Etiquetas

, , , , , , , , , , ,

GojiraSinopse:

Alguns navios começam a naufragar ao largo de uma ilha do Japão, em condições inexplicáveis. A única explicação vem dos pescadores que recitam a lenda de Godzilla, um monstro submarino que um dia voltará a assolar os homens. A investigação à ilha, liderada pelo professor Kyohei Yamane (Takashi Shimura) encontra pegadas radioctivas e trilobites, concluindo que recentes testes nucleares trouxeram à superfície algo muito antigo. Um ataque do monstro mostra a todos o que têm pela frente. Quando Emiko (Momoko Kōchi), a filha do professor Yamane, descobre que o seu antigo noivo Daisuke Serizawa (Akihiko Hirata) testa uma nova fonte de energia, pensa que pode ser ela a solução para acabar com o monstro que cada vez se aventura mais sobre as cidades japonesas.

Análise:

Mostrando que a era dourada do cinema japonês dos anos 50 e 60 não consistiu apenas em filmes de autor, surgia em 1954 um dos filmes daquele país que mais marcaria o cinema ocidental. Produto dos estúdios Toho, uma das maiores produtoras japonesas de então, ganhava forma o filme que internacionalmente ficou conhecido como “Godzilla”, um filme que faz apelo à espectacularidade de acção e efeitos especiais, num ambiente catástrofe e mesmo apocalíptico, e que inauguraria o género Kaiju Eiga (filmes japoneses de monstros).

O momento era ainda o pós-guerra. Terminada a ocupação aliada em 1952, os autores japoneses começavam a questionar as consequências da tragédia nuclear que se abatera sobre o seu país. Ishirō Honda, um realizador cuja carreira ficou marcada por este filme, confessou que era o nuclear que o movia, em particular os ensaios americanos desse mesmo ano no pacífico, que era um mexer na ferida ainda tão recente na memória do povo japonês.

Assim, em jeito de metáfora, Ishirō Honda co-escreveu o argumento que coloca um monstro pré-histórico (o emblemático Godzilla), como personificação do poder do nuclear, e ao mesmo tempo um castigo da natureza sobre aqueles que se atrevem a tocar em forças que deviam ser deixadas em repouso.

Após o desaparecimento de alguns navios, a velha lenda ganha forma e os pescadores acreditam que Godzilla, um monstro mitológico, voltou. A estes arautos da desgraça, que funcionam como mensageiros de um mundo de superstição, perigoso, desconhecido, e o qual não devemos incomodar, juntam-se depois os homens da ciência.

O primeiro é o professor Yamane (Takashi Shimura), que vai acumulando provas para explicar que os tais testes nucleares trouxeram à superfície um animal pré-histórico, a quem a radiação veio dar uma força indestrutível. E se Yamane nutre alguma simpatia pelo monstro e quer, acima de tudo, estudá-lo (num novo exemplo de como a ciência é demasiado cega para se preocupar com o bem estar do homem), as autoridades não pensam assim.

Então, numa atitude tipicamente humana, decide-se pela destruição daquilo que não se conhece. Todo o armamento humano é usado em vão, numa nova prova da inferioridade japonesa perante um mundo em mudança. O resultado é apenas mais violência e destruição da parte do monstro. Como que mostrando que quanto mais os homens fizerem de anti-natural, mais a natureza os vai castigar.

A solução virá de outra parte, num secundário enredo amoroso que liga a filha do professor Yamane, Emiko (Momoko Kōchi) ao seu ex-noivo, o cientista Daisuke Serizawa (Akihiko Hirata). Este desenvolveu uma nova forma de energia que quebra as moléculas de oxigénio matando todos os seres vivos em redor. Embora relutante, Emiko e o namorado, o intrépido capitão Hideto Ogata (Akira Takarada), convencem Serizawa, e este entregará a sua arma letal. Só que ao perceber a destruição que causará, Serizawa acaba por se lançar numa missão suicida, garantindo assim que mata Godzilla, que a sua arma desapareça, e que ele próprio pereça para que nunca mais se possa reconstituir a força destruidora por si descoberta.

Com tanta ênfase no tema na destruição, o filme é uma sequência de catástrofes, que lança um pânico que é eco da devastação nuclear que o Japão sofreu com as bombas de Hiroxima e Nagasaqui. No filme de Honda esse efeito do nuclear está sempre presente, numa generalização do poder destrutivo da ciência humana. Inicia-se um problema com testes nucleares, e ele é resolvido com armas que ainda nem imaginamos, mas que podem ser até mais destrutivas. Por isso o seu autor, representando todos os cientistas que concebem cegamente, se sacrifica. Não é um final feliz, já que a sombra continua a pairar, e é verbalizada pelo professor Yamane, que alerta para o perigo de outros Godzillas poderem surgir que a corrida ao nuclear continuar. Ironicamente é como se o personagem previsse a franchise em que Godzilla se tornaria.

