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Coco Chanel & Igor StravinskyEm Paris, 1913, Igor Stravinsky (Mads Mikkelsen) e os Ballet Russes de Diaghilev (Grigori Manoukov) estreiam “A Sagração da Primavera”. Para muitos, música e coreografia são um escândalo, e a estreia tem uma recepção violenta. Entre o público está a jovem estilista Coco Chanel (Anna Mouglalis), que se deixa fascinar pela nova linguagem de Stravinsky. Anos mais tarde, em 1920, Chanel, já uma famosa designer, conhece Stravinsky, então fugido da Rússia comunista, e oferece-se como sua patrona. Este aceita e muda-se para a sua casa de campo com a família. Cedo começa uma ligação amorosa entre os dois, que põe em risco a vida familiar do compositor.

Análise:

Igor Stravinsky (1882-1971) foi um dos compositores mais revolucionários e polémicos do início do século XX. Abraçando a tradição sinfónica russa, Stravinsky modernizou-a com a sua linguagem própria, tendo estado nas maiores tendências de vanguarda da música do seu tempo, como o neoclassicismo e o serialismo. Por associação com os Ballet Russes de Sergei Diaghilev, a sua música ganhou projecção em famosos e controversos bailados, como foi o caso de “A Sagração da Primavera”, cujo papel é um dos temas centrais deste filme.

Numa co-produção franco-suíça, com financiamento japonês, Jan Kounen usou um elenco internacional para recriar a sociedade francesa dos anos 1920, onde se se concentrava a nata da cultura e arte mundiais, numa década de desafio às convenções e liberdade total na escolha de novos caminhos criativos. Exemplo disso são a estilista Coco Chanel, e o citado compositor, cujo encontro e relação constituem o cerne do filme.

Stravinsky, descrito como um homem de família, tradicionalista nos seus costumes, e devoto ortodoxo, deixara a Rússia comunista, rejeitando a solução política do seu país, para tentar dar um futuro diferente à sua família. Segundo os diários da própria Chanel, uma mulher extremamente independente para o seu tempo, terá existido uma breve relação amorosa entre ambos, explorada no livro de Chris Greenhalgh “Coco & Igor”, publicado em 2002, e no qual o filme de Kounen se baseia.

Em “Coco Chanel & Igor Stravinsky” os protagonistas são a francesa Anna Mouglalis e o dinamarquês Mads Mikkelsen, e é em torno da relação entre eles que o filme se move. Kounen mostra-nos dois seres cuja arte e génio pessoal os torna almas isoladas, e que por isso vão conhecer um fascínio mútuo. Se Stravinsky é revolucionário na sua arte, é conservador no comportamento, enquanto Chanel é moderna na forma de agir e pensar. Tal oposição atrai os dois criadores, para uma relação que nunca é desprovida de conflito, dadas as diferenças entre eles.

Embora com a componente musical presente na narrativa (com destaque para a apresentação de 1913 de “A Sagração da Primavera”, procurando recriar a coreografia original de Nijinsky), o filme preocupa-se essencialmente em mostrar o efeito de Chanel em Stravinsky, numa interpretação ao jeito gélido de Mikkelsen. Dada uma especial atenção à sedução, que rapidamente parece levar ao desinteresse de Chanel e à perda de compostura de Stravinsky, a situação resolve-se após o sentido apelo da esposa do compositor (Elena Morozova) que comove a estilista.

Filmado com elegância e sobriedade, “A Sagração da Primavera” tem uma relação fria com as suas personagens, procurando fazer-nos adivinhar os seus estados de espírito quase à distância. Sem um tema fortemente apelativo, o filme limita-se a um narrar sóbrio de uma relação sem chama. Essa frieza torna-o um interessante estudo, mas incapaz de ser mais que isso.

Perdido entre o biopic e drama amoroso, o filme teve uma recepção fria nos países envolvidos na sua produção.

Produção:

Título original: Coco Chanel & Igor Stravinsky; Produção: Hexagon Pictures / Eurowide Film Production /Filmazure / Cinémage 3 / Centre National de la Cinématographie (CNC) / Canal+ / TPS Star / Wild Bunch / Région Ile-de-France; País: França / Japão / Suíça; Ano: 2009; Duração: 119 minutos; Distribuição: Wild Bunch Distribution (França), Sony Pictures Classics (EUA); Estreia: 29 de Maio de 2009 (Cannes Film Festival, França), 31 de Julho de 2009 (Noruega), 3 de Dezembro de 2009 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jan Kounen; Produção: Claudie Ossard, Chris Bolzli; Co-Produção: Veronika Zonabend; Produtores Associados: Kazutaka Kimori [Hexagon Pictures], Yoichi Sakai [Hexagon Pictures], Albina Boeckli, Vladimir Shestakov, Vitalli Bushtynsky, Mu Shu Ping, Glada et Barbara Falzoni; Argumento: Chris Greenhalgh [adaptado por Carlo De Boutiny e Jan Kounen, a partir do livro “Coco & Igor” de Chris Greenhalgh]; Coreografia: (A Sagração da Primavera): Dominique Brun; Fotografia: David Ungaro; Montagem: Anny Danché; Director de Produção: Philippe Delest; Figurinos: Chattoune, Fab; Caracterização: Joël Lavau; Design de Produção: Marie-Hélène Sulmoni; Cenários: Philippe Cord’homme, Kathy Lebrun; Efeitos Visuais: Rodolphe Chabrier, Benoit Philippon; Música: Igor Stravinsky, Gabriel Yared, Marek Tomaszewski; Orquestração e Direcção Musical: Jeff Atmajian.

Elenco:

Anna Mouglalis (Coco Chanel), Mads Mikkelsen (Igor Stravinsky), Elena Morozova (Katarina Stravinskaya), Natacha Lindinger (Misia Sert), Grigori Manoukov (Sergey Diaghilev), Radivoje Bukvic [como Rasha Bukvic] (Grão-duque Dimitri), Nicolas Vaude (Ernest Beaux), Anatole Taubman (Arthur ‘Boy’ Capel), Erick Desmarestz (Le médecin), Clara Guelblum (Milena Stravinskaya), Maxime Daniélou (Teodor Stravinsky), Sophie Hasson (Ludmila Stravinskaya), Nikita Ponomarenko (Sulima Stravinskaya), Catherine Davenier (Marie), Olivier Claverie (Joseph), Marek Kossalowski (Vaslav Nijinsky), Jeróme Pillement (Pierre Monteux), Anton Yakovlev (Anton).