os seus celebrados planos gerais, como aquele de grua, dando a panorâmica do cortejo final, que se afasta para o fim anunciado, a juntar-se aos finais de notável beleza a que Mizguchi nos habituou.

Talvez nunca como aqui se notou a paixão de Mizoguchi pelos seus heróis, no modo terno como nos dá a ver o seu sofrimento e luta. Não evitando as suas elipses (não vemos como os amantes são apanhados, como não vemos o julgamento de Ishun, como antes não víramos o caminho da reunião dos amantes após as visitas aos respectivos progenitores), Mizoguchi centra-se nos sentimentos, e não na acção. Sendo uma crónica de uma tragédia anunciada (ainda que por momentos Mizoguchi quase nos faça acreditar que o par trágico é Mohei e Otama), a força do drama está nesse aceitar do papel dos amantes, condenados antes do “crime”, mas salvos interiormente do seu próprio desespero ao cometê-lo (isto é, no momento em que aceitam essa paixão).

Num mundo hipócrita, quer de Ishun, que mente e usa para defender o seu dinheiro e posição; quer de Sukeemon, que trai o amigo Mohei e mais tarde o patrão; quer do rival de Ishun, disposto a tudo para lhe roubar o lugar; quer ainda da mãe de Osan, que vende a própria filha para salvar a posição da família; é sobretudo a hipocrisia de uma sociedade que a história de Mizoguchi denuncia. Nela, num paralelismo certamente não pretendido ao cristianismo, é pela cruz que se salva o único par verdadeiramente bondoso e fiel aos seus sentimentos, e cuja caminhada final é feita com a serenidade de um sorriso.

Como acontecera já anteriormente. “Os Amantes Crucificados” foi mais um filme de Mizoguchi apresentado em festivais europeus (Cannes, neste caso), o que contribuiu para o aprofundar do prestígio do realizador japonês.

Produção:

Título original: Chikamatsu monogatari; Produção: Daiei Films; País: Japão; Ano: 1954; Duração: 97 minutos; Distribuição: Daiei Films; Estreia: 23 de Novembro de 1954 (Japão), 4 de Dezembro de 1976 (Fundação Calouste Gulbenkian, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Kenji Mizoguchi; Produção: Masaichi Nagata; Argumento: Yoshikata Yoda [adaptado por Matsutarō Kawaguchi, a partir da peça “Daikyoji Sekireki” de Monzaemon Chikamatsu]; Fotografia: Kazuo Miyagawa [preto e branco] Design de Produção: Hisakazu Tsuji; Direcção Artística: Hiroshi Mizutani; Música: Fumio Hayasaka, Tamezō Mochizuki; Figurinos: Natsu Itō; Montagem: Kanji Suganuma; Cenários: Yaichi Ebise; Caracterização: Masanori Kobayashi; Direcção de Produção: Masatsugu Hashimoto, Hiroshi Ozawa.

Elenco:

Kazuo Hasegawa (Mohei), Kyoko Kagawa (Osan), Eitarō Shindō (Ishun), Eitarō Ozawa [como Saka Ozawa] (Sukeemon), Yōko Minamida (Otama), Ichiro Sugai (Gembei), Haruo Tanaka (Gifuya Dōki), Tatsuya Ishiguro (Isan), Chieko Naniwa (Okō), Hiroshi Mizuno (Kuroki), Hisao Tōake (Morinokoji), Kazue Tamaki (Jūshirō Umegaki), Kimiko Tachibana (Umetatsu Akamatsu), Keiko Koyanagi (Okaya), Sayako Nakagami (Osono), Kanae Kobayashi (Otatsu).

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