Mas independentemente da metáfora que atravessa o filme e Godzilla, este “O Monstro do Oceano Pacífico” espantou pela capacidade de criar um ícone que perdura até hoje no cinema. Com uma escolha acertada ao filmar a preto e branco, Honda minimiza assim os riscos de efeitos especiais rudimentares. O uso da noite, e o truque de ir revelando o monstro aos poucos, e só depois de criada a tensão com os seus efeitos devastadores, jogam também a favor do filme. Este é, assim, uma lição de bem filmar, criando tensão e terror sem depender exclusivamente de efeitos especiais, como tantos filmes modernos fazem.

De facto a Toho estava pressionada para fazer um filme rápido, no que há partida parecia o caso perdido de um pseudo-dinossauro (os designers inspiraram-se em dinossauros para desenharem Godzilla) que, como um dragão que cospe fogo, cuspia radiação nuclear. A inspiração vinha da história de Shigeru Kayama sobre o incidente real do barco Lucky Dragon 5, cuja tripulação sofreu os efeitos de um teste nuclear no Pacífico, e do filme de Eugène Lourié “O Monstro dos Tempos Perdidos” (The Beast From 20,000 Fathoms, 1953), então acabado de estrear, e que misturava ficção científica e monstros terríficos de acção devastadora.

Nem mesmo as ambições de filmar em stop motion foram concretizadas (exceptuando algumas curtas sequências). Decidiu-se pelo método mais simples, um duplo movendo-se vestindo o fato do monstro por entre cidades construídas em maqueta. Dadas as limitações, mais ainda o trabalho de Ishirō Honda se mostra excepcional.

“O Monstro do Oceano Pacífico” foi um sucesso imediato no Japão, que aumentaria com os anos. Nos Estados Unidos o filme foi alvo de diversas montagens e inclusão de novas cenas, surgindo mesmo com títulos diferentes nas suas diferentes reposições. Não obstante, o filme foi ganhando o seu culto, e aos poucos tendo um público para quem o nome Godzilla impressionava.

Só na Toho “O Monstro do Oceano Pacífico” originou 27 sequelas, na maior parte dos casos, autênticas feiras de monstros, com Godzilla a combater outros seres fantásticos, para gáudio dos seus fãs. As imitações e as paródias sucederam-se também no exterior, e Godzilla chegou à banda desenhada e à televisão. Em anos recentes Hollywood serviu-se dele, por exemplo, para os seus blockbusters de 1998 e 2014, realizados por Roland Emmerich e Gareth Edwards, respectivamente.

Produção:

Título original: Gojira [Título americano: Godzilla]; Produção: Toho Film (Eiga) Co. Ltd.; País: Japão; Ano: 1954; Duração: 96 minutos; Distribuição: Toho Company; Estreia: 3 de Novembro de 1954 (Japão), 24 de Julho de 1957 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ishirō Honda; Produção: Tomoyuki Tanaka; Argumento: Ishirō Honda, Takeo Murata; História: Shigeru Kayama; Fotografia: Masao Tamai [preto e branco]; Design de Produção: Satoru Chuko, Takeo Kita; Montagem: Kazuji Taira [como Taichin Taira]; Direcção Artística: Satoru Chuko, Takeo Kita; Música: Akira Ifukube; Direcção de Produção: Teruo Maki; Efeitos Especiais: Sadamasa Arikawa, Eiji Tsuburaya.

Elenco:

Akira Takarada (Hideto Ogata), Momoko Kōchi (Emiko Yamane), Akihiko Hirata (Daisuke Serizawa), Takashi Shimura (Kyohei Yamane), Fuyuki Murakami (Professor Tanabe), Sachio Sakai (Jornalista Hagiwara), Toranosuke Ogawa (Presidente da Companhia), Ren Yamamoto (Masaji Sieji), Hiroshi Hayashi (Secretário do Comité), Seijirô Onda (Deputado Oyama), Tsuruko Mano (Sra. Sieji), Takeo Oikawa (Chefe do Comando de Emergência), Toyoaki Suzuki (Shinkichi Sieji), Kuninori Kôdô (O Velho Pescador), Tadashi Okabe (Assistente do Professor Tanabe).

Anúncios